Ao completar-se hoje 11 anos de seu falecimento, lembrei de lhe prestar uma homenagem filial junto a meus amigos. Nasceu ela no interior do Rio Grande do Norte, onde levava vida na lavoura. Mal sabia ler e escrever. Fugindo da seca foi para Fortaleza com sua família. De seus 11 filhos, hoje vivem apenas 5: 3 morreram ainda bebês e 3 já adultos. Sertaneja legítima, nunca largou seus costumes antigos mesmo morando numa capital. De tais costumes o mais salutar, que pode lhe ter valido a salvação eterna, era sua entranhada religiosidade. Assídua na freqüência à Santa Missa, só deixou de fazê-lo quando se viu acamada num hospital. Em seus últimos dias de vida, hospitalizada por causa de um câncer, recebeu a visita de dois sacerdotes dos Arautos do Evangelho, os quais lhe prestaram os últimos sacramentos. Recebeu ainda graças insignes no momento de sua última agonia. Uma delas nos foi relatada por uma jovem que a assistia no hospital: levantou bruscamente o tórax em seu leito e fixou o olhar como se fosse um êxtase. A moça, impressionada, pergunta o que ela estava vendo. Respondeu que via uma coisa maravilhosa, muitos anjos, etc, Depois, reclinou-se no leito e entrou em coma para não mais voltar, falecendo ao amanhecer do dia seguinte (era Sexta Feira da Paixão de Cristo). Hoje, a Sexta Feira da Paixão ocorre no mesmo dia de sua morte. Quanta honra morrer no mesmo dia em qye Cristo morreu!
sexta-feira, 3 de abril de 2026
HOMENAGEM A MINHA MÂE
Ao completar-se hoje 11 anos de seu falecimento, lembrei de lhe prestar uma homenagem filial junto a meus amigos. Nasceu ela no interior do Rio Grande do Norte, onde levava vida na lavoura. Mal sabia ler e escrever. Fugindo da seca foi para Fortaleza com sua família. De seus 11 filhos, hoje vivem apenas 5: 3 morreram ainda bebês e 3 já adultos. Sertaneja legítima, nunca largou seus costumes antigos mesmo morando numa capital. De tais costumes o mais salutar, que pode lhe ter valido a salvação eterna, era sua entranhada religiosidade. Assídua na freqüência à Santa Missa, só deixou de fazê-lo quando se viu acamada num hospital. Em seus últimos dias de vida, hospitalizada por causa de um câncer, recebeu a visita de dois sacerdotes dos Arautos do Evangelho, os quais lhe prestaram os últimos sacramentos. Recebeu ainda graças insignes no momento de sua última agonia. Uma delas nos foi relatada por uma jovem que a assistia no hospital: levantou bruscamente o tórax em seu leito e fixou o olhar como se fosse um êxtase. A moça, impressionada, pergunta o que ela estava vendo. Respondeu que via uma coisa maravilhosa, muitos anjos, etc, Depois, reclinou-se no leito e entrou em coma para não mais voltar, falecendo ao amanhecer do dia seguinte (era Sexta Feira da Paixão de Cristo). Hoje, a Sexta Feira da Paixão ocorre no mesmo dia de sua morte. Quanta honra morrer no mesmo dia em qye Cristo morreu!
quinta-feira, 12 de junho de 2025
MINHA MÃE
(cujo aniversário se daria no dia 30 de junho)
O leite de minha mãe
Alimentou-me até secar
Nunca secou sua
paciência
Tendo que me educar
Ouvi dela muitos “sins”
E também muitos “nãos”
Paciência tinha demais
Pra mim e meus irmãos
Tenho dela grande
dívida
Adquirida desde o
nascer
Não a vida – que vem de
Deus
Mas educação do meu ser
Batizou-me, fez-me
cristão
Ensinou-me a ler e
escrever
Mas, tudo isso nada
seria
Se não me ensinasse a
obedecer
Ela, junto com meu pai,
Foram exemplos de
fidelidade
Modelo de casal cristão
De vida comum, com lealdade
Dela nunca se ouviu um
berro
A não ser pra chamar a
atenção
- Venha pra casa! Pra
dentro!
E assim nos dava
educação
E ela, paciente,
perguntava:
- O que é, Francisco? O
que foi?
- Tô mandando que ele
entre!
- Não vê que anda solto um boi?
Às vezes, ela repetia o
ditado:
-“Gente besta, tabaco
do cão”
Queria nos prevenir de
alguém
Que, sendo bobo, dava
má lição!
Ou dizia outro ditado:
- “Aquele, fazer o mal
é pecado;
Mas, fazer o bem é mal
feito!”
E dava assim seu
recado.
quinta-feira, 5 de junho de 2025
FAMÍLIA CATÓLICA AUTÊNTICA, UMA SOCIEDADE DE ADMIRAÇÃO MÚTUA
Era comum entre príncipes de certas coroas medievais as contendas, que levavam sempre a rebeliões entre si e a golpes contra irmãos e os próprios pais. Isso era ainda decorrente das origens pagãs, pois o Cristianismo vinha combatendo tais rivalidades durante séculos e com êxito em alguns países. Em alguns reinos, como o de Portugal, havia também muita concórdia e benquerença. Na casa de D. Filipa e D. João I (final do século XIV e início do século XV), a convivência era realmente original. Longe de formarem um grupo de rivais, os jovens príncipes constituíam uma sociedade de admiração mútua. Não só isso, adoravam-se uns aos outros, nunca tendo nascido entre eles qualquer vestígio de ciúmes ou invejas.
Muitos diziam que o
rei era afortunado em possuir tais filhos. Pode ler-se, observa um cronista,
"de um rei que tinha um bom filho obediente, mas ter cinco filhos - todos
obedientes - parecia bom demais para ser verdade!".
A obediência era a
virtude mais admirada por aquela geração. No entanto, os filhos eram tratados
com tanta brandura pelo pai, que um deles afirmou nunca haverem recebido dele
qualquer ferimento, açoite, ou palavra rude. A obediência dos filhos era, pois,
oriunda do amor paterno muito mais do que pelo temor ou reverência filial. Os
filhos de D. João foram criados juntos numa atmosfera glorificada pela piedade
mística de sua mãe, fortalecida pelo pai soldado e amigos guerreiros, e tornada
intelectual pela sua própria paixão pelos livros.
O mais velho dos
filhos, D. Duarte, era ponderado e erudito, talvez mais talhado para a vida
acadêmica do que para o trono. Foi o herdeiro e sucessor. Dom Henrique,
conhecido como "O Navegador", era o mais prometedor dos filhos por
sua grande capacidade e discernimento. Tal foi o seu gigantismo que se destacou
de todos os seus irmãos que, no entanto, foram brilhantes. Dom Pedro parece ter
sido o espírito orientador, mais prático do que Dom Duarte e mais prendado. Foi
mais estadista do que o irmão mais velho. Os mais novos, Dom Fernando morreu
mártir entre os mouros, e D. Isabel casou-se com o duque de Borgonha.
Dar e ouvir conselhos, uma prática de virtudes
É espantoso como as
pessoas daquele tempo gostavam de exortações. Ser aconselhado e advertido não
nos dá nenhum prazer, mas naqueles tempos uma pessoa séria não pensava assim.
Um exemplo eram as exortações que faziam entre si Dom Pedro e Dom Duarte. A
quantidade de sábios conselhos que estes dois irmãos prodigalizavam um ao outro
seria de molde a causar desuniões se ocorressem no mundo moderno. Mas este
hábito não existe somente entre estes dois irmãos, mas entre pais e filhos, e
entre os outros irmãos uns com os outros.
Necessidade
do conselho e seu papel nas instituições ocidentais
Pedir conselhos: tudo indica que era um bom costume
na idade Média, conforme narra Dr. Plínio Corrêa de Oliveira ao comentar sobre a necessidade da
devoção a Nossa Senhora do Bom Conselho:
“Nós podemos dizer que um dos frutos da Idade Média,
da Civilização Cristã, é o ter tornado bem clara essa necessidade do conselho
como uma norma de vida vigente até mesmo nas instituições civis ocidentais.
Se analisarmos a primitiva história das monarquias
pagãs do Oriente, mesmo das grandes como a do Egito, da Pérsia, da China, do Japão,
notamos que, em geral, o monarca era absoluto, tinha o poder de dispor dos seus
súditos como entendesse e quase não ouvia conselhos. De vez em quando aparecia
alguém que dava um parecer a respeito de determinada situação, mas o conselho
como uma instituição que o soberano
consultava com rotina, aquilo que nós chamamos de Conselho de Estado, não
existia. O monarca ficava no seu isolamento, resolvendo as coisas por si e
tomando as decisões.
Na Idade Média vemos aparecer a instituição do Conselho.
Reconhecendo a precariedade, a falibilidade do espírito humano, os monarcas
nomeavam Conselhos, órgãos coletivos diante dos quais o rei costumava levar
seus problemas mais importantes. Estes eram debatidos em reunião e o rei
aceitava ou não a solução proposta, mas habitualmente ele resolvia tudo com o
seu Conselho.
Essa ideia passou da monarquia para as outras formas
de governo que havia na Idade Média. As repúblicas aristocráticas governam-se
por Conselhos. Por exemplo, o famoso Conselho dos Dez de Veneza, que
assessorava o Doge e tinha um poder enorme; as repúblicas burguesas, as cidades
livres da Alemanha, eram governadas por Conselhos, sendo o burgomestre a
expressão de um Conselho eleito pela cidade. Assim foi se afirmando o princípio
de que ter um Conselho é o complemento natural de todo governo.
Pedir conselho, uma postura católica
por excelência
Mas, se os homens devem pedir conselhos uns aos
outros, se devem reconhecer que por si mesmos têm dificuldade de encontrar a
sua própria via em circunstâncias espinhosas, então é sobretudo verdade que
convém a eles, podendo se comunicar com Deus por meio da oração, que a Ele
peçam o conselho. Deve ser um dos hábitos de nossa vida espiritual, de nossa
piedade, pedirmos que Nosso Senhor nos ilumine e nos faça compreender aquilo
que devemos fazer.“[1]
Se era praticado pela elite, pelos governantes, o
hábito de ouvir conselhos também se arraigava em toda a sociedade daquele
tempo.
Como único temor o pecado
O filho mais novo de
D. Filipa, Fernando, quase lhe custou a vida, deu trabalho para nascer, e por
algum tempo mostrou poucas possibilidades de viver. No entanto, sobreviveu e
veio a se tornar num jovem sossegado e meigo, cuja "conversação angélica"
todos apreciavam. Não tendo a vitalidade dos irmãos, não tinha gosto pelos
exercícios violentos com as armas, vivia para a Religião e para os estudos.
Tinha uma "mui grande e nobre livraria" e a sua capela estava
belamente ordenada, "segundo os costumes de Salisbury". Sua divisa
era "Le bien me plait". Estes infantes meio ingleses tinham suas
divisas escritas em francês, língua da sociedade culta e aristocrática da
época.
Dom Duarte e Dom Pedro
foram os companheiros de infância de Dom Henrique, pois tinham quase a mesma
idade. Formavam um trio harmonioso, e a intimidade que ligava os dois mais
velhos parece que não melindrava o mais novo. Dom Henrique era mais reservado e
não confiava sua alma a ninguém. Dom Duarte chegou até a publicar um livro,
"Leal Conselheiro", onde falava de suas confidências e de sua
família. Dom Henrique não se prestou a escrever nada sobre si mesmo, todos seus
segredos foram levados para o túmulo.
Apesar da disparidade
de temperamento, todos os irmãos tinham cada um ânimo de soldado e nada temiam.
Sim, temiam uma única coisa, segundo nos revela o cronista Zurara, era o
pecado. Todos haviam aprendido com a mãe a cumprir todos os mandamentos da
Santa Madre Igreja e abraçavam um misticismo religioso profundo e sincero. Além
das mesmas práticas já aprendidas no convívio com a mãe, das rezas diárias e da
frequência aos sacramentos e às Missas, jejuavam costumeiramente e carregavam
consigo dolorosos cilícios, com o que venciam galhardamente as tentações.
Afastai os nossos filhos dos jogos e os metais em
trabalhos e perigos!
D.João I preparava o
exército para a primeira investida militar fora do país: iam invadir Ceuta. Nem
o rei nem a rainha se manifestavam sobre a presença dos filhos no exército. Mas
eles o desejavam. Primeiramente procuraram a mãe, para junto dela conseguir
anuência. Os astutos jovens não disseram a ela que o pai já sabia de seus
planos, mas pediram-lhe graciosamente que se servisse de sua influência junto
do rei para que lhes fosse garantido a autorização para embarcar na empresa
guerreira. Queriam ser armados cavaleiros com honras militares, como era comum
entre os medievais.
D. Filipa recebeu-os
muito bem, pois compreendia que seus filhos precisavam conquistar as esporas de
ouro com valor e heroísmo. Quando eles acabaram de falar, ela lhes respondeu:
"Bem, é verdade que vos tenho assim aquele amor que qualquer mãe deve ter
a seus filhos. Porém, tratando-se de semelhantes feitos eu nunca vos poderia
privar vossas boas vontades, antes vos ajudarei a elas com todas minhas forças e
poder". E mandou perguntar logo a Dom João se estava desocupado e a podia
receber naquele momento.
Na presença do rei,
disse: "Senhor, eu vos quero pedir uma coisa que é muito contrária para
requerer mães para filhos, porque comumente as mães pedem aos pais que afastem
seus filhos dos trabalhos e perigos, tendo sempre grande receio de quaisquer
danos que lhe possam acontecer. Eu tenho intenção de vos pedir que os afaste
dos jogos e das folganças e os metais em trabalhos e perigos. Vossos filhos e
meus vieram hoje a mim e me contaram todo o feito que tinhas passado acerca da
cidade de Ceuta, pediam que me aprouvesse a vos falar disso, e vo-lo requerer
da sua parte e da minha. Eu, Senhor, não queria por nenhuma forma, pois Deus
por sua graça quis lhes dar disposição do corpo e do entendimento, que eles por
seu trabalho falecessem de conseguir os feitos daqueles..."
O rei atendeu
benignamente ao pedido. Mas disse para a rainha que ele também tinha um pedido
a fazer: era que ela era quem deveria dar a autorização para que eles fossem
para a guerra, nisto incluindo o próprio rei. D. Filipa ficou aterrada. Não
esperava que o rei, seu esposo, lhe fizesse tal pedido. Mas como se tratava de
"serviço que seria para Deus fazer o seu santo nome ser adorado entre infiéis"
aprovou o pedido, mesmo sabendo que pai e filhos se exporiam a perigo de vida.,
Façais vossos filhos cavaleiros com espadas que
lhes darei com minha bênção
Quando os preparativos
para a partida se iniciaram, a rainha orava cotidianamente na igreja de Sacavém.
Ajoelhava-se todos os dias, de manhã cedo até o meio-dia, e depois voltava à
tarde e rezava até altas horas da noite. Sentia uma grande dor em ver partir
para a guerra seu esposo junto com os filhos, embora estivesse plenamente de
acordo.
Há muitos anos que D.
Filipa não gozava de boa saúde. Sabendo disto, Dom João evitava lhe falar da
viagem, de tal forma que ela imaginava já que haviam desistido da ideia. Um
dia, porém, o rei chega em sua presença e confirma a data da partida. A rainha
sente profundamente. De tal forma sentiu o choque que ficou abalada, provocando
o choro de suas aias. Dirigindo-se para elas, disse: "Amigas, não tendes
porque chorar, porque o choro em tais casos não é coisa que aproveite, antes
vos rogo que usemos do que nos é propício, isto é, encomendarmo-nos a Deus este
feito muito afincadamente fazendo tais obras e bens, porque merecemos ser
ouvidas, e isto é melhor que derramamento de lágrimas..."
Dirigindo-se ao rei,
seu esposo, diz: "Eu vos peço por mercê... que vos façais vossos filhos
cavaleiros na minha presença, ao tempo de vosso embarque com largas espadas que
eu lhes darei com minha bênção". Dom João prometeu alegremente, e D.
Filipa encontrou algum alívio em mandar vir de Lisboa as três mais belas
espadas que lá se pudessem fazer.
Depois, entregou-se
inteiramente às orações e ao jejum. No mesmo dia em que Dom João a deixou na
igreja, onde rezava, caiu ela doente. Todos julgavam que estava enfraquecida
por causa dos jejuns e abstinências. Quando voltaram para a armada, receberam a
notícia que fossem até à rainha com urgência. Não haviam dúvidas, era a peste.
Os dois irmãos menores foram afastados, enquanto os outros se reuniram à volta
da mãe juntamente com o pai. O pobre do rei estava aflito, cheio de dor, não
comia nem bebia, e os filhos velavam cuidando da mãe prestes a morrer, porque a
peste não tinha cura.
D. Fililpa estava
tranquila e resignada, como manda o verdadeiro espírito cristão. Não tinha
esperanças de melhora, sabia que estava chegando o seu fim. Virando-se para os
filhos, diz: "Deus sabe o tamanho desejo que tive de ver a hora em que vós
fostes armados cavaleiros, e para isso mandei fazer e guarnecer três espadas, e
pois a Deus apraz que eu neste mundo não veja tamanho prazer, ele seja louvado
por tudo". Indaga logo depois: "As espadas já estão prontas?".
Como a resposta foi negativa, disse que dessem ordens em Lisboa para que as
acabassem logo e as trouxessem.
Em seguida, a
moribunda pegou uma cruz de madeira e a partiu em quatro partes, entregando
cada uma a seu marido e aos três filhos ali presentes. No dia seguinte chegaram
as três espadas. Deu a maior a Dom Duarte, dizendo: "Meu filho, porque
Deus vos quis escolher entre vossos irmãos para serdes o herdeiro destes
reinos... eu vos dou esta espada... que vos seja espada de justiça para
regerdes os grandes e os pequenos destes reinos depois de a Deus aprouver que
sejam em vosso poder, por falecimento do rei vosso pai, e vos encomendo seus
povos, e vos rogo toda fortaleza sejais sempre sua defesa não consentindo que
lhes seja feito nenhum agravo, mas a todos cumprimento de justiça. E vedes,
filho, quando digo justiça, justiça com piedade, pois a justiça que em alguma
parte não é piedosa é chamada crueldade".
Dom Duarte ajoelhou-se
e beijou a mão da mãe, prometendo lembrar-se de suas palavras durante toda a
vida. Em seguida, a mãe chama os outros dois filhos, D. Pedro e D. Henrique,
entregando a cada um sua espada, juntamente com sua bênção: Eu vos dou esta
espada com a minha bênção com a qual vos recomendo e rogo que queirais ser
cavaleiro.
D. Filipa nunca perdeu
a lucidez enquanto a doença seguia o seu curso, e teve muito mais o que dizer
aos filhos antes de os deixar. Com a aproximação de sua morte, Dom João começou
a se inquietar e os filhos pediram que ele não assistisse o desenlace fatal. Os
filhos lamentavam que ela morresse naquele momento, quando se preparavam para
uma importante batalha, aquilo que ela mesmo tanto desejara. Ao que D. Filipa
respondeu: "Eu subirei ao alto, e do alto vos verei, e a minha doença não
turvará a vossa viagem. Partireis pela festa de Santiago".
Dom João ainda
insistiu em querer assistir os últimos momentos de sua esposa, mas foi instado
pelos seus conselheiros e por Dom Duarte que saísse. Despediu-se assim ele com
o coração partido e afastou-se a cavalo. D. Filipa ficou com seus filhos e na
presença deles morreu tranquilamente com um sorriso no rosto. A alma de uma
santa mãe subia aos céus e deixava aqui na terra os frutos de sua vida: a
gloriosa epopeia de seus filhos que abismaram o mundo.
[1]
Revista “Dr. Plínio”, n. 326, maio de 2025, pág. 21/22 – artigo “Mater Boni
Consilii – Celeste Conselheira”
quinta-feira, 29 de maio de 2025
UM MEDIEVAL VISITA O SÉCULO XXI
O pequeno Rivière era muito meditativo, e por
amar muito a Religião e a Pátria sonhava frequentemente com as duas.
Consternava-lhe ver quão decadentes viviam as pessoas: sua época, o século
XIII, já era profuso em costumes e ideias revolucionárias. Na cidade em que
morava as pessoas muito comumente procuravam deleitar-se com os prazeres da
vida, e tudo faziam para evitar qualquer sacrifício, dureza, cruz, sofrimento.
E assim, muitos riam folgadamente, passeavam despreocupadamente, viajavam a
procura de aventuras e novidades e, sobretudo os jovens, tinham como objetivo
de suas vidas não mais o heroísmo e sim o romantismo amoroso.
E o jovem pensava: aonde vai dar tudo isto? “Se
continuarem assim – dizia -, abandonando o dever pela busca do prazer, que
restará de nossa juventude? Que será de nosso futuro?”
O sacrifício, antes tido como decorrência
natural do pecado original, agora passa a ser desprezado a qualquer custo:
deste modo, as roupas, as modas, os costumes, as preferências de todos, tudo
enfim, tendia a caminhar para a gostosura da vida. E o garoto franzia o seu
semblante, dia e noite, presenciando cenas, ouvindo conversas, vendo fatos que
contradiziam, embora com pouca ênfase em alguns casos, todos os princípios
cristãos para os quais houvera nascido e criado.
E foi assim que, certa noite, Rivière sonhou.
Era um sonho bem diferente dos que costumava ter. Foi algo muito inusitado para
ele. Em seu sonho ele se encontrava num mundo completamente diferente.
Achava-se num futuro bem distante de seu tempo, quase oito séculos após. Em sua
época já se falava que haveria um futuro cheio de paz e tranquilidade. Mas, na
realidade, o que ele presenciava de paz em seu sonho era completamente
diferente do que as pessoas imaginavam em sua época. Ele ficou muito chocado com
o que viu:
- Que lugar estranho! – pensava. Para que tanto
rebuliço? E quantas pessoas juntas! Quanta multidão a caminhar de um lado para
o outro! Por que será que estão assim reunidos andando ao léu sem destino? Não
vejo ninguém chamando-os para alguma batalha, nem tampouco para alguma
peregrinação religiosa, e no entanto eles andam com pressa, embora sem rumo e
sem um objetivo definido...
Repentinamente foi abordado por alguém que o
observava:
- Olá, rapaz! Não está sentindo calor? Ou está
vindo do frio?
- Calor? Que calor? Nós geralmente sentimos
muito calor quando estamos empenhados numa batalha – sentimos o calor da luta.
A que calor está se referindo?
- O calor do tempo, ora essa! Não ver que o sol
está a pino? Por que não tira estas roupas pesadas? Refresque-se!
- Refrescar-me? Em minha terra nós nos
refrescamos quando estamos cansados após dura batalha ou renhido trabalho, mas
neste caso entramos em casa e nos recostamos a um leito.
- Não me diga que em sua terra as pessoas usam
estas roupas pesadonas em pleno verão, suando deste jeito... é verdade? Se for
assim, de que terra você veio?
- Olhe, amigo, antes do desconforto do meu
corpo está a paz de minha alma, e porque a prezo muito é que procuro vestir-me
dignamente; quanto ao corpo, porém, não é verdade que estou suando mais do que
o senhor, nem tampouco sentindo mais calor...
- Pode chamar-me de você mesmo, pois eu não sou
senhor. Quero ver você provar o que disse: como posso estar suando ou sentindo
mais calor que você se uso roupa leve e fina?
- É simples: o calor não vem diretamente para o
meu corpo, pois o mesmo está protegido pela roupa. Quanto ao senhor, verifique
que nos lugares onde a roupa não cobre, ou protege menos, o suor é mais
intenso. Se quer um exemplo melhor, veja aquele palacete quadrado ali defronte,
onde várias pessoas estão vestidas apenas com alguns trapos e sendo servidas
por alguns lacaios muito bem vestidos. Veja... ali em frente, senhor.
- Já disse que não sou nenhum senhor. Chame-me
apenas de você. Estava se referindo àquele hotel quando mencionou “palacete
quadrado”? As pessoas ali que você diz usarem trapos nós chamamos de turistas e
o que denomina de “lacaios” nada mais são do que os garçons que os estão
servindo.
- Turistas? Garçons? O que vem a ser isso?
- Ah, que ignorância! Turistas são estas
pessoas que vivem viajando e se hospedando em hotéis, isto é, hospedarias, com
piscinas e outras diversões. E garçons são estes homens que lhe servem bebidas
e comidas enquanto se divertem. Vamos lá, que quer dizer sobre o calor que
estão passando ali?
- Não importa como são chamados, pois, na
realidade trata-se de lacaios servindo a seus senhores. Veja que os chamados
“garçons” estão todos bem vestidos, com roupas “pesadas” como falou, alguns até
de gravatas, enquanto que os “turistas” estão vestidos apenas com alguns trapos
de panos. No entanto, não se vê um só garçom com calor e suando, enquanto entre
os turistas há alguns que até estão se abanando de tanto calor.
- Nunca tinha notado isso. Como se explica?
- É que o calor vem direto para o corpo dos mal
vestidos, que estão sem a proteção das roupas, enquanto que os garçons têm o
corpo protegido pela roupa e sofrem menos os efeitos do tempo. Afinal, como se
chama o senhor?
- Por que teima em chamar-me de senhor? Veja que não sou tão velho assim. Para nós o
termo senhor significa velhice, decadência, enquanto “você” é um tratamento
mais igualitário e denota juventude. Deixemos isso de lado. Diga-me de onde
veio e seu nome.
- Meu nome é Rivière: como vê sou jovem ainda,
mas mesmo assim já estou me preparando para ser armado cavaleiro pelo meu
senhor, o grande duque de Lyon. Venho sendo adestrado há bastante tempo pelo
duque. Por enquanto estou sendo apenas seu pajem, mas ele me prometeu...
Rivière foi interrompido por uma estrepitosa
gargalhada. Após breve silêncio, o estranho falou:
- Pois meu nome é Estrofe do Pé Quadrado e tudo
o que você está dizendo bem demonstra sua insanidade mental. É pena, tão jovem
e já um tanto desmiolado...
- Ah,é? Pois fale-me um pouco do senhor: quem
é, de onde veio, o que faz aqui e o que pretende na vida em seu futuro.
- Apesar de não gostar que me chame de senhor,
pois isto me aborrece, vou lhe falar um pouco de minha pessoa. Como disse, meu
nome é Estrofe do Pé Quadrado, um nome estranho realmente mas muito do agrado
de meu pai, que era poeta: como nasci aleijado deste pé esquerdo, ele por
ironia e irreverência colocou-me tal nome. Hoje em dia, é bom que saiba, as
pessoas usam muito de ironia e irreverência.
- Que horror! Ironia e irreverência – que
absurdo!
- Por que se espanta? Saiba que vivemos numa
época em que tudo caminha para a irreverência. E a ironia também está muito em
voga. Como é lá na sua terra?
- Pois em minha terra, ou em meu tempo, os
nomes das pessoas são postos conforme determinadas tradições religiosas ou de
família, geralmente em homenagem a santos nossos protetores. Ao contrário, nós
primamos pela reverência e respeito ás pessoas. Respeitamos muito a dignidade
da pessoa humana. Por isso o tenho chamado de senhor.
- Pelo que vejo você não é deste mundo: onde
nasceu? Em que época?
- Como já disse, sou de Lyon, França. Nasci em
1294, portanto, no final da Idade Média.
- Vou acreditar no que diz, somente para ver
até onde quer chegar. Sendo assim, encontramo-nos, eu e você, nesta movimentadíssima
avenida de Nova Yorque, conversando sobre nossas terras ou nossas eras
históricas, sendo eu deste século XXI e você da Idade Média – uma diferença de
quase oito séculos. Na realidade, estou aqui de passagem.
- Turista também?
- Um pouco de turista, mas muito mais de
comerciante, pois venho sempre aqui fazer compras.
- Nasceu em que país?
- Sou brasileiro, nasci em São Paulo. Aqui
estou a negócios, e você?
- Não sei como cheguei até aqui. Tudo é muito
estranho, estou confuso e perplexo. Não entendo certas coisas que estou
presenciando. Por exemplo, o que são aqueles bólides luminosos andando sobre
caminhos negros lá embaixo?
- São veículos, espécie de carruagens de seu
tempo, mas movidos por si mesmo, que chamamos de automóveis. As estradas negras
chamamos de auto-estradas, e a cor escura é devida ao breu ou asfalto de que
são feitas.
- E naquelas ruas, para que tantas cordas esticadas naqueles
postes?
- São fios elétricos. Através deles corre
energia elétrica para acender as luzes e mover as máquinas e aparelhos
elétricos em geral.
- E por que as pessoas andam assim tão
confusamente pelas ruas? Veja quanta multidão andando ao léu sem destino...
quanta balbúrdia, e como se vestem de maneira ridícula!
- As pessoas que você vê estão andando pelas
calçadas, pois se andarem pelas ruas podem ser atropeladas pelos carros. Quanto
às roupas, não vejo nada de ridículo nas
que as pessoas estão vestidas hoje em dia: ridículo está você aí com este
jaquetão grosseiro! As roupas modernas
são leves, alegres, poucas pra não fazer calor, a fim de que as pessoas se
sintam mais á vontade e livres, acabando com aquela ideia de sufoco que havia
antigamente. O importante é a liberdade, que começa pelos movimentos do corpo.
- Mesmo que esta liberdade leve a pessoa para a
imoralidade?
- Imoralidade? Nós não sabemos mais o que é
isso: há muito tempo que não existe mais moral em nosso mundo.
- Não sei como pode haver uma sociedade onde
não haja respeito pela moral. Como é, então, o relacionamento entre as pessoas?
Há dignidade? Existem leis superiores para serem cumpridas e manter a paz? Há
também alguns costumes que levem as pessoas a um mútuo respeito? Tanta
liberdade não acaba suprimindo alguns direitos como, por exemplo, o da
privacidade?
- Chega de tanta pergunta. Estou gostando agora
mais da conversa porque esqueceu-se de chamar-me de senhor. Vamos em frente.
Nós baseamos nossa convivência social, meu rapaz, apenas na luta pela
sobrevivência. Ou então, pelo dinheiro, ou pela posição social. Somente isto
faz com que as pessoas andem se respeitando uns aos outros. Por causa da
posição social respeita-se o delegado, o juiz, o prefeito, o governador; por
causa do dinheiro respeita-se o gerente de banco, o financista e o homem de
negócios, como o comerciante ou o industrial. A dignidade só existe para quem
tem dinheiro e posição social. E todos assim gozam de liberdade, vivendo
somente para este fim: a luta pela sobrevivência.
- Ah! Agora entendo porque não quer que o chame
de senhor. Neste seu mundo quem não possui dinheiro e posição social torna-se
um pária. Não há respeito pelos pobres. Onde está a dignidade do homem como
filho de Deus? Meu Deus, que horror!
- É o século XXI, meu chapa! Nós vivemos hoje a
lei da selva: não a selva da floresta, mas a selva de pedra das grandes
cidades, onde tudo converge para esta luta de que lhe falei. Quem não vencer
neste mundo fará parte da escória e para este nossa sociedade tem reservado
apenas alguns. cortiços, certas favelas, um submundo terrível, pois não há
outra saída. Quanto aos demais, os que conseguirem se superar e vencer na vida,
gozarão felizes a doçura do “bom viver”, com automóveis e aviões de luxo,
viagens turísticas, luxuosos hotéis de veraneio e clubes com piscinas
super-confortáveis. É a vida, meu caro! Alguns têm que penar para outros gozar!
- Como é triste teu mundo.
- Triste? Você está louco! Dê uma olhada nestas
ruas e veja quantas casas de diversões e entretenimento irá encontrar. Aposto
em que em sua terra, ou em seu tempo, nada disso havia.
- Não vejo tais diversões como fruto de uma
verdadeira alegria. Não acredito que depois de tanto frenesi as pessoas não se
sintam com a consciência pesada.
- Como é que a consciência pode ficar pesada?
- Pode ficar pesada e doer, sabendo-se que o
resto do mundo pena muitas misérias e há
muita injustiças a corrigir, enquanto se diverte e se goza a vida de uma forma
assim tão despreocupadamente.
- Não, meu caro, nós não temos problemas de
consciência. Encontramos na vida moderna vários recursos com que possamos
abafar a consciência. Procuramos sempre a fuga da dor, principalmente disso que
se chama “dor da consciência”.
- Como é feito isso?
- Simplesmente não nos preocupamos com os
outros! É cada um por si. E agindo assim não há como a consciência possa doer,
ela parece nem sequer estar viva.
- Entendo. Gostaria de deixar patente, no
entanto, que isto não lhes traz uma autêntica alegria. Não pode ser autêntica
uma alegria que procura abafar a consciência ao ponto de deixá-la quase morta.
A verdadeira alegria está no interior de cada um, onde deve morar com toda a
força nossa consciência. Só pode ser verdadeira e autêntica esta alegria
quando, ao nos divertirmos, a justiça, a paz e a união campearem ao nosso
redor. Se o homem se diverte e goza, mas seus irmãos tudo sofrem, esta alegria
é falsa. Mais ainda se a consciência não desperta e não lhe chama a atenção
para a realidade que o cerca.
De repente, ambos percebem que há uma grande
discussão numa rua onde se aglomerava pequena multidão. Perguntaram a um
transeunte, tendo o mesmo dito que se tratava de um problema corriqueiro, uma
briga por causa do lugar na fila.
- Como é isso? – pergunta Rivière – uma briga
por causa de lugar na fila?
- Sim, isso ocorre com frequência hoje em dia.
O sujeito está numa fila qualquer, ou para fazer uma compra, ou para ser
atendido num banco, ou mesmo para embarcar num transporte, e de repente alguém
“fura” a fila, isto é, passa na frente do outro. E daí surge a briga, pois o
que está na frente não suporta ver o outro lhe passar na frente. É assim também
na sociedade, de um modo geral, pois ninguém suporta ver outro passar na sua
frente, e muita gente briga por causa disso.
- Mas, brigar por causa de um lugar numa fila?
- Sim, é um direito de quem estar na fila ter
seu lugar respeitado – se alguém entra na frente está ferindo um direito...
- Oh mas que direito mais bobo? Como é que se
briga por causa de uma coisa tão banal?
- No seu tempo ninguém brigava na fila?
- Não era costume haver filas no meu tempo, a
não ser para se receber a Sagrada Comunhão, na Santa Missa. E aí, o normal é o
contrário: as pessoas fazem questão de ceder seu lugar a outras. Trata-se de um direito tão secundário, tão
pequeno, que a gente pode ceder a outro sem qualquer dificuldade. Aliás,
aprendemos que ser educado consiste exatamente em ceder alguns pequenos
direitos nossos a outras pessoas. Se causam incômodos é para que nos
acostumemos com eles.
- Já vi que você é um filósofo. Mas nosso mundo
não vive mais de filosofia. Voltando ao assunto anterior, diga-me, como é que
as pessoas se divertiam em seu tempo?
- Era algo muito diferente do que chamam hoje
de diversão. Tínhamos naquele tempo cavalgadas, caçadas, jogos de armas, todo e
qualquer passatempo era feito para aperfeiçoar o caráter das pessoas. Tudo era
muito honesto e tão natural que a alegria se externava espontaneamente.
- Dir-lhe-ei o mesmo: como poderia ser
verdadeira esta alegria em seu tempo se haviam guerras, injustiças praticadas
pelos nobres, violência contra os pobres, etc?
- Era verdadeira nossa alegria porque a paz
campeava em toda a sociedade e a justiça era aplicada em todo o corpo social.
Haviam temporários rompimentos de paz, haviam alguns princípios de justiça
feridos, mas logo, logo, eram corrigidos e reparados, pois haviam mecanismos
sociais para reparar todos estes males, que sempre ocorrem entre os homens.
Enquanto seu mundo é voltado para dentro de cada um, completamente egoísta, sem
pensar senão no gozo e no prazer pessoal, o nosso, pelo contrário, tinha
filosofia de vida completamente contrária: praticamos a caridade, amamos ao
próximo como a nós mesmos e por amor a Deus, vivemos da abnegação e do
sacrifício, temos cavaleiros que vivem para a proteção dos mais fracos, os
pobres, os órfãos e as viúvas, nos preocupamos mais com a felicidade dos outros
do que com a nossa. E isto nos torna mais felizes ainda.
- Pode ser verdade, mas não acredito no que
diz. Não acreditamos, homens do século XXI, mais em ninguém. Para nós todos os
homens são egoístas, interesseiros e ladrões. Todos são filhos do pecado e aqui
pecam, alguns secretamente, os hipócritas, e outros abertamente, os sinceros.
Não acreditamos mais em honestidade, em abnegação desinteressada, coisas do
tipo amor ao próximo, não acreditamos mais em virgindade, etc. Pergunte por aí
e não vai encontrar mais nenhum rapaz ou moça que saiba o que é castidade.
- Volto a repetir: como é triste o teu mundo!
Nunca imaginaríamos que a busca desenfreada do prazer levasse o homem a tal
decadência.
- Pois é: assim como não acreditamos no homem
de nosso tempo, também não acreditamos no do seu. Acho que não é verdade que as
pessoas de sua época eram abnegadas, desinteressadas, como dissestes. Pelo
contrário, acho que eram todas interesseiras, egoístas e exploradoras umas das
outras. Foi por causa delas que chegamos ao grau de miséria humana ainda
existente no mundo atual.
- Seria impossível a construção da Civilização
Cristã, palpitante na época medieval, sem que houvessem homens assim como lhe
falei. Veja as catedrais góticas: quais interesses egoístas levariam os homens
a construí-las? Veja as cruzadas à Terra Santa: que interesses pessoais e
egoísticos levariam os homens a enfrentar uma guerra tão longínqua, sem
qualquer objetivo expansionista ou de riquezas? Veja também os mosteiros,
construídos em quantidade imensa: quais interesses egoístas em construir locais
de oração, onde alguns se enclausuravam durante toda a vida, no mais completo
recolhimento? E isto foi, meu caro senhor, o ponto alto da Idade Média.
- Já ouvi falar de algo assim, mas acho que
tudo não passa de lendas.
- Então leia os compêndios de História,
pesquise, procure conhecer o período
histórico de que falamos. O senhor precisa vencer sua descrença, e acreditar
pelo menos na História de seus antepassados, que não são lendas, mas fatos que
ocorreram em locais determinados com pessoas reais, e estão devidamente
documentados. Além do mais, tanto as catedrais como os mosteiros e outros
monumentos estão ainda de pé para atestar perante as gerações futuras o que foi a Idade Média na alma de nosso
povo.
- Por que continua me chamando de senhor?
- Porque assim o manda o respeito que tenho por
sua dignidade, de ser dono de si, de deter o livre arbítrio e ser livre como
deve ser todo filho de Deus. Nós nos chamamos de senhor por causa disso, e o
senhor por que me chama de você o tempo todo?
- Porque somos todos iguais e este tratamento
nos nivela, não dar a ideia de diferença e desigualdade. Nele não há destaque,
não há distinção. Você é qualquer um, é igual a outro qualquer...
- Mas, não é verdade. Nós não somos qualquer
um: somos filhos de Deus e detentores da dignidade própria desta condição. Além
do mais, não somos iguais, somos completamente diferente e desiguais uns dos
outros. Por isso, é necessário que sejamos tratados de forma diferente.
·
* * * * *
Os sinos tocam pausadamente. As badaladas vão
se sucedendo harmoniosamente, alternando sons graves e agudos de diversas
igrejas. “Não, não pode ser – pensa Rivière – estes sinos não podem estar
tocando no meio desta babilônica cidade. Estes toques me fazem lembrar meu
mundo, minha cidade, minha querida Idade Média do século XIII e não no inferno
desta babel”.
Sim, era verdade, os sinos da catedral e das
outras igrejas de Lyon estavam tangendo. Logo, Rivière percebeu que seu sonho
era um pesadelo. Levantou-se lépido da cama, pois não queria chegar atrasado à
Santa Missa. Além do mais, o duque o estava esperando como sempre, e dormira
além do normal. Ao sair, porém, na rua, ouviu certo murmúrio na praça. Eram
comuns desde algum tempo aquelas azáfamas de vendedores que vinham de outras
cidades. Um deles oferecia livros romanescos da cavalaria decadente: “O
cavaleiro que salvou a princesa da prisão do castelo!” – gritava oferecendo
seus cordéis. Era o título da obra. Alguns compravam, embora poucos soubessem
ler.
Rivière vendo tudo isso, considerou pensativo:
- E pensar que tudo começou por aí. Estou
presenciando o início do processo revolucionário em tudo o que se passa na
minha cidade, cujo apogeu acabo de contemplar num terrível sonho que tive.
Soube de notícias do movimento renascentista
que já se iniciara, uma tentativa de restaurar o mundo pagão depois que os
grandes santos e doutores da Igreja haviam sepultado no pó da História aquelas
velhas filosofias de vida que tantas misérias haviam produzido na humanidade
antiga. Depois que a Igreja havia extirpado a escravidão, depois que as
ciências, as artes, a cultura de modo geral começavam a tomar um impulso
cristão e sadio, depois, principalmente, que predominava na sociedade católica
um salutar convívio social e surgiam estudos para equacionar problemas
seculares, os homens então começaram a querer retornar ao mundo romano-helênico
e outros já decaídos.
E, aproveitando a ocasião, rezou algumas
ladainhas e rosários pelo homem do século XXI. Pois, que solução poderia dar
para problemas de tais magnitudes? Será que eles acreditariam, se lhes dissesse
que estavam caminhando para aquela confusão vista em sonhos em época tão
distante?
E o homem do século XXI? Seria ele capaz de
sonhar como seria o futuro da humanidade, sete ou oito séculos após tanta
decadência?
terça-feira, 20 de maio de 2025
COMO SERIA HOJE UM REGIME COMUNISTA?
Desde que surgiu o primeiro regime dito comunista, na Rússia, em 1917, ficou arraigado na opinião pública de que o mesmo se constitui no completo domínio do Estado sobre toda a sociedade. As denominações podem variar, como, por exemplo, socialismo de estado, capitalismo de estado, república sindicalista, etc. Mas, no fundo, trata-se do mesmo sistema em que o Estado se arroga o direito de controlar completamente a vida dos cidadãos. Deste modo, não há muita diferença entre socialismo, comunismo, nazismo e fascismo, pois todos estes regimes têm a mesma característica de impor o poder estatal sobre toda a sociedade.
É nesse sentido que diz-se hoje que estamos vivendo num regime de “comunismo difuso”, isto é, não é um regime de partido político que domina o poder estatal, mas onde as leis nos conduzem a tal preponderância. E não é só no Brasil, isso ocorre em todo o mundo. Todos os Estados modernos existem com legislações controladoras do Estado sobre a sociedade. Foi nesse sentido que Nossa Senhora disse em Fátima: “A Rússia espalhará seus erros pelo mundo”. Em 1917 a Rússia não representava nada perante o mundo, mas Nossa Senhora já previra o que ocorreria futuramente quando as nações copiassem suas leis nesse principio do poder estatal. Não quer dizer que o Estado não deva ter certo controle, mas a forma que se faz hoje em dia, dando ao Estado poderes absolutos sobre todo o corpo social, esmagando e sufocando todas as outras organizações da sociedade, torna-o ditatorial e ilegítimo.
E qual é a forma correta do Estado gerir a sociedade? Trata-se de usar um princípio defendido pela Igreja, através de vários documentos dos Papas, que chama-se “princípio de subsidiariedade”. Isso quer dizer o quê? Quer dizer que o Estado dirige, orienta, legisla, mas respeitando toda a gama de sociedades que existem abaixo dele, sem sufocar seus poderes. E este sistema dirigista estatal já consta em toda constituição moderna. Por exemplo, lá se diz que “compete ao Estado dar saúde e educação a todos os cidadãos”. Esta afirmação, como muitas outras, dá a impressão de que mais ninguém tem essa obrigação. Ora, a saúde é de responsabilidade em primeiro lugar do próprio indivíduo em particular, que deve se cuidar e procurar o médico quando adoecer; não conseguindo fazê-lo sozinho buscar o amparo de seus familiares; também aí não encontrando solução para seu problema, deve procurar uma organização maior, que é sua comunidade, seus amigos, seus vizinhos ou a autoridade municipal que lhe está mais próximo. Somente em ultimo caso é que o sujeito deve procurar os poderes públicos para solucionar seu problema de saúde. O mesmo diga-se com a educação e outros direitos fundamentais.
E hoje os Estados modernos agem assim? Não. As constituições modernas concedem ao poder estatal poderes extraordinários para gerir todo o corpo social, intervindo arbitrariamente em tudo sob o argumento do bem comum. E essa mentalidade intervencionista não é própria apenas dos governos federais que regem as nações, ela domina completamente os governadores de estados e províncias e os prefeitos, tanto das capitais quanto de qualquer cidadezinha do interior, seja do Brasil seja de qualquer país do mundo. Digo mais: essa mentalidade contaminou todo o corpo social e a maioria já se acostumou a esperar do governo favores, vantagens ou o cumprimento de alguns direitos, sem fazer ele mesmo esforços para consegui-lo. Competiria ao Estado, segundo essa mentalidade, dar tudo, resolver tudo, controlar tudo.
Vejamos o exemplo de como agiram no combate à pandemia do covid que grassou no mundo. Não há um só país do mundo em que as medidas tomadas por autoridades, seja locais ou nacionais, não tenham sido baseadas no poder absoluto do Estado sobre os indivíduos e sob alegação do bem comum. O bem comum, no caso, é proteger as populações contra a propagação da doença. Mas, a própria população não foi orientada a se defender? Se foi como se explicar ações restritivas e punitivas? Trata-se da exorbitância do poder estatal sobre os indivíduos, sobre as famílias e sobre as comunidades que ficam abaixo do poder estatal. Trata-se apenas da afirmação de um princípio de poder civil, pelo qual o Estado é superior a tudo e pode até suprimir direitos elementares, caso julgue necessário, para cumprir o que ele mesmo julga ser a defesa do bem comum.
Nesse sentido, os erros da Rússia dominam toda a terra. E talvez tenha sido com base nessa forma de governar que Nossa Senhora tenha dito em Pesqueira (PE), ao aparecer a uma pobre lavradora, no ano de 1936, que o comunismo dominaria o Brasil, mas por pouco tempo. Não, não é o PC que toma conta do poder, mas uma idéia que vem dele que é essa supremacia do poder estatal esmagando e se impondo sobre toda a sociedade.
Analisando os últimos acontecimentos ocorridos no Brasil, desde a pequena cidade do mais pobre interior até a capital mais rica que é São Paulo, não é essa mentalidade que predomina entre os que dirigem o nosso país, não é isso que consta em nossas leis ou medidas tomadas pelos legisladores no calar da noite?




