domingo, 5 de abril de 2026

MARTIM SOARES MORENO, HERÓI DE NOSSA PÁTRIA





O "herói" fundador do Ceará não estava para brincadeira.

Figura quase lendária, imortalizada como o guerreiro branco do romance Iracema, de José de Alencar, o capitão-mor, de origem portuguesa, Martim Soares Moreno, teve uma vida real bem diferente, digna de um filme de aventura.

Em 1612, Soares Moreno fundou o Forte de São Sebastião na Barra do Ceará, no lado direito do estuário do rio. Por ordens da Corte, tomou para si a tarefa de enfrentar as investidas de outros povos europeus, especialmente piratas franceses, na região. Sobre essa experiência, deixou um longo e precioso documento: a Relação do Siará. "No ano de 1611 cheguei ao Siará com seis homens em minha companhia e um clérigo, onde fui muito bem recebido. Ali, no dito ano, degolei mais de duzentos franceses e flamengos piratas e lhes tomei três embarcações. Para fazer esses assaltos me despia e me rapava a barba, tingindo-me de negro [atacando] com um arco e flechas".

Martim Soares Moreno se ausentou do Ceará em 1613, quando seguiu em direção ao Maranhão com o objetivo de abrir caminho para a missão do mameluco Jerônimo de Albuquerque, encarregado de expulsar os franceses que haviam se fixado em Saint Louis, a atual São Luís. Após escaramuças com os gauleses, sua embarcação foi envolvida por fortes ventos e Soares Moreno foi parar na Ilha espanhola de São Domingos, hoje Haiti. Seguiu-se então uma série de episódios, que incluíram um ataque de um navio francês à embarcação que o levava de volta à Europa. Na luta, recebeu 23 ferimentos, levou uma cutilada no rosto e teve uma mão decepada. Preso, foi condenado na França à pena capital pelas mortes que cometera no Ceará e no Maranhão. Solto dez meses depois, gastara todo dinheiro que tinha com apelações e pedidos de revisão da sentença. Em 1619, atendendo-lhe os apelos, o rei Dom Felipe II concedeu-lhe a carta-patente de capitão-mor da Capitania do Siará, para onde retornou em 1621, fazendo planos de colonização efetiva da região. Para continuar defendendo os domínios que lhe couberam, solicitou soldados, pólvora e artilharia à Corte. "Os índios naturais são muito mal acostumados e intentam cada dia mil traições", justificou em mensagem ao rei.

Dez anos depois, em 1631, findo o mandato estabelecido pela carta-patente, Soares Moreno partiu para o Arraial de Bom Jesus, em Pernambuco, para combater os holandeses que dominavam Recife. Trouxe do Ceará um destacamento com centenas de soldados índios para combater os holandeses. Em 1648, já velho, ele voltou à sua cidade natal, Santiago do Cacém, depois de 45 anos de serviço militar, pobre e sem deixar filhos conhecidos no Brasil. Ficou na história como o primeiro povoador e fundador do Ceará e, na ficção, como o amante e companheiro da virgem dos lábios de mel.


Fonte: História urbana e imobiliária de Fortaleza (Lira Neto/Claudia Albuquerque)

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