sexta-feira, 24 de janeiro de 2014
CONVERSAÇÃO, UM PASSATEMPO DE OUTRAS ERAS
Seguem algumas frases ou expressões sobre a arte da conversa, coisa praticamente inexistente no mundo atual:
A CONVERSAÇÃO
• “Esto brevis et placebis” – Sê breve e agradarás. (aforismo latino). • Política é conversa. O resto é... conversa fiada. (Otávio Mangabeira).
• Conversar é, como as abelhas, fazer mel de qualquer coisa. (La Fontaine).
• Há palavras que sobem como a chama e outras que descem como a chuva. (Maria d’Agouit).
• Os homens com quem se fala não são os homens com os quais se conversa. (Rousseau).
• O melhor prazer da vida é a prosa. (Plínio Corrêa de Oliveira).
• A conversa é um intercâmbio de duas personalidades que falam sobre matéria atraente e que interessa a ambos. Será ainda mais autêntica, se o meu interlocutor puser certa nota pessoal em suas palavras, fazendo com que eu goste de ouvi-lo. Isso é um elemento fundamental da conversa. (Plínio Corrêa de Oliveira).
• Uma hora de conversa vale mais do que cinqüenta cartas. (Mme. de Sévigné).
• As palavras, como as abelhas, têm mel e ferrão (Ditado suíço).
• “La parole est d’argent, mais le silence est d’or” – A palavra é de prata, mas o silêncio é de ouro (Máxima traduzida do árabe por Duchemond, in Recueil d’adages, 1867, p. 121).
• “Quand une femme a le don de se taire, elle a des qualités au-dessus du vulgaire” – Quando uma mulher tem o dom de calar-se é porque tem qualidades acima do comum delas (Corneille, Le Menteur, Acte I, sc. 4).
• O homem de palavra é ordinariamente o que menos fala. (Marquês de Maricá).
• Use palavras leves e argumentos pesados (Adágio inglês).
• Quando falares, cuida para que tuas palavras sejam melhores que o silêncio (Provérbio indiano).
• Não deixe que sua língua o mantenha surdo (Adágio indígena americano).
• Quem muito fala, muito erra e muito enfada (Ditado popular).
• O que convence é o caráter de quem fala e não o argumento (Menandro).
• Temos dois ouvidos e apenas uma boca para ouvir mais e falar menos (Ditado popular).
• O ouvido não foi feito para fechar mas a boca foi (Ditado popular).
• “Non minus interdum oratorium esse tacere quam dicere” – Às vezes calar não é menos eloqüente do que falar (Plínio, o Jovem).
• “Taciturnitas stulto homini pro sapientia est” – O silêncio é a sabedoria do tolo (Publílio Siro).
• “Stultos quoque, si tacuerit, sapiens reputabitur et, si compresserit labia sua, intellegens” – Até o insensato passará por sábio, se estiver calado; e por inteligente, se cerrar os seus lábios”. (Provérbios, 17, 28).
• “Ex abundantia enim cordis os loquitur” – Da abundância do coração fala a boca (Mt 12, 34).
• A literatura em muitos dos seus ramos não passa de sombra da boa conversação (Robert Louis B. Stevenson - séc. XIX).
• As conversas familiares, os diálogos amigáveis são meios bastante eficazes. Oh! Quanto bem produzem! (Santo Antonio Maria Claret).
• A Revolução causou à sociedade uma perda imensa, talvez irreparável... ela matou a conversação (Conde Pierre Louis Roederer, Paris 1754/1835).
• A conversação era, nessa época, brilhante, o emprego do espírito, o sal mais fino do “savoir plaise”, do “savoir vivre”, do “sprit de Cour”. Era a recreação por excelência. Finesse, “grace, limpidité, rapidité”, arte de esconder o pensamento ou a malícia sob o véu transparente dos subentendidos, palavras que iam além do que elas exprimiam, “plaisantierie”, “repartie”... eis algumas das ritulantes preciosidades que faiscavam à luz das velas, antes de caírem magnificamente, principescamente, como fitas de seda, nos tapetes finos daqueles salões aristocráticos” (G. Lenotre – “Gens de la Vieille France”).
• Na verdade, se a boca fala da abundância do coração, é preciso igualmente que cale a língua quando há escassez de pensamentos. (São Bernardo)
• “Alienis quippe oculis, intra secretum mentis, quase post parietem corporis stamus; sed cum manifestare nosmetipsos cupimus, quase per linguae iahuam egredimur, ut quales sumus intrinsecus ostendamos” (SANCTI GREGORII MAGNI, Expositio in librum Job libri XXXV (Moralium), liber II, cap. VI, vers. 8; PL 75, p. 559 - Aos olhos dos demais, na parte secreta da mente, estamos como que por detrás da parede do nosso corpo; mas quando desejamos nos manifestar, saímos como que pela porta da língua para mostrar o que somos em nosso interior” .
quinta-feira, 9 de setembro de 2010
Homenagem à Tia Naninha em Natal
Estando em Natal, no encontro entre primos, todos netos da vovó Bárbara Josino da Costa, fomos visitar uma matriarca centenária, Anna Elfízia de Paiva. Dona Anna era a caçula entre 13 irmãos, filhos de Jezo de Paiva Cavalcante e Francisca Maria da Conceição. Seu irmão, Francisco Cavalcante de Paiva era o esposo de Bárbara Josino da Costa.Por ocasião de seu centenário em 2005, D. Anna, ou Tia Naninha como é mais conhecida, fez o seguinte depoimento:
“Nasci no dia 25 de março de 1905, em um sítio localizado em Portalegre(RN). Minha família era pobre e não tinha um lugar certo para morar, até que meu pai conheceu um senhor que nos ajudou, dando um lugar para ficarmos. Esse homem nos dava de tudo e não queria pagamento. Satisfeito com tudo isso, meu pai o convidou para ser meu padrinho e ele prontamente aceitou. Com o trabalho no roçado, meu pai conseguiu juntar um dinheirinho para a compra desse terreno, mas o homem não aceitou dizendo ser este o presente de sua afilhada”.
Após essa introdução, Tia Naninha fala de como conheceu seu esposo, Henrique Barbosa de Amorim, sete anos mais velho do que ela. Pelo fato de seu pai não aprovar o namoro, teve que usar de um artifício: “fugiu” com o noivo e casou-se sem a aprovação dos pais. O casamento foi realizado na cidade de Pau dos Ferros, no dia 25 de março de 1920, no dia em que ela completava 15 anos de idade. O casal teve uma convivência de 42 anos, tendo no total 19 filhos, 6 dos quais “não se criaram”.
Atualmente, Tia Naninha reside em Natal, na casa de uma de suas filhas, Elita. Segundo dados da família, conta com mais 80 netos, 203 bisnetos e 61 tataranetos.
Recentemente, um jornal de Natal publicou uma reportagem falando sobre longevidade, onde a homenageada era Tia Naninha, conforme podemos ver abaixo:

Vendendo saúde aos 105 anos
Dona Ana Efísia mostra que é possível ultrapassar a idade centenária com lucidez e disposição
Sílvia Miranda Especial para o “Diário de Natal”:
Dificuldades, emoções, desafios, superação e muita fé. Assim é a história de vida de Dona Ana Efísia de Paiva, que hoje mora em Natal e completou 105 anos na semana passada, tendo vivenciado a morte de 12 de seus 19 filhos. Mais que centenária, ela prova que é possível ter saúde e alegria em qualquer idade.
Segundo estimativa do Instituto Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea), apenas 45 mil dos 190 milhões têm mais de 100 anos, o que representa pouco mais de 0,02% da população nacional. Dona Ana é uma representante e tanto dessa turma. Nascida no município de Portalegre, a 366km de Natal, Ana Efísia, completamente lúcida, conta as dificuldades que passou para conseguir casar com Henrique Barbosa Amorim aos 15 anos. "Papai não queria nosso namoro porque ele era moreno, então um dia eu fugi para a casa de um casal de amigos e fiquei morando lá. Naquela noite deixei um pau de pilão dentro da rede, coberto com meu lençol, e meus pais só vieram perceber minha ausênciano outro dia. Insistiram para que eu voltasse, mas alguns dias depois casei".
Para ela, os maiores prazeres da vida hoje são poder deitar-se em uma rede na varanda e tragar um cigarro. "Fumo desde os 9 anos e nunca tive problemas com o cigarro, minhas taxas são todas normais", acrescenta. Ela diz que não dispensa um bom feijão com arroz diariamente, um cafezinho e o velho mingau de farinha láctea com leite.
Muito trabalho
A receita para uma vida longa, segundo ela, é muito trabalho. Efísia diz que, após o casamento, teve de enfrentar muitos desafios para conseguir colocar alguma coisa dentro de casa. "A gente morava num sítio em Portalegre e trabalhava com criação de gado, ovelha, tirando leite da vaca, fazendo queijo, trabalhando de dia e de noite na plantação de batata e à tarde fazendo rede para vender. Foi assim que fomos conseguindo as coisas e criando nossos filhos".
Mas a melhor fase de sua vida não foi em sua cidade natal. Ela explica que foi uma época de grandes dificuldades e que ela só conseguiu viver em paz quando mudou-se para Pau dos Ferros, a 400km de Natal. "Minha maior vontade é poder um dia voltar à nossa casa em Pau dos Ferros". Foi forçada a vir para Natal quando o marido ficou doente. "Foi aqui onde ele faleceu com vários problemas no coração, para mim foi muito difícil continuar sem ele".
Hoje, com cerca de 80 netos, 200 bisnetos e 60 tataranetos, dona Efísia diz que conseguiu superar a perda graças ao amor da família e a fé. Com uma família tão grande, ela diz que já não sabe mais como conseguir reunir todo mundo. "Tenho muito prazer em poder reunir os familiares, mas hoje é impossível juntar todos porque tem gente espalhada por todo Brasil e até no Japão".
sexta-feira, 5 de março de 2010
AS INCRÍVEIS PERIPÉCIAS DO CASAMENTO DA FILHA DO GENERAL COM O LENTE DA FACULDADE

Parece estranho, mas é verdade. O primeiro Diretor da Faculdade de Direito de São Paulo foi um militar, o Tenente-General José Arouche de Toledo Rendon. O velho General Arouche, cujo nome ficou perpetuado num largo, nesta capital, foi no São Paulo antigo uma figura assaz pitoresca, marcada de heroísmos incomuns, e sobre quem, até hoje, ainda não se escreveu uma biografia de corpo inteiro, já comentou uma cronista.
Ainda rapazinho, o filho do Mestre de Campo Agostinho Delgado Arouche de Toledo e de Dona Maria Teresa de Araújo Lara morou na antiga Travessa do Colégio, atual Rua Anchieta, exatamente no número 11. O número 11 era uma casa que ''oferecia aspectos solarengos, ostentando sacadas de ferro forjado beirais salientes, com telhas vidradas de calha, como ornamento; as janelas eram guarnecidas de rótulas pintadas de verde; teriam tido a mesma cor as demais peças de madeira da fachada''. O velho prédio foi substituído pelo atual, onde a Santos-Jundiaí mantém uma agência ferroviária.
Ali residiu com os irmãos e irmãs. As célebres ''Meninas da Casa Verde", todas solteiras e graciosas. Eram sete as tão famosas " Meninas da Casa Verde": Caetana, Gertrudes, Joaquina Pulquéria, Leocádia, Ana Teresa, Maria Rosa e Rudezinha, um bando gárrulo de jovens casadouras, que nunca se soube porque jamais se matrimoniaram. Paulo Cursino de Moura procura explicar: "Mocinhas da Casa Verde", porque ali, na Travessa do Colégio, pegado a Maria Punga, quituteira (Maria Emília Vieira), "no sobrado de sacadas e persianas, de rótulas-oratórios, quadradas e salientes", eternamente pintadinho desse verde garrafa, leve, brejeiro, alegre, das antigas construções coloniais, moraram as irmãs Arouche. E por serem muitas e todas, num prédio só, as meninas Arouche tomaram a feição do ambiente — "Mocinhas da Casa Verde" . Em revoada — aves sem donos, sem peias — imigravam, de quando em vez, para as bandas da Freguesia do Ò. Daí, o nome — Casa Verde — que a roça legou à cidade, dominando o bairro todo, pelo batismo dos mesmos eternos, boquejados da vida alheia".
Enquanto isso, enquanto as graciosas jovens impressionavam a rapaziada acadêmica, sem nenhum decidir por nenhuma, o mano José demandava a velha Coimbra para tentar o canudo de barechal em Direito. Aos 21 anos, 1777, ainda estudava. Dois anos depois, terminava o curso, colocando grau de doutor em leis a 3 de julho de 1779.
Regressando a São Paulo, primeiramente fez advocacia. Depois, exerceu cargos de magistratura. Mais tarde, trazendo incubada velha vocação recalcada, dedicou-se à carreira militar. E, sempre com êxito satisfatório, foi subindo nas funções que abraçara, embora tardiamente atingiu ao posto de tenente-general e, por fim, ao de marechal de campo. Brilhou mais como militar do que como bacharel.
Nuto Sant' Ana, que andou pesquisando a esse respeito, descobriu-lhe o nome entre os recenseados no ano de 1841, aqui em São Paulo, com os seguintes dados bem curiosos. Era então Arouche Rendon brigadeiro inspetor geral de Melícias dessa capitania com 57 anos, casado com Dona Maria Teresa Rodrigues de Morais, vivendo de seu soldo. Ela com 54 anos. Tinham duas filhas solteiras, um criado, dois agregados e 14 escravos; as "filhas", Dona Maria Benedita, de 26 anos, solteira, brasileira e Dona Margarida, de 15 anos, solteira, exposta, brasileira. Figura como "criado", Mariano, de 16 anos, solteiro e, como "agregados", João Dias, oriundo do Paraná, de 14 anos, solteiro, pardo, e Madalena, de 68 anos, solteira, parda. Quanto aos escravos eram Pascoal, de 58 anos, Delfina, de 32, Quitéria, de 17, Joaquim, de 16 Cipriano, de 20. Antônio, de 15, Bernadinho, de 12 e Eliseu, de 9 anos, todos criolos. Solteiros e pardos; e Tomé de 51, João, de 41, Alexandre, de 56, Tomóteo, de 21, Vitória, de 51 e Rosa, de 41, negros.
A 13 de outubro de 1827, é nomeado Diretor da Faculdade de Direito de São Paulo, juntamente com o primeiro lente, Conselheiro José Maria de Avelar Brotero.
Quando recebeu a honrosa incumbência, apressou-se o velho Arouche em manifestar a sua gratidão ao imperador, num ofício que Almeida Nogueira descobriu no arquivo da Faculdade, onde se conservava inédito. Adverte-nos, porém, que não se imagine pelo estilo do documento, que fosse o benemérito paulista um bajulador doa homens do poder. Ele não fazia senão repetir o estilo oficial da época.
Eis o inteiro teor do ofício em questão: "Senhor. Ajoelho perante V. majestade imperial e beijo a soberana mão benéfica, que acha de honrar-me com o emprego de Diretor do Curso Jurídico desta cidade. Sendo muito lisonjeiro a um súdito fiel ser lembrado de seu soberano para honrosos e importantes empregos, fica-me contudo o pesar de me faltarem muitas das qualidades necessárias para o desempenho de tão importante missão; mas, se o gosto e a boa vontade do empregado podem suprir, senão todas, ao menos uma parte delas, eu protesto perante v. majestade imperial empenhar-me em cumprir o meu dever na fiel e pronta execução das ordens de v. majestade imperial para complemento das grandes obras principais que irão elevar o Império do Brasil a par dos grandes Impérios. São Paulo, 1 de novembro de 1827. De v. majestade imperial, o mais humilde, fiel e agradecido súdito, José Arouche de Toledo Rendon.
O velho General Arouche foi grande proprietário em São Paulo, Possuía enorme chácara onde está hoje situado o bairro de Vila Buarque, segundo nos conta Spencer Vampré. Além disso, foi dono de uma porção de casas, sendo sete na Rua do Príncipe (atual Quintino Bocaíuva ); três na Rua de São José (Líbero Badaró); uma na Rua Alegre (Brigadeiro Tobias) e uma na Rua do Jogo da Bola (mais tarde Rua da Princesa e hoje Bernjamim Constant).
Da escrituração que ele meticulosamente assentava, dos aluguéis e da entrada e saída dos inquilinos, ficamos sabendo que a da Rua Príncipe n. 10 esteve alugada pôr 1$000 mensalmente, passando depois, em 1825, a 2$000 por mês; a da Rua do quartel vencia 5$000 mensais, a da Rua do Jogo da Bola, com quintal murado e portão, 1$000. A da Rua Freira n. 22 foi alugada, 1824, a Ana Policena, por cinco patacas mensais, e assim todas as outras, "podendo-se avaliar, por esses rendimentos, quanto era atrasada ainda, em seu desenvolvimento, e que a pobreza sofria a cidade, escolhida para sede do primeiro curso jurídico".
Vem de molde uma indiscrição histórica, acrescenta Spencer Vampré. Alugara Rendon uma de suas casas, à Rua do Quartel, ao Dr. Carneiro de Campos, que mais tarde o substituiu na Diretoria da Faculdade, tendo sido nomeado lente. Não parece que o futuro Visconde de Caravelas gozasse de grandes folgas de dinheiro. Eis, pelo menos, o assentamento de Rendon:— " Rua do Quartel, n..., alugada, em 15 de julho de 1829, ao Sr. Carneiro de Campos, a 12$800 por mês. Recebi três meses, até 15 de outubro. No dia 15 de dezembro, entregou as chaves, estando a me dever 21$330; mandou-me um bilhete de 50$000 para pagar-me, e dar-lhe 28$670 de troco, que mandei pagar pelo Barreto. Tomou as chaves Joaquim José Freire da Silva, etc" .
Como se vê, a casa em que morava um lente da Academia, custava 12$800 mensais, sublinhado este quebrado de 800 réis, o valor do dinheiro naquela época.
Ao velho Arouche ficou devendo a introdução cultura do chá, entre nós,. Plantou-o na sua chácara. Daí veio, mais tarde, o nome de Morro do Chá para a colina que, fronteira à que em que se achava o triângulo central, foi ligada pelo viaduto que lhe tomou o nome: Viaduto do Chá. Chegou mesmo a escrever uma " Monagrafia sobre a Colheita e Cultura do Chá".
A Chácara do marechal ficava "onde tem assento do hospital central da Irmandade da Santa Casa de Misericórdia de São Paulo, no quarteirão entre as Ruas Dona Verediana, Marquês de Itu, Cesário Mota e Jaguaribe".
A sede da chácara, esclarece o historiador de outrora, era o velho casarão de 12 janelas de frente, ainda existente na Rua Santa Isabel, n. 3. Primitivamente a chácara Arouche estendia-se da Rua da Alegria (hoje Sebastião Pereira) até ao Beco da Mata- Fome (atual Rua Araújo).
Tempo houve em que o general andou metido em outros negócios e fundou uma fábrica de tecidos de algodão. Pensou também em extrair da semente do chá um óleo que servisse para a iluminação.
Naqueles tempos, morava em São Paulo um lente da Faculdade de Direito chamado Prudêncio Geraldes Taveres da Veiga Cabral. Natural da Província de Mato Grosso, aqui chegara, vindo do Rio de Janeiro, em abril de 1829, nomeado professor catedrático de Direito Civil, um ano, portanto, depois da fundação do Curso Jurídico.
Nesta cidade, residiu na Rua de São Bento, em prédio, que hoje não existe mais, "contíguo ao de propriedade de Sr. Major Domingos Sertório, quase em frente ao da redação do "Comércio de São Paulo". Segundo Almeida Nogueira, "era alto, magro, meio curvo, corpo mal delineado, cara completamente raspada, nariz grande, olhos negros, boca regular e face pálida". Neurastênico e boêmio. Deixou uma crônica da mais pitorescas na velha Paulicéia do seu tempo.
Assevera-nos o autor de " Tradições e Reminiscências da Academia" que o Conselheiro Prudêncio Cabral, não obstante ser dotado de grande inteligência e vasta cultura jurídica, era um mau lente, já pelas suas singuridades algum tanto ridículas, como, sobretudo, pelo pouco caso que ligava aos seus deveres de mestre.
Quando apareceu nesta capital, contava 29 anos de idade e trazia um filho natural, nascido no Rio Grande. Era solteiro e nem pensava em casar-se.
Depois, aqui conheceu, na chácara do Tenente-General Arouche Rendon, a filha deste, D. Maria Benedita, bem mais velha do que ele. Logo forjaram um casamento para os dois. Um casamento muito desigual. A moça não queria: o futuro esposo tinha fama de estroina, senão de maluco, embora lente, e, como tivesse posição social de relevo pareceu à família Arouche bom partido.
O noivado foi mais rápido do que o próprio namoro. Celebraram-se as bodas com as solenidades do estilo: banquete, baile, enxovais... Ele, com 30 e ela com 42 anos, portanto bem madura!
Consorciaram-se naquele 22 de dezembro. Pois bem, no dia 23, logo cedinho, estavam separados! Mas não adiantemos os acontecimentos. Contemos o que de desconcertadamente aconteceu, então. Vão ver quanta complicação. Escutem.
Ao retirarem-se os últimos convivas, a noiva se recolheu à câmara nupcial e ali aguardou em vão a chegada do príncipe encantado. Este, porém, passeou horas inteiras, a noite toda, em frente ao quarto, sem animar-se a entrar. Falava sozinho, como que caindo em si, arrependido do passo que dera:
— "Que fizeste, Cabral*! Que fizeste Cabral*!"
Em seguida, saltando a janela, (o prédio era sobrado) deixou a casa para nunca mais voltar.
No dia seguinte, o escândalo estourou belicosamente como todos os escândalos dessa espécie, numa cidadezinha do tamanho de São Paulo, assanhando os seus vinte e dois mil habitantes. Foi só no que se falou, num comentário sem-par.
D. Maria Benedita retornou chorosa (nem era para menos) à casa do velho general Rendon. Logo tratou de propor contra o ex-frustado marido uma ação de nulidade de casamento, julgada pelos tribunais na parte civil. Submeteu-se a parte religiosa à consideração do Papa Gregório XIV. Os tempos rolaram e o escândalo continuou comentadíssimo, entre risadinhas à socapa.
Pôr fim, corridos todos os tramites, "foi julgado consumado, com separação. A 26 de novembro de 1831", pelo vigário geral do Bispado, Cônego Lourenço Justiniano Ferreira, a requerimento de D. Maria Benedita, conforme certidão passada em santa Ifigênia, pelo Padre Antônio Joaquim da Silva.
Referem, porém, as más línguas — conta-nos Almeida Nogueira — que, vindo a falecer o sogro, (o General Arouche desapareceu em 1834, três anos depois), o Conselheiro Cabral pretendeu entrar na meação de bens. Dizem que a isto se opôs madame ou mademoiselle Cabral, fundada no direito então vigente e na verdade dos fatos; o requerente contestou então as alegações sobre a inexistência da sociedade conjugal, porque, afirmava ele, que sim, que não havia dúvida, que ele tinha sido verdadeiro esposo. Replicava ela que não, muito ao contrário.
Para verificar o caso, ele requereu que se procedesse a exame... Não foi este senão um ardil empregado para obrigar ao acordo. E assim aconteceu. A fim de evitar o vexame, consentiu a esposa platônica do conselheiro em repartir com ele os bens que lhe cabiam.
Não sabemos se isto é verdade — concluiu Almeida Nogueira — ou uma simples anedota inventada. Alguém no-la contestou como incompatível com o caráter brioso, posto que excêntrico, do Conselheiro Cabral. Vai o caso como veio, sem endosso de nossa parte.
Desta forma se focou sem saber qual o seu estado civil. Do conselheiro se pode dizer que não era casado, nem solteiro, nem viúvo... E assim morreu.
Apesar de tudo deixou prole: dois filhos naturais. Um deles, o nascido no Rio Grande, bacharelou-se em 1850: o outro, mais moço, João da Veiga Cabral, muito conhecido e estimado nesta capital. Lutou pela vida, que não lhe foi das mais suaves. A princípio, labutou como tipógrafo nas oficinas do "Ipiranga".. Foi ator, depois oficial da polícia, em seguida, editor e proprietário dos jornais "Gazeta do Povo" e "Jornal da Tarde" e finalmente empregado público...
Quanto à D. Maria Benedita, a filha legítima do tenente-general José Arouche de Toledo Rendon, nascida antes do seu casamento com D. Maria Teresa Rodrigues de Morais, e sua única herdeira-maior, morreu solteirona. Nem era possível tentar novo matrimônio, depois do fracasso do primeiro, tão comentado, tão cheio de incríveis peripécias...
O velho Rendon, falecendo aos 78 anos, deve ter levado para o túmulo profundo desgosto. Já não bastaram as terríveis turras que manteve com o ranzicíssimo Conselheiro Brotero, na direção da Faculdade. Sobrecarregaram-lhe também as preocupações domésticas. As únicas que lhe não lhe deram trabalho foram as sete irmãs, as famosas "Meninas da Casa Verde". As "graciosas donzelas foram perdendo a frescura, amadureceram, murcharam e morreram..." E nunca se casaram. Morreram solteironas.
Vejam um resumo biográfico do Tenente General José Arouche de Toledo Rendon feito pela própria Faculdade de Direito da qual foi o primeiro Diretor:
Nasceu na cidade de São Paulo, aos 14 de março de 1756, filho do mestre-de-campo Agostinho Delgado Arouche e de D. Maria Thereza de Araújo Lara.
Fez o curso de direito civil em Coimbra, onde recebeu o grau de doutor em leis em 14 de julho de 1779. De volta ao Brasil, após ter-se dedicado à advocacia em São Paulo, exerceu os cargos de juiz de medições, de juiz ordinário, de juiz de órfãos e de procurador da Coroa. E os exerceu com proficiência e honradez.
Sentindo-se atraído pela carreira das Armas, assentou praça no Estado-maior do Exército, no posto de capitão. Galgou, nela, todos os postos, pois foi mestre-de-campo, inspetor-geral de milícias, brigadeiro, marechal-de-campo e, por decreto de 18 de outubro de 1829, tenente-general. Da sua inspeção às aldeias de índios, existentes na província, deixou um relatório impresso.
Adepto da causa da independência, foi, em janeiro de 1822, como delegado da Câmara Municipal de São Paulo, enviado ao Rio de Janeiro, em missão junto ao Príncipe Regente, D. Pedro, para solicitar-lhe que desobedecesse aos chamados das Cortes de Lisboa e ficasse no Brasil. Fizeram parte dessa missão, também, o Coronel Gama Lobo e, por parte do Governo Provisório, José Bonifácio de Andrada e Silva.
Por decreto de 20 de maio de 1822, foi nomeado comandante das Armas de São Paulo. Feita a Independência e convocada a Assembléia Constituinte, foi eleito deputado por São Paulo, com José Bonifácio, Antonio Carlos, Paula Souza, Nicolau Vergueiro, José Ricardo de Andrade, Fernandes Pinheiro, Velloso de Oliveira e Diogo Ordenhes, tendo sido este último substituído por José Corrêa Pacheco e Silva. Na Assembléia, tomou parte nas discussões em torno da indicação de Fernandes Pinheiro sobre a criação da Universidade de São Paulo.
Eleito deputado geral para a legislatura de 1826 a 1829, não tomou assento e foi substituído pelo brigadeiro José Vicente da Fonseca.
Por decreto de 13 de outubro de 1827, foi nomeado diretor do Curso Jurídico de São Paulo, que instalou em 1º de março de 1828, nele permanecendo até 1833, quando, atendendo a insistentes pedidos seus, o governo imperial lhe concedeu exoneração, por decreto de 31 de outubro de 1833.
Prestou o tenente-general Arouche Rendon grandes serviços à cidade e à província de São Paulo, e o seu nome condecora a rua, que sai da Praça da República e vai dar no largo, que tem o seu nome, aberta na grande chácara, onde ele residia e que lhe pertencia, no bairro de Vila Buarque.
Faleceu aos 26 de junho de 1834.
Obras Publicadas
Memoria sobre as aldeias de Indios da provinda de São Paulo. Revista do Instituto Historico e Geographico Brasileiro, v. 4.
Elementos de processo civil, precedidos de instrucções para os juizes municipaes . São Paulo: Typographia do Governo, no Palácio, 1850.
quarta-feira, 6 de maio de 2009
Um passeio nas caatingas nordestinas
“Saímos de Fortaleza sexta-feira, dia 5/7/85, rumo a Mossoró, R. G. do Norte, eu e o André.
O ônibus partiu às 07h da manhã, paramos em Aracati para tomar café, chegamos a Mossoró às 11:30h, tomamos um taxi para um lugar denominado “Primavera Baraúna” para a casa do Francisco, meu sobrinho, filho da Rita; em seguida fomos para a casa da mana Rita lá mesmo. Sábado a tarde o meu sobrinho foi nos levar para Mossoró para a casa de uma outra sobrinha, a “Mundinha”, filha da Salomé. Lá ficamos o resto do sábado, e domingo pela manhã o André foi com os primos para a quadra do CESC, e à noite eu fui com toda a família para a Missa. Segunda-feira, dia 8, às 06h da manhã, seguimos para Itaú, lá chegando às 8:30h, antes demos uma parada em Apodi. Chegando em Itaú fomos para o único hotel da cidade, que é de propriedade de uma sobrinha, filha da Anália; lá demoramos cerca de 2 horas, depois tomamos um carro particular para a cidade de Severiano Melo, e lá fomos direto para a casa do prefeito, o Sr. Ranulfo Holanda, que é filho de “Totó Holanda”, um amigo de infância. O prefeito nos recebeu muito bem e logo autorizou um motorista com um carro da prefeitura para ir nos levar até à “Baixa Vermelha”, a casa de minha irmã Anália. Chegamos mais ou menos às 12h e aí tivemos um encontro maravilhoso, não só com os familiares mas diretamente com a natureza.
Fomos dormir cedo pois não havia com que nos divertir, a televisão estava fora do ar, rádio não tinha, mas em compensação todos os alimentos eram caseiros, eles moravam em plena caatinga do Apodi, onde todos os alimentos são tirados da roça, é o feijão, o milho, a macaxeira, o capote, a laranja, a cana de açúcar, o coro, o jerimum. Mas a coisa que mais me impressionou foi quando me acordei, segunda-feira, 5h da manhã, e ouvi, mesmo deitado, a orquestra dos pássaros, uma coisa fantástica. Por exemplo, tem uma espécie de caboré que de manhã anuncia o nascer do sol e à noite o pôr do sol, pois o canto dele é somente isto “sol-sol-sol”, depois de uma pequena parada continua “sol-sol-sol”; depois vem os capotes com sua cantarola “estou-fraco”, “estou-fraco”, sem falar no galo, na cabra, no urro da vaca e no ronco do porco. Para surpresa, quando chegou a noite em saí na calçada e nos pés das paredes se aproximava uma legião de sapos horripilantes.
Pela manhã fomos para o curral tirar o leite das vacas, depois fomos moer cana, apanhar laranjas, ali fazia nos lembrar as coisas da natureza, pois tudo que Deus criou nos faz feliz, não só corpo, mas principalmente a alma. Me esqueci um detalhe do primeiro dia: eu e o André fomos dormir num quartinho apertado e eu levei a nossa sacola com roupa e a encostei num pé de parede, tirei umas roupas para dormir e a deixei aberta, quando, de manhã, ao tirar a roupa para trocar notei que havia um animal deitado em cima da roupa. Espantei, pensando que era um gato mas era um sapo bem grande.
3º dia na “Baixa Vermelha”. Ao raiar do dia, como não podia deixar de ser, o caboré anunciou o nascer do sol, eu e o André levantamos um pouco tarde; nestas alturas o pessoal da casa já estavam todos em ação, uns tinham matado um cabrito, outros estavam moendo milho para o cuscuz, cortavam cana para moer, arrancavam batata-doce. O café saiu mais tarde porque minha irmã com o marido foram à cidade fazer compras, e os dois filhos que moravam vizinho saíram cedo com os empregados para matar avoantes: voltaram às 8h trazendo 23 pássaros que tinham matado; daí as mulheres se dividiram, umas a tratar do fato do cabrito, outras das avoantes, outras cuidando da cozinha. Logo em seguida chegou o rapaz com o leite e fomos tomar café com leite e bolo caseiro. O mais importante é que todos cooperavam ajudando. Cada um tinha a sua tarefa, a minha foi fazer o suco de laranja, também colhida no quintal. Sim, me esqueci de dizer que no segundo dia chegou uma filha do casal com o marido e três filhos que vieram de Natal e mais um rapaz que veio de São Paulo, parente deles: só crianças haviam 6, de 5 anos abaixo.
Quinta, dia 11. Programamos um passeio para visitar uns velhos amigos e parentes que moram no povoado “Santo Antonio” e sítios vizinhos. Antes de sair eu fui com meu cunhado, de nome Cristalino, tirar o leite, depois tomamos café com queijo de manteiga e pão. Às 9 horas saímos para o passeio, o João, meu sobrinho, foi nos levar numa C10 de propriedade de Cristalino. Foi uma confusão, foram minha irmã e uma filha dela com a família, uma porção de crianças. Em Santo Antonio visitamos uma sobrinha de nome Santina, em seguida saímos na estrada que leva para a cidade Severiano Melo. Nesta viagem visitamos Aristides Regis, esposo de uma amiga de infância e de estudo, “Sinhá Holanda”, depois fomos para casa de Maria Holanda, casada com Tião Melo e irmã do ex-prefeito, ela filha do antigo patrão do meu pai e que passamos a infância juntos, é um dos fazendeiros da região. Em todos estes contatos tivemos uma grande recordação do passado. De volta, passamos em outra fazenda, aí compramos queijo, chegando em casa depois de meio dia. O almoço foi buchada, e entre outras novidades foi servida uma garrafa de vinho. Passei a tarde deitado, descansando. À noite foi servido o jantar com coalhada, leite, arroz, batata-doce e avoante assada.
De manhã cedo o Cristalino foi à roça arrancar mandioca, eu o ajudei a descascar. Depois tomamos um cafezinho e fomos tirar o leite das vacas: trazer o caldeirão de leite para casa era tarefa minha. Quando chegamos à casa tomamos café com leite, queijo, macaxeira e mamão. Em seguida fomos ao chiqueiro das cabras curar uma bicheira de um cabrito, depois ele soltou a criação e foi me mostrar o sítio dele com as plantações. Voltamos às 10:30h e eu fui descascar cana para a garotada chupar, em seguida pequei uma sacola e fui apanhar laranjas e descascá-las para fazer o suco do almoço. Nestas alturas o Cristalino tinha saído com a espingarda e voltou trazendo 3 capotes para o almoço. Por outro lado, o filho dele chagava com 10 avoantes. Depois do almoço eu fui me deitar, mas logo interrompido pelo dono casa que me chamou para calcular uma área que ele tinha empreitado para arrancar as árvores, empreitada feita por tarefas. Isto eu o fiz com muito prazer, pois a matemática é meu fraco. Logo que terminamos formou-se o tempo e começou a chover.
No 6º dia, sábado, Cristalino havia programado uma viagem para Itaú com a família, iríamos assistir uma vaquejada que ia realizar-se naquela cidade no sábado e no domingo. Por este motivo nos levantamos mais cedo, eu e ele, o Cristalino, fomos tirar o leite das vacas enquanto o resto do pessoal se movimentava arrumando as bagagens para o passeio. Depois do café começamos a arrumar o carro, uma C10, de propriedade dele, era aquela correria, a carroceria ficou cheia, tinha de tudo, redes, roupa de dormir, leite, capote, frango, avoante, 2 colchões para cama, pois iríamos todos, 11 pessoas entre crianças e adultos. Em Itaú meu cunhado tem uma casa onde íamos ficar os dias da festa.
Chegamos lá às 9:30h da manhã. Enquanto a minha irmã ia fazer o almoço, ajudada por 4 moças que faziam parte da excursão, eu e meu cunhado fomos dar uma volta para ver se encontrava por lá alguns cunhados e dar uma olhada na vaquejada que estava muito animada. Havia um locutor transmitindo a programação através de um microfone a uns 20 auto-falantes instalados em um carro. Ao meio dia fomos almoçar. Descansamos um pouco à tarde e voltamos à vaquejada novamente. À noite quase não se dormia devido ao movimento da cidade, bem perto da nossa casa havia uma festa dançante animada por um conjunto, pois a cidade estava em festas.
Domingo às 5:30h da manhã, viajamos para Umarizal, eu com o André íamos visitar a minha irmã, Salomé, com 78 anos de idade e que perdeu o marido há um ano. Lá seria o fim da viagem. A mana, como não tem mais filhos solteiros, mora com uma filha, a Maria, onde fomos nos hospedar. Lá a mana nos esperava com ansiedade, ao chegar ela nos abraçou, chorou e depois falou de seus problemas. A sua filha tem só uma filha, com 16 anos de idade. À noite fomos à Missa na única igreja da cidade. Segunda-feira, às 10h fomos à Missa novamente e às 13 h viajamos para Mossoró. Antes de partirmos fomos a Umarizal comprar rapaduras para trazer, depois que saímos de Umarizal rumo a Mossoró. O ônibus passou nas cidades de Olho D’Água de Borges, Caraúbas e Dix-Huit Rosado. Chegamos a Mossoró às 6h da tarde, dormimos na casa de “Mundinha”, minha sobrinha. À noite um rapaz da casa foi comprar as nossas passagens. No outro dia, terça-feira, saímos para Fortaleza, paramos novamente em Aracati e chegamos à nossa casa às 13 h, sãos e salvos. Em casa encontramos todos na santa paz de Deus”.
quarta-feira, 25 de março de 2009
A Bondade sertaneja (XVI)
Por: Juraci Josino Cavalcante
“Chassez le naturel, il revient au galop” – Expulsai a natureza, ela volta a galope. (Destouches).
Buscamos mais uma vez em seus papéis um depoimento, desta vez sobre o que ela pensava da natureza, na qual ele se embevecia tanto:
“Desde que eu resolvi escrever a história da minha vida, acho que dá para entender bem o que sou e o que penso. Mas, hoje quando se aproxima o fim da minha caminhada eu queria falar de um sentimento que guardei até hoje no íntimo do meu ser.
Talvez hoje devido à minha idade avançada alguém considera este assunto como uma espécie de arteriosclerose, mas isto não importa para mim, o importante é escrever o que penso e o que sinto, é o seguinte:
Desde o começo da minha vida eu sempre tive muito apego às coisas da natureza. Mas hoje, com a experiência que tenho, cada dia que passa eu descubro que as obras da natureza são criadas por Deus, portanto são também nossas irmãs, e comigo ultimamente vem acontecendo o seguinte: no meu quintal, como vocês sabem, tem vários pés de árvores, como goiabeiras, cajueiros, abacateiros, sapotizeiros, coqueiros e ateiras, e para mim hoje estas fruteiras são consideradas como uma outra família que construí no decorrer da minha caminhada, hoje eu sinto por esta outra família um apego, um amor, um carinho que não sei explicar, mas quando me sinto triste, magoado, sem saber a quem recorrer é a estas criaturas que recorro, fico alguns minutos abraçado ao meu cajueiro, na goiabeira, logo me sinto feliz, aquele perfume das flores, menear das folhas, é como se elas tivessem me acariciando, me dando muita paz, e dali saio forte, aliviado e desperto a seguir a caminhada como se aquilo para mim fosse um alimento para o corpo, mas principalmente para a alma, pois as coisas da natureza são criaturas criadas por Deus e são puras e sem máculas. Não sei se estou certo, mas quero continuar assim até meus últimos dias, eu acho que tudo que Deus fez é bem feito e nós devemos respeitar toda criação, seja a natureza humana, animal ou vegetal, mesmo com as diferenças que há entre todas as criaturas, devemos aceitar e até amar, pois foi tudo criado por Deus, principalmente os seres humanos que Deus criou à sua imagem e semelhança, todos estes pensamentos fazem bem à alma e ao coração. Alguém luta pela igualdade, mas às vezes estes pensamentos estão errados e não agradam a Deus.
Um poeta já escrevia sobre a igualdade e dizia assim:
Para crer que existe Deus
Não precisamos de mais
Do que olhar a nós próprios
E para os irracionais:
Tantos viventes que existem
E todos são desiguais”.
Em um outro documento, o Sr. Batista relata uma espécie de êxtase que teve quando contemplou uma linda paisagem no sertão da Bahia. Estava ele visitando seus dois filhos que moravam em Jacobina, em 1987, quando se deu o que ele chamou de “êxtase”, maravilhamento, digamos nós, pela natureza que havia a seu redor:
“Jacobina, 24 de julho de 1987
Eu estava na casa do meu filho Francisco Antonio, em Jacobina, Bahia. Neste dia amanheci um pouco confuso, tomei o café da manhã mas fiquei inquieto, não sabia o que queria. Voltei para a cama, fazia frio. Em poucos minutos notei que não era aquilo que eu queria. Me levantei. Era mais ou menos 9 horas. Nestas horas eu gosto sempre de fazer uma leitura, mas desta vez não tinha vontade para nada, não queria ler nem ver televisão.
Daí resolvi fazer uma caminhada. Saí beirando um rio que corre entre duas serras[1] , até uns 100 metros havia algumas casas, depois o caminho ficou deserto, não se via mais casas nem pessoas, nem animais, era só o contato com a natureza. O caminho onde eu passava ficava a uns 10 metros de altura para a correnteza do rio. Daí eu fiquei como se estivesse em êxtase. Para todo lado que eu olhava tudo era obra da natureza, as águas, as árvores, os rochedos, as flores, e eu continuei caminhando, observando tudo que havia naquele caminho deserto e sem fim. Tive então o desejo de descer até a beira do rio, banhar minhas mãos naquelas águas claras com cheiro de pureza.
Encontrei um lugar íngreme mas dava para descer. Antes de enfrentar aquele perigo comecei a pensar: será que vai acontecer alguma coisa comigo? Aí me lembrei da proteção divina e comecei a cantar “Segura na mão de Deus e vai”. E foi o que fiz, enfrentei aquela barreira, ora de cócoras, ora de quatro pés, mas consegui chegar no lugar desejado. Sentei-me na beira do rio, lavei as mãos naquelas águas descidas das serras com cheiro de ervas, de lodo, mas tudo era obra da natureza. Subi novamente a barreira e continuei caminhando. Logo em seguida avistei um homem que quebrava pedras. Depois ouvi um tiro: era alguém que caçava passarinhos.
Já no fim da caminhada avistei uma cascata que vinha do alto da serra, corria água a uns 100 metros de altura. Depois de observar tudo resolvi voltar, mas durante toda esta caminhada eu conversava comigo mesmo como se estivesse num Paraíso terrestre, todo aquele trajeto eu não pensei em nada nem em ninguém. Aí pensei: se a gente pudesse viver assim, longe de tudo e de todos, sem dizer nem ouvir conversas, só com pureza das árvores, das flores, das águas, das pedras”.
Aqui termina seu relato, talvez fruto de agradáveis recordações dos tempos em que ele morava no sertão do Rio Grande do Norte, e onde a natureza deve ser menos exuberante mas sempre contendo aquele aspecto bucólico que tanto bem faz à alma humana.
[1] Trata-se do "Rio do Ouro" que serpenteia entre as serras de Jacobina, na Bahia.
segunda-feira, 8 de dezembro de 2008
A Bondade sertaneja (XI)

limpa o pé de algodão
Pois pra vencer a batalha
precisa ser forte, robusto, valente e nascer no sertão;
Tem que suar muito pra ganhar o pão,
Que a coisa lá não é brinquedo não.
Mas quando chega o tempo rico da colheita,
trabalhador vendo a fortuna se deleita:
Chama a família e sai
Pelo roçado vai
Cantando alegre, ai, ai, ai, ai, ai.
(música de Zé Dantas e Luiz Gonzaga)
A frase que Euclides da Cunha tornou famosa em seu livro “Os Sertões” (O sertanejo é antes de tudo um forte) é o resultado de uma profunda análise psicológica do nordestino, principalmente do nordestino sertanejo, quer dizer, daquele que arriscou tudo se embrenhando pelas caatingas, em ermos longínquos e inóspitos, para lá construir o seu mundo, sua vida, sua família e fazer de si mesmo este modelo vivo de fortaleza e austeridade. Formado assim na luta, nas dificuldades ingentes das intempéries e do sofrimento humano, o sertanejo nordestino tem uma têmpera forte, um caráter firme e decidido, mas ao tempo com uma alma dócil, cheia de bondade, amorosa, cálida para com os amigos e aguerrida para com os adversários de si e dos seus. Um exemplo bem marcante disto foi tudo o que o Sr. Batista teve que sofrer em seu sertão, como ele mesmo conta em suas reminiscências aqui transcritas, alimentado, sustentado, por sua religiosidade franca, sincera e ainda que pouco instruída.
Sua primeira viagem em busca de melhorar de vida foi feita em 1927, conforme relata, tendo intenção de viajar 22 léguas (l32 km!) a pé, de Portalegre a Mossoró, levando consigo apenas uma rede de dormir, um lençol e uma muda de roupa. Contava cerca de 16 anos de idade e nunca havia saído de casa, não sabia nem pra que lado ficava Mossoró. Após percorrer os primeiros três quilômetros para a estrada principal encontra-se com uns desconhecidos, comboieiros que se dirigiam para seu mesmo destino. Pediu para acompanhá-los. Dormiu no meio do caminho, talvez ao relento, e no dia seguinte amanheceu com febre. Ele mesmo relata: “...mas assim mesmo saí acompanhando aqueles estranhos companheiros com os seus burros de cargas, numa estrada poeirenta e sob um sol escaldante. Às doze horas, quando paramos para o almoço, a febre tinha aumentado, sentia muito frio e não podia mais caminhar. Então, dentre aqueles desconhecidos, surgiu uma alma generosa que, compadecendo-se de mim, cedeu-me a sua montaria e seguiu o resto da viagem a pé. Lá chegando à casa do meu tio Vicente, notamos que a minha doença era catapora e em pouco tempo estava bom”.
Outra viagem longa foi feita em 1930, três anos depois, ele e mais três irmãos, esta em direção ao Ceará, à cidade de Jaguaribe. Novos problemas na viagem, pois como seguiam à pé e ele estava com um pé doente não conseguia andar. Viram alguns animais bebendo água, amarraram um deles e puseram o Sr. Batista em cima do animal. À noite encontraram uma casa para pousada e soltaram o animal, pois o seu pé já estava melhor para continuar sua jornada.
Detiveram-se numa cidade chamada Flores, onde encontraram trabalho na construção de uma rodovia. Os homens que em tempos de seca faziam tais trabalhos eram chamados no sertão de “cassacos”, termo que Aurélio Buarque de Holanda captou e inseriu em seu dicionário. Novos problemas. Surgiu uma epidemia de paratifo, e, segundo ele, morria gente diariamente vitimada pela doença. Calor escaldante, poeira, trabalho estafante e duro, junto a uma alimentação precária (comiam quase só um tipo de farinha de péssima qualidade), enfraqueciam os cassacos e os faziam vulneráveis às bactérias e vírus. Seus três irmãos foram acometidos da moléstia e logo voltaram para casa. Ele, teimoso, ficou. Mas logo adoeceu também e teve que voltar para casa. A febre, porém, não o deixou chegar à sua casa. Teve que se demorar na casa de um seu tio que morava a meio do caminho, até que seu pai o viesse buscar a cavalo.
A tônica dos relatos do Sr. Batista era a seca que rondava constantemente as vidas rurais dele e dos seus familiares. No ano de 31 nova estiagem, novas dificuldades. Foi aí que juntou-se com um amigo ou parente, Chico Barros (há Barros na família de sua mãe) e foram tratar do gado de um fazendeiro. Estava próximo dos 20 anos de idade e já levara uma vida duríssima pelos sertões. Tinham que se meter nos matos para cortar mandacaru e macambira para dar aos animais. Quando voltavam, cansados, famintos e cheios de espinhos na carne, tinham como comida apenas um pirão de farinha com carne de carneiro. Terminado o almoço, tomava-se um cafezinho e voltava-se ao trabalho, sem direito a uma sesta sequer. E a operação se repetia: embrenhar-se nos matos, cortar mandacaru e macambira, colocar em cima dos burros e trazer até os currais para dar ao gado. Antes de tudo, teriam que reunir os animais, soltos pela caatinga. À noite, após uma ceia também fraca, dormiam ao relento. E assim era todos os dias naqueles ermos.
Durou pouco mais de um mês a sua empreitada com o fazendeiro, pois se desentenderam com ele e foram embora, deixando-o só. Numa certa noite que o dono da fazenda os tratou mal, naquele mesmo momento resolveram pegar seus pertences e largar o “emprego”, fazendo aquela jornada de duas léguas a pé, numa estrada poeirenta e num areal que ia até o tornozelo.
Quando não fazia estas viagens e tais aventuras o Sr. Batista levava a sua vida com seu pai, ajudando-o no roçado, com a enxada, capinando, cavando, plantando, colhendo, etc. Debaixo de sol escaldante. Foi assim que lhe foi insculpida em seu espírito aquela paciência, que era paradigma de seu avô e de seu pai, capaz de “cozinhar pedra”, como diria o próprio sertanejo.
terça-feira, 25 de novembro de 2008
Meio século de uma epopéia sertaneja
A palavra "retirante" foi definitivamente inserida no vocabulário nacional como consequência natural das constantes secas do Nordeste: eram assim chamados todos aqueles que fugiam para as grandes cidades em busca de melhores dias de vida.terça-feira, 11 de novembro de 2008
A Bondade sertaneja (VIII)
Que tipo de Bondade praticou o Sr. Batista?
Visto anteriormente o que seja a Bondade, é fácil agora verificar até que ponto o Sr. Batista a praticou, em que grau ele estava quando fez alguma ação ou teve tal ou qual modo de vida. Basta ler o relato de sua vida, suas virtudes e auscultar, embora de longe, seu coração.
Parece-nos que ele tinha uma bondade natural bem marcante, muitas vezes aprimorada pelas graças de Deus. Esta bondade ele a exerceu durante toda sua vida e foi a nota predominante de seu procedimento. Não chegou, no entanto, a atingir graus heróicos. Mas, por pouco que tenha crescido nela, serve-nos de exemplo, de padrão de comportamento, a fim de que nós, seus sucessores ainda vivos, possamos um dia atingir graus cada vez maiores de perfeição.
Seu espírito, seu modo de ser, parecia-se muito com seu pai que “muito humilde, falava pouco e não gostava de discutir”, segundo ele mesmo relata. O Sr. Batista tinha também uma grande admiração por seus pais, afirmando que os dois viviam numa união “perfeita”, pois nunca ouvira discutirem: sua mãe cuidava dos filhos e da casa, ensinava as crianças a rezar, etc, enquanto seu pai cuidava de trabalhar para sustentar a família.
Da mesma forma viveu ele com sua esposa, D. Raimunda. Conta que, já no início do casamento, em 1941, teve que largar toda uma plantação feita numa vazante para ir ver sua esposa que, se encontrando adoentada na casa de seus pais, não podia voltar para onde estava o esposo. Só lhe restou colher o que pôde e o resto deixar para a água cobrir. Quer dizer, o importante era ver como se encontrava sua esposa e lhe dar assistência necessária, a vazante que ficasse e se perdesse pois Deus lhe daria tantas fosse necessárias para continuar trabalhando. De fato, logo as chuvas voltaram e ele teve condições de realizar outras plantações, desta feita junto com sua esposa e filhos.
A busca do conhecimento
“Quem conhece mais ama, e quem mais ama mais recebe” (Santa Catarina de Sena).
Para muitos daqueles que nasceram nos sertões pobres de nosso Nordeste, basta-lhes a vida pequena, miúda e sem progressos em que jazem. Para que se aperfeiçoar em alguma coisa? Para que estudar e ter algum conhecimento? Basta ser o que se era desde o nascimento: pobre, analfabeto, a serviço dos outros e sem maior desenvolvimento pessoal. Esta mentalidade parece ser um pouco contrária à do jovem rico citado no Evangelho, mas não, ela revela uma acomodação com a vida que se leva e sem desejar progressos, e, desta forma, é a mesma mentalidade. Para o Sr. Batista, não lhe satisfazia esta maneira de ver a vida. Era necessário progredir, procurar algo de melhor, crescer em tudo para assim conseguir servir melhor e se tornar mais perfeito. Nascido pobre, procurava uma forma de trabalho que minorasse sua situação; tentando melhorar esta situação, um dos caminhos que buscou logo de imediato foi o estudo.
Sim, o estudo. Com dificuldade, somente aos treze anos de idade, após a morte de sua mãe, começou a ter suas primeiras lições. Por sua conta procurou um professor, chamado Zeca Laurindo, compadre de seu pai, tomando dele as primeiras aulas de ler, escrever e contar. Como seu pai não podia e nem tinha muito interesse nos estudos dos filhos, procurou o Sr. Batista recursos com que pagar as aulas, que eram particulares. Empreitou com um vizinho encoivarar um roçado por sete mil réis, cinco dos quais para pagar suas aulas.
No entanto, durou pouco suas pretensões de estudo. Como não conseguira mais dinheiro, teve que deixar as aulas um mês depois, tendo neste pouco tempo aprendido a ler, escrever e um as quatro operações matemáticas. Continuou então a estudar com seu pai, que sabia muito pouco, mas que não lhe dava sossego pedindo para ensinar.
Persistente, conseguiu no ano seguinte mais um mês de aula com o mesmo professor. Desta vez sua intelectualidade avançou, leu livros até do quarto ano primário e aprendeu além das quatro operações também problemas de juros, pesos e medidas e regra de três simples. Tinha algumas noções de história e geografia, embora continuasse atrasado em português. Sua persistência pelos estudos fez com que conseguisse no outro ano mais alguns dias de aula com uma professora em Mossoró.
Estes estudos básicos foram suficientes para tentar ampliar sua cultura, seu conhecimento. Era preciso ler, mas ler o quê? Jornal não aparecia pelo sertão, e os livros eram muito raros e difíceis. Mas o que enxameava mesmo nas feiras, a literatura vasta e prolífera era dos livretos de cordel. Estes os havia em grande quantidade, e como o Sr. Batista gostava deles! Esta poesia simples, cabocla, primária e tida como tacanha, era a riqueza literária do sertanejo: nela ele encontrava ensinamentos diversos, conhecimentos variados, desde a cultura clássica até ao conhecimento de nossa história e dos personagens políticos do País.
Lendo livros de cordel, o Sr. Batista conseguiu intelectualizar-se da melhor forma possível e assim ampliar seus horizontes, saber de algo distante de onde morava, nomes das capitais, situações dos povos dos outros lugares, etc. E lia com tanto gosto aqueles livretos que, já velho, recordava para seus filhos, netos e bisnetos, aquelas poesias que lhe enchiam de satisfação em seus tempos de mocidade. Sua memória nunca lhe traía e conseguiu decorar grande parte das historietas e das poesias de seu tempo. Lembrava com saudades das histórias de um personagem chamado “Cancão de Fogo”(*) , celebrizado pela literatura de cordel.
Um exemplo que bem mostra a riqueza intelectual dos fazedores de versos do sertão é uma poesia que o Sr. Batista sempre repetia quando maduro, de autor desconhecido, que aprendera em sua juventude:
Eu vi um sagüi de espora
Macaco de realejo
Guariba tocar solfejo
Eu vi nos braços da Aurora:
Eu vi uma caipora
Despenseira de um navio
Sapo cantar desafio
Morcego vender fazenda
Catita fazendo renda
O sol tremendo com frio!
O mote é: Eu vi nos braços da Aurora o sol tremendo com frio! Tudo faz crer que o autor da poesia se baseou em nada menos do que no famoso Bocage, que tem uma poesia com o mesmo mote e reza assim:
Se isto vai de foz em fora,
Também com luz diamantina
Vir raiando a matutina
Eu vi nos braços da Aurora:
Só me resta ver agora
O caranguejo de um rio,
Ver os efeitos do cio,
Cantar modas um macaco,
A lua tomar tabaco,
O sol tremendo com frio!
O Sr. Batista, como bom sertanejo, gostava muito de ditados, especialmente dos ditados nordestinos. A imaginação nordestina é muito rica em sentenças, geralmente bem apropriada para cada caso. Eis alguns exemplos: “a gente nasce nu e não se enterra de chapéu”, “boi sonso é que arromba curral”, brincadeira de homem, cheira a defunto”, “nem o veado perde a vida, nem a onça morre de fome”, “pé de galinha não mata pinto”, etc. Copiou ele certa vez todos aqueles que sempre repetia e que sabia de cor:
Quem trabalha Deus ajuda
Farinha pouca, meu pirão primeiro
Quem não tem bons dentes não quebra nozes
Melhor só que mal acompanhado
Quem se vexa, come cru
Quem espera sempre alcança
Quem muito escolhe no pior se apega
Quem quebra galho é macaco gordo
Se faz de santo para melhor passar
Quem economiza tem
Quem guarda tostão junta milhão
Quem guarda com fome o gato come
Quem quiser ser grande nasça viçoso
Quem é bom já nasce feito
Quem tem fé não morre pagão
O galo canta onde aí janta
Quem olha a casa do vizinho se esquece da sua
Quem novo não morre de velho não escapa
Quem não pode com o pote não pega na rodilha
Não pede esmola porque não tem um saco...
Quem corre cansa, quem anda alcança
Quem muito quer muito perde
Quem planta vento colhe tempestade
Quem tem rabo de palha não brinca com fogo
Dois bicudos não se beijam
Quem fala a verdade merece ser perdoado
Quem não tem padrinho morre pagão
Quem se faz de mel as abelhas vêm e comem
Quem dar o que tem a pedir vem
Entre espinhos nascem flores
Cobra que não anda não engole sapo
Nas brincadeiras, o Sr. Batista era mestre. Mas eram sempre brincadeiras de bom espírito e sem maldades. Parodiava estes ditados, em tom de brincadeira, dizendo:
Os últimos serão... os reprovados
Quem ri por último é... retardado
Quem com ferro fere... ganha a briga
Quem dá aos pobres, empresta... adeus
Depois da tempestade... vem o prejuízo
Em terra de cego, quem tem um olho... é caolho
Com sua aposentadoria, o Sr. Batista dispôs de mais tempo para compor poesias, quase todas elas inseridas nesta obra. Quando o “muro da vergonha” em Berlim caiu, no ano de 1989, mandou ele a seguinte estrofe para um filho:
Conforme alguns analistas,
Que fazem estudo profundo,
Desmorona em todo mundo
O regime comunista:
E como já estava previsto
Na história mundial,
E como doutrina do Mal
Que nenhum cristão queria,
E como já tudo previa
Está chegando ao final.
Iniciava-se o ano de 1995, poucos dias faltavam para seu falecimento. Em seu leito de dor, recebia em casa os familiares distantes que o visitavam. Dia 03 de janeiro, ele chama sua neta, Carla, e dita para ela os seguintes versos que havia escrito numa folha de um caderno em sua homenagem já há algum tempo:
Minha netinha formosa
Ventura dos dias meus
És linda como uma rosa
Do belo jardim dos céus
O brilho do teu olhar
Tem tanto, tanto carinho
E o teu doce falar
É o canto do passarinho
Este riso que me prende
Tem meiguice, tem candor
Ai! Como teu riso acende
Na face belo rubor
Como o teu riso alerta
Um calor no peito meu
Como minh’alma desperta
Do corpo que já morreu
Como é bom ouvir segredos
Te afagando como desvelo
Deixar correr os meus dedos
No ouro dos teus cabelos
Tu és um anjo, querida
Um anjo banhado em luz
Que brilha na minha vida
E me suaviza a cruz
Quando fechar os meus olhos
Pra nunca mais ver os teus
Me guie por entre abrolhos
Até pertinho de Deus
Junto ao trono do Senhor
Te lembrarei com saudade
E rezarei com amor
Por tua felicidade!
Um de seus filhos acredita que esta poesia não é de autoria do Sr. Batista, tal o grau de perfeição que há nela. Não discordamos que ele possa tê-la lido alhures e decorado, mas o fato é que com sua letra a copiou em seu caderno e assim a ofereceu à sua neta. Poucos dias antes (12.11.94) mandara a seguinte poesia para um filho em homenagem a um neto prestas a nascer: Esta, indiscutivelmente, de sua autoria:
“Historinha de Kaio Lincoln quando nasceu”
Longos meses eu passei
Num apartamento sozinho
Não chorei, nem falei
Num cantinho, quetinho
Tudo era silêncio
Como se pode imaginar
Não tinha nenhuma convivência
Naquela sala de estar
Em tudo Deus impõe
Durante o dia a dia
No seio me guardava mamãe
Mas seu rosto eu não conhecia
Eu era bem cuidado
Com amor e com carinho
Nada me faltava
Naquele bendito ninho
Afinal chegou a hora
De uma feliz noitjnha
De conhecer agora
O papai e a mãezinha
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(*) Canção de Fogo era um menino conhecido por suas travessuras e esperteza. Um dia, ao sair em busca de dinheiro para comprar comida à sua mãe, consegue-o depois de enganar um velho que se dirige a um quartel pensando ser um hotel. A mãe recebe a comida, mas pragueja o caráter do filho, que parte. Longe, ele é perseguido pelo tio que se compactua com o velho enganado, para que este o traga preso com precatória assinada pelo delegado. A perseguição é vã diante da astúcia de Canção. As travessuras então se multiplicam quando ele conhece e acolhe o menino Alfredo que, triste e desamparado, passa a acompanhá-lo e auxiliá-lo nas trapaças. Esquivando-se constantemente da polícia, os dois simulam deficiências física e visual e, com a rica bengala de um delegado e, um atestado e uma coroa cedidos por um pastor também enganado, passam a ganhar dinheiro às custas de boas esmolas. Durante sua trajetória, Cancão nunca deixa de enviar dinheiro à mãe.quinta-feira, 30 de outubro de 2008
Ditados nordestinos
- Paga o justo pelo pecador;
- Quem guarda tostão junta milhão;
- Quem é bom já nasce feito;
- Seguro morreu de velho;
- Quem tem fé não morre pagão;
- Sofrer como couro de pisar tabaco;
- Beleza não põe mesa;
- O galo canta onde aí janta;
- Quem olha a casa do vizinho se esquece da sua;
- Água mole em pedra dura tanto bate até que fura;
- Quem cochicha o rabo espicha;
- Costume de casa vai à praça;
- Quem faz o mal para si é;
- Quem trabalha Deus ajuda;
- Quem não tem bons dentes não quebra nozes;
- Melhor só do que mal acompanhado;
- Quem se vexa come cru;
- Depois da tempestade vem a bonança;
- Quem muito escolhe no pior se apega;
- Antes tarde do que nunca;
- Quem quebra galho é macaco gordo;
- Quem economiza tem;
- Quem tem rabo de palha não brinca com fogo;
- Dois bicudos não se beijam;
- Quem fala a verdade merece ser perdoado;
- Quem corre cansa, quem anda sempre alcança;
- Quem não tem padrinho morre pagão;
- Quem se faz de mel as abelhas vêm e comem;
- Quem dá o que tem a pedir vem;
- Gato escaldado tem medo de água fria;
- A Esperança é a última que morre (ou a única que não morre...);
- Quem novo não morre de velho não escapa;
- Quem não pode com o pote não pega na rodilha;
- Não pede esmola porque não tem um saco;
- Quem ama perdoa;
- Quem não arrisca nem perde nem ganha;
- Quem muito quer muito perde;
- O que ri por último, ri melhor;
- Quem planta ventos colhe tempestades;
- Desta mata não sai coelho;
- Guarda o que não precisa para ter o que carece;
- Cada um só dá o que possui;
- Esmola grande até cego desconfia;
- Cochilou o cachimbo cai;
- A galinha do meu vizinho é mais gorda do que a minha;
- Quem dá aos pobres empresta a Deus;
- Quem tem pena de angu não engorda cachorro;
- Quem não tem cão caça com gato*;
- Devagar se vai ao longe;
- Mais vale quem Deus ajuda do que quem cedo madruga;
- Melhor amigo na praça do que dinheiro no bolso;
- Faz o bem sem olhar a quem;
- Em terra de cegos quem tem um olho é rei**;
- Melhor fanhoso do que sem nariz;
- Macaco velho não mete a mão em cumbuca;
- Em terra de sapos, de cócoras com eles;
- Entre espinhos nasce flores;
- Quem tem boca vai a Roma;
Observações:
* - O certo seria "Quem não tem cão caça como o gato", isto é, agachado, silencioso, com cautela e espertamente a fim de não perder a presa; pois não há a mínima possibilidade de se caçar com o gato, mas sim como ele.
** - Esta expressão não é nordestina e teria sido cunhada por Erasmo de Roterdã criticando Camões, cuja fama poética ainda não havia corrido o mundo. Luís de Camões era cego de um olho, e com esta crítica o orgulhoso Erasmo menospreza toda a nação portuguesa, considerada por ele um reino só de cegos.
quinta-feira, 23 de outubro de 2008
A verdadeira ecologia: a variedade na desigualdade da Natureza
segunda-feira, 29 de setembro de 2008
Quem pode ler o nosso futuro?

Manhã de sábado, bodega cheia. Balcão lotado de fregueses. Alguns iniciando a maratona de final de semana com um copo na mão.
- Seu Batista, meio quilo de açúcar.
- Seu Batista!
- Netinho, meu filho, me atenda. Deixei o café no fogo...
E por aí afora. Pequena multidão de fregueses (mais de três é multidão). Uns sossegados, outros apressados. Crianças, homens, mulheres. Entre elas, uma se destacava. Espremida no meio do povo, autêntico armarinho de tecidos multicores, rosto oval e branco, cabelos avermelhados, bijuterias, berloques, e um sorriso cheio de dentes dourados. Contorcia-se a cigana e se esmerava na faina de decifrar as tortas linhas das mãos da freguesia.
Após ganhar alguns trocados, a cigana dirigiu-se a seu Batista. Pediu-lhe a mão para ler. Deu-lhe este pouca atenção, ocupado que estava no atendimento à clientela. Mas, para não desagradá-la, estendeu-lhe uma das mãos; com a outra administrava o troco para um freguês.
- O senhor é homem forte. Tem filhos sadios e bonitos. Tem muitos filhos. E tem uma filha. Suas linhas me dizem que o senhor vai ficar rico. Esta curva mostra um grande desgosto por que o senhor passou na vida...
A cigana passou a desfiar uma ladainha rica de generalidades e alguns detalhes de fatos da vida de seu Batista.
Por alguns minutos só se ouviam as palavras da mulher. Todos ficaram atentos. Afinal, muita coisa que ela dizia fazia sentido. Idade dos filhos, sexo, doenças, casas, ruas, endereços, etc
Seu Batista, agora quieto, ouvia. Seu rosto enigmático não lhe revelava dúvida, deboche ou crença.
- O senhor vai ter vida longa. Um de seus filhos vai ser doutor e vai lhe dar muitos netos...
Terminado o discurso da mulher, voltou-se seu Batista naturalmente para o atendimento dos fregueses. A bodega mais vazia, alguns não haviam esperado. Um pouco aborrecido com a cigana, mas sem demonstrar, entregou-se às suas atividades. Esqueceu-a.
- Tá pensando que sou trouxa? Vai me deixar esperando aqui?
- ?
- Tá achando que sou burra ou quenga? Sou cigana e de família nobre. Meu pai...
E seu Batista resolvera não lhe dar mais atenção. Tinha o que fazer. As conversas reiniciaram-se. Estava mais quente. O sol se adiantara. O asfalto, amolecido pelo calor, ardia em brasa.
A cigana perdeu a paciência. Encheu o peito (os dois), avançou com seus penduricalhos sobre o balcão, e desafiou:
- O senhor não vai me pagar?
Silêncio.
- Pagar o quê? - retruca seu Batista, entre zombeteiro e curioso.
A mulher empertigou-se, torceu a boca e, rangendo os dentes irregulares e dourados, retrucou:
- E eu não li a sua mão? E eu não acertei tudo? E por acaso eu errei alguma coisa sobre o senhor? Pois fique sabendo que sempre acerto!
Conhecido por seu ceticismo no que toca a astros, espíritos, profetas, bruxos, seu Batista não perdeu a fleuma.
- Errou nada.
- E então?
- Então o passado eu já sabia. O presente não é segredo pra ninguém, pois minha vida é um livro aberto...
A cigana não se deu por vencida.
- E o futuro? Eu lhe dei toda a sua vida sem mistérios pela frente. Suas mãos me disseram o futuro, seu e de sua família.
- É. Mas no futuro eu não acredito. Portanto, nada lhe devo.
terça-feira, 16 de setembro de 2008
Minha religiosidade
“Continuando os depoimentos de mamãe sobre o seu passado, vejamos o que ela diz sobre sua religiosidade, ainda hoje uma nota forte e predominante de sua personalidade:"Toda a nossa religiosidade foi herdada, creio eu, de meu pai. Ele tinha uma boa formação católica, lia bons livros de religião, costumava levar os filhos (até à mais longa distância), sempre a pé, para assistir missas, especialmente quando morávamos no sertão. Certo dia apareceu por lá um santarrão, um homem tido por “santo” por algumas pessoas. Meu pai foi lá conferir se o sujeito era santo mesmo. Por inspiração ou discernimento dos espíritos disse que aquele homem não tinha nada de santo. Chegou até a discutir com o santarrão, o qual terminou por lhe rogar uma praga. Muito católico e confiante na proteção divina, meu pai não teve nenhum medo da praga. Poucos dias depois o referido santarrão se mostrou quem era ao bulir com uma jovem do lugar e ter que sair dali ás pressas. Meu pai também era anticomunista convicto. Quando soube que a badalada “coluna Prestes”, um grupo de comunistas que andava pelas matas, andava pelo sertão e diziam que passaria por onde morávamos, mandou fazer uma grande faixa e colocou-a na entrada do nosso lugarejo; estava escrito nela “abaixo o bolchevismo!” Ele não tinha armas e nem com que enfrentar os comunistas, mas queria deixar patente que não eram bem-vindos.
Quando chegamos em Fortaleza, tinha que ir assistir à Missa numa igreja que ficava longe, ao lado de um hospital psiquiátrico, a qual nós chamávamos “Igreja do Asilo” . Havia também, dentro do hospital, uma capela chamada de “Santa Porciúncula”. Tendo aprendido com meu pai a nunca perder uma missa, e preocupada em não chegar atrasada, sempre saía de casa cedo, de madrugada, e estava na igreja muito tempo antes da missa. Certo dia chegamos lá tão cedo que a igreja ainda estava fechada. Estava com as crianças, que levava comigo para aprenderem o bom caminho. Bati na porta e me atendeu um padre dizendo que ainda era muito cedo e que a missa só começaria dali a tantas horas. Mesmo assim, insisti com ele para que deixasse entrar com as crianças e esperasse lá dentro a hora da missa. Disse ele então que fosse para a capela de Santa Porciúncula, pois lá teria a companhia das freiras. E assim fiz e lá fiquei com as crianças até á hora da missa, isto é, quatro ou cinco horas da manhã (não me lembro bem).
Meu pai também nunca perdeu uma missa de domingo, e até assistia a tantas missas quanto podia no decorrer da semana. Certa feita, quando já morava em Fortaleza, trabalhava como guarda noturno e resolveu deixar o posto de trabalho para assistir uma missa, já amanhecendo o dia. Chegou o patrão e, não o encontrando no seu posto, despediu-o do emprego. Ele nem tentou se justificar ou inventar alguma desculpa esfarrapada, foi sincero e disse simplesmente para o patrão que estava na igreja assistindo a missa. Mesmo tendo perdido o emprego não se arrependeu do que fez, pois, segundo ele, tinha comungado e cumprido uma propósito de fidelidade a Deus”.
sábado, 6 de setembro de 2008
Alguns “fatinhos” do passado
Eis algumas narrações que a mamãe fez de suas lembranças do passado:
Lembranças da infância
“Meu avô se chamava João Josino e era originário de Tibau, no Rio Grande do Norte. Dizia ele que a sua família, a Josino, era descendente da Holanda. Certo dia, quando eu estava com uns 3 anos de idade (se não me engano), meu pai levou a família e fomos morar em Areia Branca, próximo de Tibau. Minhas irmãs mais velhas (do primeiro casamento de mamãe) foram para a praia e me deixaram em casa com a mamãe. Então eu chorei tanto para ir também com elas pra praia que adormeci (consolada pela mamãe) e quando acordei estava toda dormente de tanta raiva. Demoramos pouco tempo em Areia Branca, logo voltamos para nossa casa em Portalegre. Mas lá em Portalegre a família terminou por se separar. Um dia meu pai bateu em Maria, que era muito geniosa, cansando revolta nos outros filhos, principalmente nas minhas irmãs mais velhas. Foi tanta a confusão causada que isto nos fez separar – minhas irmãs mais velhas (que não eram filhas do papai) foram morar separadas, pois não aceitavam o rigor com que papai as tratava”.
O gavião
“Quando éramos ainda recém casados, sem filhos, mas morando em nossa casa, certo dia veio um gavião e desceu sobre os pintos para pegá-los, mas no momento exato errou o bote, bateu em alguma coisa e ficou ferido no chão. O Francisco foi tentar enxotar a ave, mas eu briguei com ele, com pena do animal, dizendo que não lhe fizesse mal e o deixasse livre. Porém, repentinamente, o gavião atacou o Francisco e lhe feriu no rosto. Vendo-o com o rosto sangrando não contei conversa: peguei um pau e parti para cima do bicho com raiva. Aí o Francisco voltou-se para mim e disse: Eis uma prova de que realmente você gosta de mim!
O ganha-pão
“Antes mesmo de casar-se eu já sabia fazer trabalhos domésticos, fazia renda de bilro, costurava e fazia renda de rendes com a mamãe. Isto me dava alguma renda para ajudar nas despesas de casa. Quanto ao Francisco, ele já havia também se acostumado desde jovem a trabalhar para sustentar seus irmãos mais novos. Ficou órfão muito novo, aos 12 e 16 anos de idade (primeiro da mãe e depois do pai), e desde então trabalhava para sustentar a família, composta pelas suas irmãs, o irmão e a madrasta. Suas irmãs se chamavam Antonia, Anália, Salomé e Rita, e tinha também em sua companhia um irmão caçula chamado Hermes. O Francisco trabalhava no roça plantando milho, feijão e mandioca. Mas também criava animais, como carneiros e porcos, para engordar e vender na feira. Às vezes tinha que matar uma criação ou um porco para ir vender a carne na feira e assim conseguir dinheiro para suprir as necessidades da família.
Minhas cunhadas eram de personalidades fortes, mas diferentes. A Anália era preguiçosa e arrogante, queria mandar em tudo e vivia sempre me pirraçando. Antonia, a mais velha, tinha um pouco de tudo isto mas em grau menor. Era mais compreensiva, mas também não trabalhava para ajudar o irmão. A Rita também não ajudava em nada. Quanto à Salomé, já vivia com seu marido e pouco sei dela.
Já o irmão menor do Francisco, o Hermes, desde cedo revelou-se irresponsável, era jogador e se aproveitava da bondade do irmão que o sustentava. Os outros dois irmãos, Pedro Doca, eram casados e viviam com suas famílias em lugares distantes.
O “regenerado”“Quando chegamos em Fortaleza, conheci um casal que foi pra mim um verdadeiro exemplo de concórdia e de fidelidade conjugal. No início do casamento o marido passou a agir com muita grosseria e rudeza para com a esposa. Esta, porém, suportava tudo calada, sem nada reclamar. Os dias foram se passando e aquele homem sempre a tratar mal a sua esposa e sem que esta nada replicasse, suportando tudo com resignação cristã. Certo dia o homem tratou mal à sua esposa como era costume, e, vendo-a resignada sem nada lhe replicar, parou um instante, ficou olhando admirado para ela e, pasmado, disse para a esposa: “Meu Deus, eu não mereço uma esposa tão boa. Sendo assim, a partir de hoje vou mudar de vida e vou tratá-la diferente, com carinho e amor”. Realmente, a partir daquele dia o marido mudou completamente de comportamento e durante muitos anos que os conheci viveram em santa harmonia.
Os filhos que deram mais trabalho com doenças
“Logo quando chegamos em Fortaleza, os filhos que deram mais trabalho com doenças foram o Juraci e o Jurandir. Apesar de ser muito robusto, o Jurandir foi acometido por um ataque repentino de uma estranha doença que lhe tapava a garganta, sufocando-o. Sua vida foi salva graças a meu cunhado, o José, esposo de minha irmã Antonia. Estando ele na nossa casa, ao ver a criança disse ao Francisco que aquilo era crupe e que o levasse com urgência ao médico, pois era doença que mata em 24 horas. Francisco ficou agoniado, foi até um vizinho, pediu ajuda e o mesmo nos levou em seu carro a procura de médico. Este já era conhecido do Francisco, o qual lhe telefonou antes perguntando se poderia atendê-lo em virtude do adiantado da hora, pois já era noite. O médico foi muito gentil e disse que levasse a criança até sua casa, deu o endereço e ficou aguardando. E lá fomos, eu, o Francisco, o Jurandir e o vizinho. Quando a consulta terminou já era quase uma hora da madrugada. O Francisco não tinha dinheiro e o médico, muito caridoso e amigo, emprestou-o para que fosse comprar o remédio com urgência em alguma farmácia de plantão. E aí fomos no mesmo carro a procura de alguma farmácia, até que a encontramos aberta e compramos o remédio. Na farmácia foi aplicada uma injeção passada pelo médico, enquanto o outro remédio levamos para continuar medicando-o em casa. Quando chegamos em casa foi que vimos que a coisa era realmente muito feia. Antes do e feito da injeção a criança estava sendo sufocada mas ainda um pouco quieta. Agora, porém, o menino ficava o tempo estrebuchando, pulando (tinha quase dois anos) e impaciente com os ataques da doença. Aí nos revezamos a noite inteira: eu ficava com o menino nos braços um tempo, e quando cansava passava para o Francisco. De 3 em 3 horas a gente dava o outro remédio. Até amanhecer o dia... Os acessos foram diminuindo, diminuindo, até parar completamente.
“O Juraci também foi atacado por estranha doença que até hoje não sei o que foi. O menino estava bonzinho e, de repente, arriou das pernas e não conseguia mais andar. Eu e o Francisco ficamos aflitos pois ele já tinha 3 anos de idade e andava normalmente até aquele momento. Até hoje não sei que doença foi aquela; só sei que o levamos ao médico, demos o remédio e ele ficou curado.
domingo, 31 de agosto de 2008
O ciúme dos parentes
Mamãe sempre demonstrou ter muito ciúme de suas cunhadas, as irmãs do papai: Anália, Antonia, Salomé e Rita. O pior caso ocorria com Anália, a mais nova de todas. Logo após o casamento, papai e mamãe foram morar com suas irmãs, em sua própria casa, com os quais havia apenas um irmão (tio Hermes), o caçula de todos. Como eram órfãos de pai e mãe, e os dois irmãos mais velhos (Pedro e Raimundo, este com o apelido de “Doca”) sendo já casados e morando com suas esposas, o jeito foi acomodar o novo casal naquela casa, pois papai era como que um arrimo que sustentava suas irmãs e o irmão mais novo. O primeiro desentendimento da mamãe com suas cunhadas foi quando ela foi atacada por uma rês (tendo escapado da mesma subindo numa cerca) enquanto suas cunhadas riam dela, mesmo sabendo que estava grávida. Chegando à casa foi queixar-se de papai, mas este ralhou com ela por ter medo de uma rês mansa. Talvez nem tanto por causa do susto dado pela rês, mas por causa de papai haver ralhado com ela, poucos dias depois sofreu um aborto de seu primeiro filho. Papai ficou muito arrependido por ter ralhado com ela e viu-se culpado por ter motivado aquele aborto espontâneo, embora talvez não fosse essa a razão. Alguns dias depois e a coisa ficou feia, surgiu um grande atrito entre mamãe e a cunhada Anália. Segundo mamãe, as irmãs dele nada faziam para ajudá-lo nas despesas da casa, só mamãe é que trabalhava e tentava ganhar algum dinheiro com costuras e rendas. Trabalhava fazendo rendas de bilro (que havia aprendido com a mãe dela), bordados e rendas de rede de dormir. Um dia ela discutiu com a cunhada, Anália, e ameaçou-a, no calor da discussão, botar pra fora da casa. Mas tia Anália a desafiou, dizendo que estava na casa dela e de seu irmão, que era quem mandava ali. Mamãe não agüentou e pediu que ela saísse. Quando papai chegou à casa, vindo do trabalho, Anália foi a primeira a lhe fazer queixa, dizendo que daquela casa não sairia, pois era sua casa. Papai, calado como sempre foi, nada respondeu, mas alguns instantes depois chamou mamãe para acompanhá-lo até à roça (onde trabalhava), onde poderiam conversar a sós. Chegando lá, disse à mamãe que ela tinha de tolerar a irmã dele morando junto com eles, para o bem da união da família. Mesmo ouvindo seus argumentos, mamãe não concordou e exigiu dele que desse um jeito de tirar as irmãs dali, especialmente a Anália. Perante esta recusa, papai foi duro com ela e disse que se não quisesse morar com as irmãs dele, ele mesmo a largaria e o casamento estaria acabado. Aquela exigência e aquelas palavras foram muito duras para ela, que o amava muito e não queria nunca que houvesse uma separação. Ficou um instante pensativa e disse que aceitaria ficar com as irmãs dele, mas com o único objetivo de evitar uma separação assim tão cedo...
Mas, de nada adiantou os propósitos de mamãe. Logo, logo, as desavenças surgiam. O convívio ficou insuportável. Papai, então, tomou uma resolução sensata: resolveu sair de casa com mamãe e ir morar em outra casa. Embora morando noutra casa, ficou porém dando completa assistência às irmãs e ao irmão. Resolveu assim diplomaticamente salvar seu casamento, embora isto lhe custasse muito.
sábado, 23 de agosto de 2008
Exemplo de concórdia entre casados
Contou também ela que a vovó Bárbara faleceu em abril de 1952, de ataque cardíaco, e o vovô Francisco em junho de 1971, e câncer no pâncreas. Os dados fornecidos por ela podem não conferir com exatidão pois foram obtidos de sua memória.
Exemplo de concórdia entre casados
Mamãe conta que, ao chegar a Fortaleza, dedicou-se à arte de corte e costura a fim de ajudar papai na despesa da casa. Embora não fosse uma costureira ou modista tão competente, conseguia vez por outra uma encomenda. Certo dia, uma freguesa pediu-lhe que fizesse um vestido, mas usando o tecido de tal forma que as figuras nele desenhadas ficassem sempre de cabeça pra cima. Na hora de confeccionar a parte da frente do vestido, porém, ela erra e coloca as figuras de forma diferente daquela que sua freguesa havia pedido. Constrangida, disse ao papai que tinha de comprar outro pano e fazer o vestido novamente da forma que a cliente queria. Mas, em resposta, ele lhe falou secamente que não fosse comprar o pano. Ela nada respondeu, mas, caladinha, foi ao comércio e comprou o pano. Chegando em casa foi logo confeccionar o vestido da forma correta. Mal terminou de concluir o seu trabalho e teve uma ingrata surpresa: papai apareceu na frente dela e, de repente, pegou o vestido, riscou um fósforo e pôs fogo nele. Isto sem dizer uma só palavra. Ela também sem dizer palavra pôs-se a chorar, olhando com tristeza o fruto de seu trabalho sendo consumido pelo fogo. Papai saiu dali calado, mas não demonstrou no momento estar arrependido do que fez. Não demorou muito, porém, e logo se manifestou nele sua bondade. Dentro de alguns instantes, chegava da rua com o tecido que agora tinha ido comprar, entregou-o a ela sem dizer uma palavra e o assunto foi assim encerrado
