sexta-feira, 24 de janeiro de 2014

CONVERSAÇÃO, UM PASSATEMPO DE OUTRAS ERAS



Seguem algumas frases ou expressões sobre a arte da conversa, coisa praticamente inexistente no mundo atual:
A CONVERSAÇÃO 
• “Esto brevis et placebis” – Sê breve e agradarás. (aforismo latino). • Política é conversa. O resto é... conversa fiada. (Otávio Mangabeira). 
• Conversar é, como as abelhas, fazer mel de qualquer coisa. (La Fontaine). 
• Há palavras que sobem como a chama e outras que descem como a chuva. (Maria d’Agouit). 
• Os homens com quem se fala não são os homens com os quais se conversa. (Rousseau). 
• O melhor prazer da vida é a prosa. (Plínio Corrêa de Oliveira). 
• A conversa é um intercâmbio de duas personalidades que falam sobre matéria atraente e que interessa a ambos. Será ainda mais autêntica, se o meu interlocutor puser certa nota pessoal em suas palavras, fazendo com que eu goste de ouvi-lo. Isso é um elemento fundamental da conversa. (Plínio Corrêa de Oliveira). 
• Uma hora de conversa vale mais do que cinqüenta cartas. (Mme. de Sévigné). 
• As palavras, como as abelhas, têm mel e ferrão (Ditado suíço). 
• “La parole est d’argent, mais le silence est d’or” – A palavra é de prata, mas o silêncio é de ouro (Máxima traduzida do árabe por Duchemond, in Recueil d’adages, 1867, p. 121). 
• “Quand une femme a le don de se taire, elle a des qualités au-dessus du vulgaire” – Quando uma mulher tem o dom de calar-se é porque tem qualidades acima do comum delas (Corneille, Le Menteur, Acte I, sc. 4). 
• O homem de palavra é ordinariamente o que menos fala. (Marquês de Maricá). 
• Use palavras leves e argumentos pesados (Adágio inglês). 
• Quando falares, cuida para que tuas palavras sejam melhores que o silêncio (Provérbio indiano). 
• Não deixe que sua língua o mantenha surdo (Adágio indígena americano). 
• Quem muito fala, muito erra e muito enfada (Ditado popular). 
• O que convence é o caráter de quem fala e não o argumento (Menandro). 
• Temos dois ouvidos e apenas uma boca para ouvir mais e falar menos (Ditado popular). 
• O ouvido não foi feito para fechar mas a boca foi (Ditado popular). 
• “Non minus interdum oratorium esse tacere quam dicere” – Às vezes calar não é menos eloqüente do que falar (Plínio, o Jovem). 
• “Taciturnitas stulto homini pro sapientia est” – O silêncio é a sabedoria do tolo (Publílio Siro). 
• “Stultos quoque, si tacuerit, sapiens reputabitur et, si compresserit labia sua, intellegens” – Até o insensato passará por sábio, se estiver calado; e por inteligente, se cerrar os seus lábios”. (Provérbios, 17, 28). 
• “Ex abundantia enim cordis os loquitur” – Da abundância do coração fala a boca (Mt 12, 34). 
• A literatura em muitos dos seus ramos não passa de sombra da boa conversação (Robert Louis B. Stevenson - séc. XIX). 
• As conversas familiares, os diálogos amigáveis são meios bastante eficazes. Oh! Quanto bem produzem! (Santo Antonio Maria Claret).
• A Revolução causou à sociedade uma perda imensa, talvez irreparável... ela matou a conversação (Conde Pierre Louis Roederer, Paris 1754/1835). 
• A conversação era, nessa época, brilhante, o emprego do espírito, o sal mais fino do “savoir plaise”, do “savoir vivre”, do “sprit de Cour”. Era a recreação por excelência. Finesse, “grace, limpidité, rapidité”, arte de esconder o pensamento ou a malícia sob o véu transparente dos subentendidos, palavras que iam além do que elas exprimiam, “plaisantierie”, “repartie”... eis algumas das ritulantes preciosidades que faiscavam à luz das velas, antes de caírem magnificamente, principescamente, como fitas de seda, nos tapetes finos daqueles salões aristocráticos” (G. Lenotre – “Gens de la Vieille France”). 
• Na verdade, se a boca fala da abundância do coração, é preciso igualmente que cale a língua quando há escassez de pensamentos. (São Bernardo) 
• “Alienis quippe oculis, intra secretum mentis, quase post parietem corporis stamus; sed cum manifestare nosmetipsos cupimus, quase per linguae iahuam egredimur, ut quales sumus intrinsecus ostendamos” (SANCTI GREGORII MAGNI, Expositio in librum Job libri XXXV (Moralium), liber II, cap. VI, vers. 8; PL 75, p. 559 - Aos olhos dos demais, na parte secreta da mente, estamos como que por detrás da parede do nosso corpo; mas quando desejamos nos manifestar, saímos como que pela porta da língua para mostrar o que somos em nosso interior”  .

domingo, 13 de outubro de 2013

Aspecto varonil da feminilidade de Maria Quitéria



Maria Quitéria, heroína da guerra de nossa Independência na Bahia, é apresentada por certa corrente feminista como detentora de masculinidade, haja vista que se vestiu de homem para ingressar nas tropas que lutavam no Recôncavo baiano contra os portugueses. Não é bem assim que a viu Maria Graham quando esteve no Brasil e recebeu a visita da famosa baiana, no Rio de Janeiro. O fato foi registrado pela inglesa em seu famoso diário e ocorreu no dia 29 de agosto de 1823, poucos dias após o fim da guerra de independência na Bahia, ou “Guerra do Recôncavo” como ficou conhecida na época:
Os portugueses, comandados pelo general Madeira, resolveram não reconhecer a independência do Brasil: houve reação local e logo travou-se uma guerra entre as forças portuguesas e os patriotas locais, somente terminada no dia 02 de julho de 1823, quase um ano após o brado de independência dado por Dom Pedro I. Por puro amor à Pátria, Maria Quitéria resolveu ingressar nas nossas tropas fazendo-se passar por homem.
Segue abaixo o relato do encontro entre Maria Quitéria e Maria Graham:

“Recebi hoje a visita de D. Maria de Jesus, jovem que se distinguiu ultimamente na guerra do Recôncavo[1]. Sua vestimenta é a de um soldado de um dos batalhões do Imperador, com a adição de um saiote escocês, que ela me disse ter adotado da pintura de um escocês, como um uniforme militar mais feminino. Que diriam a respeito os Gordons e os Mac Donalds? O traje dos velhos celtas, considerado um atrativo feminino?! – Seu pai é um português, chamado Gonçalves de Almeida[2], e possui uma fazenda no rio do Pex [peixe], na paróquia de S. José, no Sertão, cerca de 40 léguas para o interior de Cachoeira. Sua mãe era também portuguesa; contudo, as feições da jovem, especialmente os olhos e a testa, apresentam os mais acentuados traços dos índios. Seu pai tem outra filha da mesma mulher, depois de cuja morte ele se casou de novo; a nova mulher e as crianças faziam com que a casa não fosse muito confortável para D. Maria de Jesus. A fazenda do Rio do Peixe é principalmente de criação, mas o proprietário raramente sabe ou conta as suas cabeças. O Senhor Gonçalves, além do gado, planta algum algodão, mas como no sertão passa às vezes um ano sem chover, a produção é incerta. Nos anos de chuva ele pode vender quatrocentas arrobas, por 4 a 5 mil réis; nas estações secas dificilmente pode colher acima de sessenta ou setenta arrobas, que podem alcançar de seis a sete mil réis. Sua fazenda emprega vinte e seis escravos.
As mulheres do interior fiam e tecem para sua casa, como também bordam lindamente. As moças aprendem o uso de armas de fogo, tal como seus irmãos, seja para caçar seja para defenderem-se de índios brabos.
D. Maria contou-me diversas particularidades relativas a suas próprias aventuras. Parece que, logo no começo da guerra do Recôncavo, percorreram o país em todas as direções emissários do governo para inscrever voluntários; que um desses chegou um dia à casa de seu pai, na hora do jantar; que seu pai o havia convidado a entrar e que depois da refeição ele começou a falar sobre o objetivo de sua visita. Começou ele a descrever a grandeza e riqueza do Brasil e a felicidade que poderia alcançar com a Independência. Atacou a longa e opressiva tirania de Portugal e a humilhação em submeter-se a ser governado por um país tão pobre e degradado. Ele falou longa e eloqüentemente dos serviços que Dom Pedro prestara ao Brasil, de suas virtudes e nas da Imperatriz, de modo que, afinal, disse a moça: “Senti o coração ardendo em meu peito”. Seu pai, contudo, não partilhava em nada seu entusiasmo. Era velho, e disse que nem poderia juntar-se ao exército, nem tinha um filho para ali enviar; e quanto a dar um escravo para as tropas, que interesse tinha um escravo em bater-se pela independência do Brasil? Ele esperaria com paciência o resultado da guerra e seria um pacífico súdito do vencedor. Dona Maria escapuliu então de casa para a casa de sua irmã, que era casada e morava a pequena distância. Recapitulou o grosso do discurso do visitante e disse que desejaria ser homem para poder juntar-se aos patriotas. “Pelo contrário”, disse a irmã, “se não tivesse marido e filhos, por metade do que você diz, eu me juntaria às tropas do Imperador”. Isto foi bastante. Maria obteve algumas roupas pertencentes ao marido da irmã, e como seu pai estava para ir a Cachoeira a fim de negociar algum algodão, resolveu aproveitar a ocasião e partir atrás dele, bastante perto para ter proteção em caso de acidente na estrada, bastante longe para escapar de ser presa. Afinal, à vista de Cachoeira, parou; e saindo da estrada, vestiu-se à moda masculina e entrou na cidade. Isto foi sexta-feira. No domingo ela arranjou as coisas tão bem que já havia entrado no Regimento de Artilharia e montado guarda. Ela era muito fraca, porém, para esse serviço e transferiu-se para a infantaria, onde está agora. Foi enviada para aqui, creio eu, com despachos, e para ser apresentada ao Imperador que lhe deu o posto de alferes e a ordem do Cruzeiro, cuja condecoração ele próprio impôs em sua túnica.
Ela é iletrada, mas inteligente. Sua compreensão é rápida e sua percepção aguda. Penso que, com educação, ela poderia ser uma pessoa notável. Penso que, com educação, ela poderia ser uma pessoa notável. Não é particularmente masculina na aparência; seus modos são delicados e alegres. Não contraiu nada de rude ou vulgar na vida do campo e creio que nenhuma imputação se consubstanciou contra sua modéstia.  Uma coisa é certa: seu sexo nunca foi sabido até que seu pai requereu a seu oficial comandante que a procurasse.
Não há nada de muito peculiar em suas maneiras á mesa, exceto que ela come farinha com ovos ao almoço e peixe ao jantar, em vez de pão, e fuma charuto após cada refeição, mas é muito sóbria”.

(“Diário de Uma Viagem ao Brasil” – Maria Graham – Cia. Editora Nacional – SP – págs. 329/331)

 Segue abaixo, uma de suas biografias:

Maria Quitéria (1792-1853) foi militar brasileira. Pioneira na luta de reconhecimento da independência. Baiana de nascimento e com grande habilidade no uso da arma de fogo, inscreveu-se como voluntária para lutar contra as províncias que não reconheciam D.Pedro como imperador. A Bahia tinha grande contingente militar português e apresentou resistência às forças do imperador. Para comandar as tropas brasileiras D.Pedro enviou à Bahia o general Pierre Labatut, que organizou as tropas e que obtiveram as primeiras vitórias contra os portugueses. Maria Quitéria teve atuação destacada em lutas importantes. Foi condecorada com a Ordem Imperial do Cruzeiro do Sul.
Maria Quitéria de Jesus (1791-1853) nasceu no dia 27 de julho, no sítio do Licorizeiro, no arraial de São José de Itapororocas, hoje Feira de Santana na Bahia. Filha do fazendeiro Gonçalo Alves de Almeida e Quitéria Maria de Jesus, que morreu quando a filha tinha dez anos. Quitéria assumiu a casa e cuidou dos dois irmãos. Seu pai casou pela segunda vez, mas logo ficou viúvo. Casou novamente e teve mais três filhos. Sua nova esposa não apoiava o comportamento independente de Maria Quitéria.
Maria Quitéria não frequentou a escola. Dominava a montaria, caçava e manejava armas de fogo. Deflagradas as lutas de apoio à independência em 1822, o Concelho Interino do Governo da Bahia, defendia o movimento e procurava voluntários para suas tropas. Maria Quitéria, interessada em se alistar, pediu permissão ao seu pai mas seu pedido foi negado. Com o apoio de sua irmã Tereza Maria e seu cunhado José Cordeiro de Medeiros, Quitéria cortou o cabelo, vestiu-se de homem e se alistou com o nome de Medeiros, no Batalhão dos Voluntários do Príncipe, chamado de Batalhão dos Periquitos, por causa dos punhos e da gola verde em seu uniforme.
Depois de duas semanas foi descoberta pelo pai, mas o major José Antônio da Silva Castro não permitiu que ela fosse desligada, pois era reconhecida pela disciplina militar e pela facilidade de manejar armas.
Maria Quitéria seguiu com o Batalhão para vários combates. Participou da defesa da Ilha da Maré, da Pituba, da Barra do Paraguaçu e Itapuã. No dia 2 de julho de 1823 quando o exército entrou na cidade de Salvador, Quitéria foi saudada e homenageada pela população. Tornou-se exemplo de bravura nos campos de batalha e foi promovida a cadete em 1823. Foi condecorada no Rio de Janeiro com a Ordem Imperial do Cruzeiro do Sul, em uma audiência especial onde recebeu a medalha das mãos do próprio imperador D. Pedro I.
Reformada com o soldo de alferes, voltou para Bahia com uma carta do Imperador dirigida a seu pai, pedindo que ela fosse perdoada pela desobediência. Casou-se com um namorado antigo, o lavrador Gabriel Pereira de Brito, com quem teve uma filha, Luisa Maria da Conceição. Viúva, mudou-se para Feira de Santana, para tentar receber parte da herança do pai que havia falecido em 1834. Desistindo do inventário mudou-se com a filha para Salvador, onde morreu quase cega em total anonimato. Seus restos mortais estão sepultados na Igreja Matriz do Santíssimo Sacramento no bairro de Nazaré em Salvador.[3]





[1] Nota do tradutor:Maria Quitéria de Jesus. Trata-se do mais importante depoimento pessoal acerca da famosa heroína baiana. Quase todos os estudos sobre este vulto são “vasados sobre o escrito da ilustra inglesa” (Maria Graham), diz o seu biógrafo. Cf. Fernando Alves, “Biografia de Maria Quitéria de Jesus”, Salvador, 1952.
[2] Nota do tradutor: Gonçalo Alves de Almeida. Era brasileiro, conforme declara em seu testamento, e não português. Op. Cit. Pg. 66

sábado, 5 de outubro de 2013

A MAIOR FAMÍLIA DO BRASIL




Com o título de "Cavalcanti: a saga da maior família do Brasil", o site "Guia do Estudante" publicou o texto que reproduzimos abaixo: 


Como o casamento entre um nobre florentino e uma mameluca pernambucana deu origem ao poderoso clã dos Cavalcantis, a maior família do país
Rodrigo Cavalcante | 16/04/2012 16h50
Milhares de turistas brasileiros que visitam Florença para conhecer sua famosa catedral ou admirar as obras da Renascença na Galeria Uffizi não costumam prestar atenção na placa de rua da Via Porta Rossa, uma pequena travessa da Via dei Calzaiuoli – essa, sim, conhecida, por causa de suas lojas, como a mais animada da cidade. Logo abaixo da placa de mármore da Via Porta Rossa, há outra menor, indicando que a rua já foi chamada de Via Cavalcanti, nome de uma tradicional família florentina cujos antepassados enriqueceram com o comércio e, entre os séculos 11 e 16, ocuparam postos importantes na cidade. Dentre os Cavalcantis de Florença, o que ficou mais conhecido foi o poeta Guido Cavalcanti, amigo de Dante Alighieri, que não apenas lhe dedicou um soneto como também citou a família na Divina Comédia (ainda que tenha colocado os Cavalcantis no inferno, assim como a maioria das famílias ricas de Florença). Após o século 16, contudo, o sobrenome Cavalcanti entrou em declínio na Europa e hoje é difícil encontrá-lo na cidade italiana. Em compensação, quando o jovem florentino Filippo Cavalcanti decidiu atravessar o Atlântico em algum momento da década de 1560 para operar engenhos de açúcar em Pernambuco, ele fundou, sem saber, aquela que hoje é considerada a maior família brasileira.


Maior família brasileira? Mas esse posto não deveria pertencer aos brasileiríssimos “Silva”? “Na verdade, o sobrenome Silva é mais numeroso, mas os Silvas são oriundos de famílias diferentes, enquanto os Cavalcantis descendem todos do mesmo ancestral”, afirma Carlos Barata, autor do Dicionário das Famílias Brasileiras e presidente do Colégio Brasileiro de Genealogia.
Ele concluiu que a família Cavalcanti (ou Cavalcante, a variante aportuguesada) é a maior do país após pesquisar por mais de dez anos os descendentes das primeiras famílias a chegar ao Brasil. “Tomei como ponto de partida as famílias brasileiras no início da colonização e identifiquei o número de descendentes por volta do século 17”, diz o genealogista. “Nesse período, os descendentes de Filippo Cavalcanti já apareciam às centenas, numa expansão impressionante.” Mas, afinal, qual a origem de Filippo Cavalcanti e o que o teria feito trocar Florença, uma das cidades mais ricas do mundo, pela distante Pernambuco?
Se hoje os consumidores aguardam com ansiedade por um novo lançamento da Apple, no século 16 boa parte do mundo desejava os produtos importados por Florença. Centro artístico e financeiro do planeta, as casas de comércio da cidade tinham sucursais espalhadas pelas principais capitais europeias, de onde negociavam artigos de luxo, como tecidos caros, obras de arte de grandes artistas da Renascença.
E, especialmente, faziam empréstimos e outras transações financeiras que deram origem aos bancos modernos. Uma dessas casas florentinas que operam em Londres, a Bardi e Cavalcanti, era comandada pelo pai de Filippo, Giovanni Cavalcanti, e tinha como principal cliente o próprio rei da Inglaterra. Além de famoso pelos 6 casamentos, Henrique 8º era músico e poeta. Enfim, um monarca de gosto refinado e ávido por trazer à sua corte um pouco do esplendor artístico das cidades italianas. Para isso, contava com Giovanni, que mantinha correspondência com gente como Michelângelo e é citado pelo primeiro biógrafo dos artistas italianos, Giorgio Vasari, no livro As Vidas dos Artistas, pela encomenda de uma obra do pintor Rosso Fiorentino. Recentemente, o pesquisador Marcelo Bezerra Cavalcanti, coautor do livro Os Cavalcantis: na Itália, no Brasil, encontrou num arquivo de Florença uma carta de Henrique 8º endereçada a Giovanni em solidariedade a um confisco de bens de que sua casa comercial fora alvo em Florença.
Mas, se a vida de Giovanni Cavalcanti é relativamente bem conhecida, as razões que trouxeram seu filho Filippo ao Brasil permanecem vagas. Sabe-se que em 1558 ele se encontrava em Lisboa quando pediu uma Certidão de Nobreza ao duque Cosimo de Medici, que respondeu atestando que os Cavalcantis em Florença “resplandecem com singular nobreza e luzimento”. Enfim, uma carta de recomendação importante em um tempo em que a linhagem familiar valia bem mais para o mundo dos negócios do que hoje vale um MBA de Harvard. Até agora, há duas hipóteses sobre a viagem do jovem Filippo ao Brasil – e não necessariamente excludentes. A primeira, clara, era o interesse no comércio de açúcar, que apesar da recente expansão de produção ainda era considerado um artigo de luxo na Europa. O historiador Sérgio Buarque de Holanda, após viver dois anos na Itália na década de 1950, ensinando na Universidade de Roma, escreveu um artigo sobre os projetos de colonização e comércio toscanos no Brasil durante o tempo do grão-duque Fernando I (1587-1609), mostrando como a costa brasileira já estava na mira dos italianos há tempos. Antes mesmo de o Nordeste se tornar uma potência mundial na produção do açúcar, o interesse comercial dos italianos nas técnicas de plantio, produção e refino fez com que muitos viajassem para as ilhas portuguesas no Atlântico, que serviram de modelo para a futura colonização do Nordeste. Assim como fariam mais tarde os holandeses, comerciantes de Gênova, Florença e Veneza eram especialistas na importação desses artigos do Novo Mundo para reexportá-los com boa margem de lucro para o resto da Europa.
Além do interesse no açúcar, outro motivo que pode ter trazido Filippo ao Brasil foi buscar refúgio das sanguinolentas disputas de poder em Florença, descritas pela primeira vez com realismo anos antes por Nicolau Maquiavel. No lugar de um poder central forte nas mãos de um monarca, a exemplo de outros nascentes Estados europeus, como Portugal, França e Espanha, o poder na instável República Florentina só era alcançado por meio de conchavos e arranjos políticos bancados pelas famílias mais ricas da cidade. Em meio a esse sistema de rodízio de mando, nem mesmo a toda-poderosa família Medici estava livre de golpes, conspirações e tentativas de assassinato, que ocorriam em qualquer lugar. Em 1478, por exemplo, o jovem Juliano de Medici foi assassinado em plena catedral de Florença, alvo de um atentado planejado pela família Pazzi – que também pretendia matar o irmão de Juliano, Lorenzo de Medici, que se salvou ao conseguiu se esconder na sacristia. Em 1559, ano em que Filippo Cavalcanti já estava em Lisboa, outra conspiração contra os Medicis, desta vez para assassinar o grão-duque Cosimo 1º, foi descoberta a tempo.
Conhecida como conspiração Pandolfo Pucci (pelo membro da família Pucci que tomou parte e foi condenado à morte), o planejamento teria contado com participantes de outras famílias, incluindo Bartolomeu Cavalcanti, parente de Filippo. “Ainda que Filippo Cavalcanti não tenha tido nenhuma ligação com o atentado, era prudente que permanecesse longe de Florença”, diz a historiadora Rosa Sampaio Torres, que estuda as ligações dos clã com os movimentos políticos da época. Segundo a historiadora, a trajetória republicana dos Cavalcantis em Florença teria influenciado os movimentos de inconformismo político que marcariam Pernambuco nos séculos seguintes, por exemplo.
Motivações políticas à parte, o fato é que, no Brasil, Filippo Cavalcanti tratou logo de arranjar uma noiva para se associar às famílias importantes da região. E a jovem Catarina de Albuquerque preenchia tais requisitos. Filha do português Jerônimo de Albuquerque (cunhado de Duarte Coelho, donatário de Pernambuco) com a índia Tabira, Catarina era uma legítima mameluca brasileira. Conta a história que sua mãe salvou Jerônimo de ser morto pelos tabajaras após o capitão português ser atingido em um dos olhos por uma flecha. Ao casar com a índia, Jerônimo selou a paz com os índios e batizou a esposa com o nome cristão de Maria do Espírito Santo Arcoverde. Com seu casamento, Filippo Cavalcanti não apenas ingressou na família dos donatários portugueses, como também definiu um dos padrões genéticos das famílias brasileiras, segundo pesquisas da Universidade Federal de Minas Gerais, pelas quais 90% dos brasileiros tinham genes europeus do lado paterno e 60%, genes ameríndios ou africanos por parte de mãe.
No total, Catarina e Filippo tiveram 11 filhos (foram 12, mas o primogênito morreu na infância). Um bom número de descendentes, mas não anormal para a época. O sogro de Filippo, Jerônimo de Albuquerque, teve 24 filhos, o que lhe valeu o apelido de Adão Pernambucano. Apesar de a prole de Jerônimo de Albuquerque ser maior do que a do genro, por algum motivo o sobrenome Cavalcanti aparece em maior quantidade nas gerações seguintes”, diz o genealogista Fábio Arruda de Lima, há mais de dez anos dedicado a pesquisar a origem dos sobrenomes de famílias nordestinas por meio dos engenhos da região. 
Para o genealogista Lima, o sobrenome pode ter se espalhado graças a um reforço feminino. “Muitas mulheres preservaram o sobrenome associado ao do marido, formando relações entre os Cavalcantis e outras famílias importantes, com ramos como Holanda Cavalcanti, Albuquerque Cavalcanti e Acioli Cavalcanti, por exemplo.”
Desde que Fillipo recebeu a doação em 1572 de uma sesmaria para montar o primeiro dos 3 engenhos que viria a ter em Pernambuco, os Cavalcantis se expandiram ligados à açucarocracia local, tendo seus engenhos mais tarde descritos nos relatórios da Companhia das Índias Ocidentais, durante o período da invasão holandesa no Nordeste (1630-1654). A tradição perdurou até o século 19, quando um dos ramos da família em Pernambuco passou a ocupar cargos no Império.
É o caso, por exemplo, dos Cavalcanti de Albuquerque, que por mais de uma vez foram presidentes de Pernambuco (o equivalente ao atual cargo de governador), ocuparam cadeiras na Câmara, no Senado e em ministérios importantes de dom Pedro 2º, como o da fazenda e da guerra, e receberam do imperador o título de visconde. De tanto poder, surgiu nesse período uma estrofe que circulava na região: “Quem nasceu em Pernambuco, há de estar desenganado: ou se é um Cavalcanti ou se é um cavalgado”. Quando, na virada do século 19 para o 20, as plantações de café no Sudeste sobrepujaram as de açúcar no Nordeste, os Cavalcantis já haviam se espalhado por todo o país. No momento em que a presença italiana atingiu o apogeu por aqui, quase mais ninguém associava os Cavalcantis ao florentino que, no século 16, saiu da Toscana para fundar engenhos em Pernambuco. Diferentemente dos recém-imigrados da Itália, os Cavalcantis já tinham mais de três séculos de presença no Brasil. Não é à toa que, mesmo quem não tem o sobrenome Cavalcanti pode ser descendente de Filippo. Alguns exemplos: o compositor Chico Buarque de Holanda (descendente dos Holanda Cavalcanti), o escritor Ariano Suassuna (Suassuna foi o nome de um engenho dos Cavalcantis) e o jurista Evandro Lins e Silva. Todos, por sua vez, são primos distantes de PC (Cavalcanti) Farias, do comediante Tom Cavalcante e de outros milhões que tornaram os Cavalcantis uma família brasileiríssima, com ou sem Silva.

O BRASÃO
O brasão original, florentino, era prateado com cruzetas vermelhas. No Brasil, o escudo foi incrementado com outros padrões, como o leão rampante, duas flores-de-lis (um símbolo da origem nobre da família), um elmo de prata com um hipogrifo – criatura lendária com corpo de égua e cabeça de águia.

O POETA
Guido (1255-1300), o mais famoso Cavalcanti florentino, foi amigo de Dante Alighieri, poeta e político célebre. 

Saiba Mais
LIVRO
Os Cavalcantis, Cássia Albuquerque, Fábio Arruda de Lima, Marcelo Bezerra Cavalcanti e Francisco Antonio Doria, Edições do Jardim da Casa, 2011




sexta-feira, 27 de setembro de 2013

O DEFENSOR DO PRINCÍPIO DA MAIORIA TEM MEDO DESSA MESMA MAIORIA?


 Um dos princípios essenciais que regem as constituições modernas, inclusive a nossa, é o do sufrágio universal. Baseia-se ele na tese de que a maioria deve prevalecer para se fazer  com que o direito seja corretamente aplicado.  Não se cogita aqui se tal princípio é ou não correto, mas que ele vigora, apesar de opiniões contrárias;  no entanto, não foi com base nesse princípio universal que o STF aprovou temas tão controversos, como:
a – aborto de anencéfalos, tema polêmico, mas com imensa maioria contrária;
b – liberalização das passeatas em defesa da maconha, não desejada pela imensa maioria de nosso povo;
c – casamento homossexual, tema também muito controverso, mas desejado apenas por uma minoria irrisória;
d – aceitação dos embargos infringentes aos acusados do mensalão, permitindo uma liberal e grande chance de defesa aos criminosos, coisa incomum e não acessível a  outros delitos analisados pela mesma corte.
Segundo o último ministro a votar, a suprema corte precisa agir com liberdade, sem pressões de qualquer espécie, pois nisso reside o respeito ao estado de direito. O Ministro foi porta-voz dos outros cinco, não falou por si somente. Mas, usando de tal argumento, caiu numa contradição, pois se a maioria merece ser ouvida não quer dizer que erra quem a segue como se fosse coagido por ela, nem também que a mesma esteja sempre correta.  Acatar ou não a maioria é, pois, indiferente no que diz  respeito à verdade. E o que ficou patente para toda a população, para a maioria, portanto, é que ele e seus cinco companheiros sacramentaram a impunidade. Mais uma vez. E que, certamente, estão com a razão os cinco que votaram contra os embargos, e votaram não porque sofreram pressões, mas porque tiveram liberdade para aplicar a lei aos criminosos.  Enfim, 5 tiverem liberdade para acertar e seis para errar;  estes últimos erraram certamente por causa de suas afinidades comprovadas com os culpados.
Mas, os ministros, ao votarem contra a maioria do povo, têm medo dela? Como, se a enfrentaram e até foram contra ela? É contraditório, mas, na realidade, o medo deles não é da maioria, mas de ficar mal perante o seu grupo: o argumento da pressão popular, da maioria, pois, é apenas um subterfúgio, um sofisma para justificar o voto impopular que beneficia o grupo de amigos. A afirmação da necessidade do voto ser livre de pressões é mais uma desculpa esfarrapada para justificar sua incômoda  situação.
Se analisarmos bem, todos os votos que eles já emitiram nos últimos dias, especialmente em temas polêmicos, o fizeram com solene desprezo da maioria. A aprovação do aborto, da liberação da passeata da maconha, do casamento homossexual, etc., etc. Desde o momento em que a moral se tornou um elemento alheio à Justiça, esta começou a errar e a cometer injustiças. Homens sem moral não conseguirão nunca fazer prevalecer a justiça. E eles não respeitaram nem sequer a “moral” republicana, que manda respeitar o princípio da maioria, do sufrágio universal que a Constituição erigiu como coluna mestra do direito moderno. Certamente vão dizer que não caberia aqui tal princípio, só utilizado no caso das eleições. Ora, se tal princípio existe como normal geral da constituição, embora seja mais usado no caso de eleições, não quer dizer que ele perca seu valor nos casos comuns de decisões importantes para a população.  Sufrágio é o direito que o indivíduo tem de exercer sua cidadania, é a essência do direito político.  Nossa constituição diz que “a soberania popular é exercida pelo sufrágio universal e pelo voto direto e secreto, etc.”:  neste texto ambas as coisas são distintas – o voto e o sufrágio universal. A população quando reclama perante o STF que criminosos sejam punidos na forma da lei está, assim, cumprindo o princípio constitucional do chamado sufrágio universal. Com a palavra os especialistas do direito...


terça-feira, 23 de julho de 2013

quinta-feira, 18 de julho de 2013

quinta-feira, 6 de junho de 2013

MEMÓRIAS DE UM CAVALCANTI






Um patriarca da família Cavalcanti mereceu de Gilberto Freire a edição de um livro. Trata-se da obra “O Velho Félix e suas Memórias de um Cavalcanti”, publicada pela Livraria José Olympio Editora em 1959. Félix Cavalcanti viveu em Recife no século XIX, tendo presenciado várias agitações políticas de sua época, deixando-as quase todas registradas em um diário. Daí porque a importância sociológica da obra.

Era monarquista, mas não se envolvia em política partidária. Para ele a monarquia simbolizava o equilíbrio, a ordem, a segurança e a estabilidade. No prefácio da referida obra, comenta Lourival Fontes: “A Monarquia continuava como o equilíbrio dos poderes, o respeito da lei e da justiça, o símbolo das causas e dos direitos humanos. Nela não há tiranos para exercer o despotismo nem eleições manipuladas com audácia e dinheiro. Porque era uma utopia, as perspectivas da República o apavoravam, as degenerações e balbúrdias o deprimiam, os atentados, violências e terrores o petrificavam”. (op. cit. pp. XXIII).

Os argumentos que Félix Cavalcanti usava contra a república eram muito fortes, perguntando:- “quem nos garante que o Brasil se torne uma Suíça grande e não uma outra Venezuela?” - ”O nascimento de um herdeiro ao trono é garantia contra a reprodução de freqüentes eleições para presidentes da república; eleições que não passam de comédias, e são às vezes calamidades”...- “Num país constitucional, a ascensão de um herdeiro ao trono quase não importa; quem distribui justiça são os juízes; quem legisla são os representantes da nação; porque quem governa são os ministros; o soberano, porém, equilibra os vários poderes nas suas relações uns com os outros e assegura a continuidade e a perpetuidade desse equilíbrio político”. E noutra oportunidade: “Esta Utopia, que os tontos de Paris apregoam com o nome de república, há de ser sempre o que tem sido até hoje. Uma utopia: nada mais”.

Quando a Monarquia caiu, ele lamentou muito. É importante, a este respeito, o depoimento do próprio Gilberto Freire: “Posso, aliás, adiantar, nesta introdução às memórias de Félix Cavalcanti, que das autobiografias que já recolhi de brasileiros de várias profissões e de diversas regiões, homens e senhoras maiores de 50 anos, como respostas a um inquérito organizado para servir de lastro a trabalho próximo – Ordem e Progresso – sobre a paisagem social dos últimos anos da Monarquia e do começo da República no Brasil, grande número de pessoas, não revelando sebastianismo nenhum, nem desejo, mesmo vago, de restauração do Império, lamentam tanto quanto o velho Félix Cavalcanti a substituição da Monarquia pela República em 1889. Donde se conclui que a Monarquia ou o Rei, ou melhor, o Imperador, melhor ainda, Dom Pedro II, tem sido e ainda é um defunto chorado no Brasil. Chorado por juízes, desembargadores, professores, homens do povo, advogados, padres, funcionários públicos, médicos, senhoras ilustres. Choradíssimo por Félix Cavalcanti de Albuquerque Melo, obscuro contemporâneo do monarca e que não tendo recebido de Sua Majestade nem sequer pretendido do seu augusto governo, nenhum favor especial, nem nenhum título ou crachá, nem nenhuma comenda, foi apenas um provinciano de tendências conservadoras e de feitio aristocrático que se identificou com a causa monárquica por gosto e por princípio” (pág. XLIV).

Gilberto Freire comenta em sua Introdução no referido livro que Félix Cavalcanti era um remanescente da aristocracia rural vindo para a cidade. Tratava-se de um patriarca “com enorme família, escravos velhos, crias dentro de casa; com imensa mobília de jacarandá maciço, guarda-louça e aparadores de amarelo, camas de canduru, santuário, armário, baús, mesa de jantar para vinte pessoas, a coleção inteira dos romances de Alexandre Dumas, a História Universal de César Cantù, os romances de Eugênio Sue, o retrato do Visconde do Rio Branco” (op. cit. pág. XXVIII). Destaca ainda o fato do velho Félix haver se mudado constantemente de residência quando foi morar em Recife, trocando “de casa, de rua, de bairro e um pouco de cidade. De idéias, muito pouco. E muito pouco de hábitos, de sentimentos, de preconceitos. Em muita coisa conservou-se no Recife do século XIX o aristocrata do engenho do Sul de Pernambuco; o Cavalcanti de Albuquerque Melo de outros tempos; o matuto fidalgo desconfiado do Povo, da Cidade, da Democracia, da Abolição, da República”.

Apesar dos Cavalcanti desfrutarem de grande prestígio e poder em Recife, assenhoreados dos mais importantes cargos políticos, administrativos e judiciários, Félix Cavalcanti mantinha-se completamente alheio a tudo e levando sua pacata vida sem lutar por honrarias e cargos. João Maurício Cavalcante da Rocha Wanderley era juiz de Limoeiro; Álvaro Barbalho Ucha Cavalcanti, de Rio Formoso; Manuel de Holanda Cavalcanti, de Pau d’Alho; Francisco Xavier Cavalcanti era chefe da Repartição do Selo, etc. De tal sorte que suscitaram várias violências contra a família, talvez por causa da inveja que causavam: “Daí as violências contra Cavalcantis e outros aristocratas de engenhos praticadas por Chichorro da Gama quando a Presidência da Província passou dos oligarcas para os liberais, seus adversários terríveis. “A influência da família Cavalcanti não era um fato de 1835, mas datava de tempos remotos; que essa influência não era obra do poder ou da revolução, mas procedia da “natureza das coisas”; que era influência que sempre teve uma família numerosa, antiga e rica e “cujos membros sempre figuraram nas posições sociais mais vantajosas; na primeira Legislatura de 1824, cinco membros desta família foram eleitos deputados; na segunda e terceira legislaturas seis Cavalcanti obtiveram essa honra popular; ...E ainda: “Esses Cavalcantis antes da nossa emancipação política já figuravam como capitães-mores, tenentes-coronéis e oficiais de ordenança e milícia e em todos os cargos da governança; os engenhos que a maior parte deles tem foram havidos por herança...” (op. cit.).
                                    (Chichorro da Gama)

Félix Cavalcanti de Albuquerque descendia das mais velhas estirpes do Sul de Pernambuco, com parentesco nas diversas famílias importantes da região, os Melo, os Barros Wanderley, os Bezerra, etc. Destacou-se por ter sido um homem capaz, honrado, vivendo do trabalho honesto, sem nunca ter recorrido a favores políticos para si ou para os seus, nunca obteve um cargo público, simplesmente porque não queria, embora sua família estivesse em ruína financeira. Apesar de provir do meio rural era dotado de alguma instrução, diferentemente de seus parentes, os quais, segundo Gilberto Freire, eram o exemplo de família rica e pouco instruída. Era homem de “muita leitura”: havia lido grande número de livros, revistas, almanaques, até mesmo jornais em que chegou a colaborar. Dentre os livros que possuía se destaca uma obra de Cesare Cantu, católico liberal muito conhecido na Itália por haver publicado uma História Universal em 35 volumes. Era a época em que se discutiam muito sobre a Igreja, o poder civil dos papas, era a época de Pio IX e a luta pelos direitos da Igreja.
                                         (Cesare Cantu)

O relato das memórias desse Cavalcanti mostra um fato social hoje estudado por vários sociólogos: a crescente urbanização do Brasil e em conseqüência a "desruralização" da antiga aristocracia feudal ocorridos a partir de meados do século XIX. Félix Cavalcanti e seus irmãos perderam o engenho com a morte do pai e foram forçados a mudar-se para a cidade a procura de melhores recursos para suas famílias, aliás muito numerosas e de muitos filhos. Em Recife, consegue se manter com um modesto emprego na Santa Casa: “De Félix se pode dizer sem exagero que, dentro da sua modéstia de empregado da Santa Casa, conseguiu conservar, além da nobreza da família, a chamada nobreza moral tão dificilmente preservada em meios urbanos por indivíduos vindos de áreas rurais”.

Assim, Félix Cavalcanti é modelo de um grupo de pessoas que tiveram que abandonar a vida rural pela da cidade, gente que se havia enobrecido pela atividade campestre, com semelhança ao feudalismo europeu, mas que repentinamente se acharam empobrecidas e se viram forçadas a enfrentar a dura vida da cidade.

O velho Félix também possuía muita bondade

Em suas memórias Félix Cavalcanti conta como era sua vida particular e de família. Registrou que quando passava pelas ruas de Recife e ouvia gritos de escravos pedindo ajuda, às vezes maltratados por algum senhor desalmado, ele imediatamente interferia, pedia misericórdia para o pobre coitado. Era comum os senhores de escravos atenderem a tais pedidos feitos por “gente distinta”, como o era Félix Cavalcanti.

Em outra oportunidade, ficou bastante sensibilizado com o pedido de ajuda que alguém lhe fez, e o velho Félix viu-se na obrigação de fazer uma coisa de que não gostava, mas o fez para ajudar alguém: teve que pedir a um filho interferência para conseguir emprego para uma pessoa. O caso marcou tanto sua vida que ele dedica várias páginas de suas memórias o contando.

Um dos momentos em que ele foi mais chamado a praticar suas virtudes foi por ocasião da peste do “cholera morbus”, que vitimou a cidade de Recife a partir de janeiro de 1854. Segundo Félix Cavalcanti, “A morte ameaçando a todos, os cadáveres ficavam insepultos, a cidade entregue à desolação”. E mais adiante: “Via-se com uma mistura de dor e de indiferença morrer o amigo, o pai, o filho e o esposo, e a sensibilidade já adormecida não manifestava o pesar intenso que a todos devia dilacerar”. Houve dia em que falecerem 120, mortandade espantosa numa cidade que contava na época com 6 mil habitantes.

E Félix Cavalcanti se redobrava em cuidados, pois trabalhava na Santa Casa de Misericórdia, onde os moribundos eram atendidos e faleciam. Certa feita deixaram com ele uma mulher dizendo que havia morrido e que providenciasse o enterro. Logo ele verificou que a mulher ainda vivia, conseguiu reanimá-la e, medicando-a, salvou-a.

Eis aí mais um exemplo de bondade que precisamos conhecer e praticar. O Sr. Batista, o principal personagem homenageado neste blog, não chegou a tanto, mas certamente se estivesse numa posição semelhante à do velho Félix teria feito o mesmo, pois esta bondade é própria do sentimento cristão que em nós nasce com o batismo e cresce com a prática dos chamados "conselhos evangélicos", deixados por Nosso Senhor Jesus Cristo para que todo cristão possa atingir a perfeição na prática do Bem. Há algo de comum nestes dois personagens, que é a prática da bondade, esta bondade natural tão característica de nosso sertanejo.

quinta-feira, 14 de fevereiro de 2013

JORNALISTA DIZ QUE SABIA DA RENÚNCIA DO PAPA DESDE O ANO PASSADO


 
 
Está circulando pela internet o texto do artigo de um jornalista italiano, católico, sobre a renúncia de Bento XVI com o teor abaixo:
 

Autor: Antonio Socci | 12 de fevereiro de 2013.
A renúncia de Bento XVI não é somente uma notícia explosiva, mas um evento epocal, sem precedentes (pode-se citar o caso de Celestino V, há setecentos anos, mas foi um acontecimento muito diferente, num contexto bem diverso).
O que está acontecendo diante de nossos olhos é um acontecimento que, pela sua própria natureza planetária e espiritual, faz empalidecer todas as outras notícias de acontecimentos destes dias e certamente não tem relação alguma com elas (a começar com as eleições italianas).
Ontem, Ezio Mauro, na reunião de redação de "República" transmitida no site, e que obviamente foi dedicada ao pontífice, revelou que Bento XVI chegou a esta decisão "depois de uma longa reflexão. Hoje pela manhã – acrescentou Mauro – ele nos disse que já tinha tomado a decisão há tempo e que mesmo assim a manteve no segredo".
Na realidade a decisão foi tomada, pelo menos desde o verão de 2011 e não era mais uma notícia secreta desde 25 de setembro de 2011, quando, neste jornal, eu a trouxe à luz, tendo dela sabido de diversas fontes, todas confiáveis e independentes umas das outras. Naquela ocasião, a entrega do cargo fora pensada, por Ratzinger, para o seu aniversário de 85 anos, ou seja, na primavera de 2012.
O problema é que, dois meses depois do meu artigo, no outono de 2011, começou a eclodir o caso do vazamento de informações do Vaticano (conhecido como Vatileaks) e imediatamente ficou claro – até que não se concluísse o caso – que o Santo Padre não colocaria em prática sua decisão. De fato, no livro de entrevista publicado há alguns anos, "Luz do mundo", com Peter Seewald, analisando a possibilidade de renúncia de forma teórica, explicara que, quando a Igreja se encontra em meio a uma tempestade, um Papa não pode renunciar.
Por isto, no dia 11 de março de 2012, faltando um mês para o aniversário de 85 anos do Pontífice (que é 16 de abril), eu escrevi nesta coluna: "É necessário que se diga que a tempestade que se abateu nestes meses sobre a Cúria vaticana, em particular sobre a Secretaria de Estado, afastou a hipótese da renúncia do Papa, o qual sempre deixou claro que a renúncia deve ser excluída quando a Igreja está em grande dificuldade, pois poderia parecer uma fuga da responsabilidade". A forma como os fatos se desenvolveram posteriormente confirma esta reconstrução. Já que a renúncia do Papa aconteceu, finalmente, passado exatamente um mês da conclusão definitiva do caso Vatileaks, com o perdão concedido ao mordomo Paulo Gabriele.
Sinal de que esta renúncia já havia sido efetivamente pensada no verão de 2011.
Eis as razões apresentadas ontem pelo Papa: "cheguei à certeza de que as minhas forças, devido à idade avançada, já não são idôneas para exercer adequadamente o ministério petrino".
Com sua habitual clareza, o Papa disse a simples verdade e fez a escolha que considera a melhor para o bem da Igreja, escolha esta, aliás, de humildade, que é uma característica importante de sua humanidade e de sua fé.
Nós, no entanto, podemos e devemos observar que quase todos os papas precedentes envelheceram e permaneceram no cargo, embora com forças reduzidas, governando através de seus colaboradores.
Pode-se então levantar a hipótese que Bento XVI não tenha feito esta escolha por julgar não ter colaboradores à altura desta tarefa (com a sua renúncia, decaem os cargos mais importantes da cúria).
Pode-se claramente dizer que Bento XVI foi um grande pontífice e que o seu pontificado foi – ao menos em parte – dificultado por uma Cúria que não estava à sua altura, mas também pela escassa sintonia com o Papa por parte do episcopado.
Joseph Ratzinger, que confirma ser um papa extraordinário também com esta sua saída de cena, certamente carregou a cruz do ministério petrino sofrendo muito e dando tudo de si mesmo(não lhe faltaram nem incompreensões, nem desprezo).
Foi uma pena verificar que o seu esplêndido magistério muitas vezes não foi escutado.
Quando publiquei o meu furo jornalístico, escrevi que teria o desejo de ser desmentido pelos fatos e esperava que nós católicos rezássemos para que Deus nos conservasse este grande Papa por mais tempo.
Infelizmente, muitos crentes, ao invés de escutar este meu apelo à oração se puseram a me atacar, como se fosse crime de lesa majestade dar a notícia de que o Papa estava considerando a renúncia. Uma reação puritana que demonstra um certo clericalismo bem comum. Bento XVI – com a sua constante apologia da consciência e da razão – está entre os poucos que não possuem uma mentalidade clericalista.
Basta recordar que não hesitou em chamar com o seu nome próprio todas as pragas da Igreja e de denunciá-las como jamais se fizera.
Na sua admirável liberdade moral ele não hesitou nem mesmo em desmentir alguns de seus colaboradores mais próximos sobre o "segredo de Fátima". Aconteceu em 2010, quando decidiu fazer uma repentina peregrinação ao santuário português e lá declarou:
"Iludir-se-ia quem pensasse que a missão profética de Fátima esteja concluída [...] Na Sagrada Escritura, é frequente aparecer Deus à procura de justos para salvar a cidade humana e o mesmo faz aqui, em Fátima. [...] Possam os sete anos que nos separam do centenário das Aparições apressar o anunciado triunfo do Coração Imaculado de Maria para glória da Santíssima Trindade".
Uma expressão que certamente faz pensar (o centenário das aparições de Fátima será em 2017), também numa relação com os famosos "dez segredos" de Medjugorje.
Por outro lado, o próprio anúncio da renúncia aconteceu em uma data gloriosamente mariana, o 11 de fevereiro, aniversário (e festa litúrgica) das aparições da Virgem de Lourdes. É fácil prever que agora irão se desencadear explicações fantasiosas, que irão evocar Malaquias, a monja de Dresden e todo o resto.
Permanece, porém, o fato que o Papa, com o peso da decisão epocal que assumiu, coloca toda a Igreja diante da gravidade dos tempos que vivemos. Gravidade que Nossa Senhora enfatizou dolorosamente um todas as aparições modernas, desde La Salette, Lourdes, Fátima e Medjugorje (passando pelo misterioso e milagroso derramamento de lágrimas da imagem de Nossa Senhora em Civittavecchia).
É de se esperar, além do mais, que não se atribua a este nosso amado Papa, aquilo que foi atribuído a um seu predecessor, Pio X, que a Igreja proclamou santo.
É um episódio que tem sido difundido há alguns meses em alguns ambientes católicos e também na Cúria.
Parece que Pio X, em 1909, teria tido uma visão durante uma audiência que o angustiou: "O que vi foi terrível! Serei eu, ou um meu sucessor? Vi o Papa fugir do Vaticano entre os cadáveres de seus padres. Irá refugiar-se em algum lugar, incógnito, e depois morrerá de morte violenta".
Parece que teria voltado a esta visão em 1914, perto de sua morte. Ainda lúcido, transmitiu novamente o conteúdo da visão e comentou: "O respeito a Deus desapareceu dos corações. Deseja-se até mesmo apagar a sua lembrança".
Há algum tempo circula esta "profecia" também porque se diz que Pio X teria igualmente declarado que se trata de "um de meus sucessores com nome igual ao meu". O nome de Pio X era Giuseppe Sarto. Ou seja, José, portanto, Joseph. Desejo ardentemente que se trate de uma falsa profecia ou que não diga respeito aos nossos dias.
Mas a sua divulgação faz ver o quanto o pontificado de Bento XVI – como o de seu predecessor – esteja circundado de inquietações.
Além do mais, foi ele mesmo quem o iniciou pedindo a oração dos fieis para que não fugisse diante dos lobos. O Papa não fugiu.
Sofreu e realizou a sua missão até que pôde e hoje pede à Igreja um sucessor que tenha as forças para assumir este pesado ministério. Além do mais, para todos é evidente que o papado, já faz três séculos, tornou-se um lugar de martírio branco, da mesma forma com que, nos primeiros séculos, significava certamente o martírio de sangue.
De fato, os tempos modernos se abriram com um outro evento místico acontecido com o papa Leão XIII, o papa da "questão social" e da "Rerum novarum". No dia 13 de outubro de 1884 (13 de outubro é também o dia do milagre do sol em Fátima) o pontífice teve uma visão durante a celebração eucarística.
Ficou chocado e abalado. O pontífice explicou que dizia respeito ao futuro da Igreja. Revelou que Satanás, nos cem anos seguintes, chegaria ao cume de seu poder e que faria de tudo para destruir a Igreja.
Parece que ele teria visto também a Basílica de São Pedro assediada por demônios que a faziam tremer.
O fato certo, porém, é que o Papa Leão se recolheu imediatamente em oração e escreveu aquela maravilhosa oração a São Miguel Arcanjo, vencedor de Satanás e protetor da Igreja, que desde então era recitada em todas as igrejas, no fim da Missa.
Esta oração foi abolida com a reforma litúrgica que se seguiu ao Concílio Vaticano II, a reforma litúrgica que Bento XVI procurou tanto reelaborar. Nunca como hoje a Igreja necessita da oração de proteção a São Miguel Arcanjo.
Fonte: antoniosocci.com | Tradução: padrepauloricardo.org