domingo, 10 de fevereiro de 2008

Imagem do Imaculado Coração de Maria


A Imagem do Imaculado Coração de Maria foi venerada com devoção no lar dos cavalcante baianos graças aos Arautos do Evangelho

Minhas origens (II)

Nasci no dia 15 de novembro de 1911, no Sítio Jenipapeiro, município de Portalegre, Rio Grande do Norte. Com idade de um ano meu pai mudou-se para o Apodi, no mesmo Estado: fomos morar num lugar por nome Caroba, numa casinha de taipa e telha, num lugar ermo, onde só havia mato e pedra; depois nos mudamos para Passagem Limpa, que ficava vizinho. O meu pai era um pobre camponês, não possuía terras, era morador de uns parentes seus.
Da parte da minha mãe conheci minha bisavó, lembrança muito vaga, pois tinha de três para quatro anos quando a vi pela primeira e única vez: chamava-se Isabel, e em família “Zabelinha”. Possuía os cabelos branquinhos, era brincalhona: gostava de arremedar os bisnetos quando choravam. Mais tarde soube que sua família era Pereira e Nobre. Anos depois conheci seus irmãos Antônio Pereira e Vicente Pereira.
A minha avó tinha uma irmã que conheci também quando pequeno, tia Fulô, e um irmão, José Raimundo, que foi embora para o Pará e lá morreu. A minha avó casou-se com um rapaz dos Inhamuns, no Ceará, porém nunca conhecemos ninguém de sua família, chamava-se João de Barros, sendo por isto que minha avó era conhecida por Maria de Barros. Teve cinco filhos, três homens e duas mulheres, Os homens: Antônio de Barros, que não conheci, pois fugiu de casa com apenas dez anos e nunca mais tivemos notícias suas; Manoel de Barros, conhecido por Badel, casou-se, foi embora para Belém e também não mais voltou; o tio Vicente, que conviveu conosco muitos anos, amigo de minha mãe, tornou-se também muito meu amigo. As mulheres: minha mãe, seu nome Maria, ou “Mariquinha” em família, cor branca, estatura regular, gênio forte mas muito comunicativa, gostava de fazer amizades; tia Francisca, morena, alta, magra e bem ereta, muito tagarela e também com muita facilidade para fazer amizades. Ambas morreram de parto com menos de quarenta anos.
A minha avó fazia varanda para rede numa almofada, um ponto que chamava “puçá”, eram lindas as suas varandas; nos seus últimos anos de vida foi vontade sua dar de presente a cada um dos filhos um jogo de varandas; e deu mesmo, era uma lindeza de trabalho manual. Morreu aos sessenta e poucos anos.
Da parte de meu pai as lembranças são poucas: não conheci meu avô que chamava-se João Batista, da família Holanda, e minha avó Maria da Conceição, da família Alexandre.

Uma neta advogada


Sandra Taciana ao lado dos pais, Edy e Juraci, em sua formatura de direito em Salvador

Minhas origens (I)

Eis uma das modestas poesias do Sr. Batista falando de suas origens:

A nossa casa era modesta,
Feita de barro e madeira
As forquilhas que a sustentavam
Eram todas de aroeira,
E perto, num pequeno riacho,
Havia uma cachoeira.

A casa não era pequena
Mas era muito singela,
Por perto não havia igreja
Nem mesmo alguma capela,
Mas tinha da natureza a lembrança
Era o Serrote da Favela

A água ficava distante.
No Riacho do Foveiro,
Por lá, entre outras árvores,
Havia muitos juazeiros,
E havia uma curiosidade:
Era a pedra do letreiro.

Ali também se observava
O canto da juriti,
Os vôos da Asa Branca
E o piar do bem-te-vi.
Nós morávamos na encosta
Da caatinga do Apodi

A "boa vida" na Bahia


Juraci, o quarto filho vivo do casal Batista e Raimunda, foi morar na Bahia. E veja a "boa vida" dos baianos. Na foto, sua esposa Edy e seu filho caçula Gabriel.

REMINISCÊNCIAS

Nas páginas seguintes o leitor verá o depoimento sincero e o mais exato possível das lembranças que deixou por escrito o senhor Francisco Batista Cavalcante, já ao final de sua existência.
Os depoimentos foram tomados pelo filho Jurandir, ao longo de um ou dois anos, quando o nosso personagem já se avizinhava dos oitenta anos de idade, e principalmente na época das comemorações de suas Bodas de Ouro, em 1987.
Talvez algumas informações tivessem que ser corrigidas, como datas ou nomes involuntariamente errados. Entretanto, constatamos poucas falhas, o que mostra que ele possuía uma boa memória, lembrando de tantos fatos com detalhes tantos anos depois. Alguns aspectos que corrigimos nas “Notas” referem-se mais a algo que ele deixou de mencionar, talvez porque não lhe perguntaram, como por exemplo o nome de sua mãe e alguns dados sobre a família dela.
Antecedemos ao seu relato, na medida do possível, algumas poesias: seja aquelas que ele decorou quando ainda muito jovem ou então aquelas que ele mesmo compôs com sua fina verve poética. É fácil identificar uma e outra. Não nos interessa a opinião dos críticos nem dos sábios letrados para analisar o conteúdo deste relato. Interessa-nos, isto sim, a opinião das pessoas que sabem analisar e conhecer o coração humano, principalmente o de um cristão cheio de bondade e franca sinceridade, a fim de que possam assimilar os ensinamentos que o senhor Francisco Batista lhes possa trazer com o exemplo de sua vida e sua maneira de ser

Neta e bisneto


Bárbara, neta do Sr. Batista, não chegou a dar o seu prmeiro bisneto porque ele já estava na eternidade quando a criança nascem, mas Matheus foi um dos últimos bisnetos da família. Na foto, os dois juntamente com o avô de Bárbara, Sr. Alcino, no interior da Bahia.

Memórias de um (outro) Cavalcanti

Outro patriarca da família Cavalcanti (este é realmente com "i" no final) mereceu de Gilberto Freire a edição de um livro. Trata-se da obra “O Velho Félix e suas Memórias de um Cavalcanti”, publicada pela Livraria José Olympio Editora em 1959. Félix Cavalcanti viveu em Recife no século XIX, tendo presenciado várias agitações políticas de sua época, deixando-as quase todas registradas em um diário. Daí porque a importância sociológica da obra.
Félix Cavalcanti era monarquista, mas não se envolvia em política partidária. Para ele a monarquia simbolizava o equilíbrio, a ordem, a segurança e a estabilidade. No prefácio da referida obra, comenta Lourival Fontes: “A Monarquia continuava como o equilíbrio dos poderes, o respeito da lei e da justiça, o símbolo das causas e dos direitos humanos. Nela não há tiranos para exercer o despotismo nem eleições manipuladas com audácia e dinheiro. Porque era uma utopia, as perspectivas da República o apavoravam, as degenerações e balbúrdias o deprimiam, os atentados, violências e terrores o petrificavam”. (op. Cit. Pp. XXIII).
Os argumentos que Félix Cavalcanti usava contra a república eram muito fortes, perguntando: “quem nos garante que o Brasil se torne uma Suíça grande e não uma outra Venezuela?” ”O nascimento de um herdeiro ao trono é garantia contra a reprodução de freqüentes eleições para presidentes da república; eleições que não passam de comédias, e são às vezes calamidades”... “Num país constitucional, a ascensão de um herdeiro ao trono quase não importa; quem distribui justiça são os juízes; quem legisla são os representantes da nação; porque quem governa são os ministros; o soberano, porém, equilibra os vários poderes nas suas relações uns com os outros e assegura a continuidade e a perpetuidade desse equilíbrio político”. E noutra oportunidade: “Esta Utopia, que os tontos de Paris apregoam com o nome de república, há de ser sempre o que tem sido até hoje. Uma utopia: nada mais”.
Quando a Monarquia caiu, ele lamentou muito. É importante, a este respeito, o depoimento do próprio Gilberto Freire: “Posso, aliás, adiantar, nesta introdução às memórias de Félix Cavalcanti, que das autobiografias que já recolhi de brasileiros de várias profissões e de diversas regiões, homens e senhoras maiores de 50 anos, como respostas a um inquérito organizado para servir de lastro a trabalho próximo – Ordem e Progresso – sobre a paisagem social dos últimos anos da Monarquia e do começo da República no Brasil, grande número de pessoas, não revelando sebastianismo nenhum, nem desejo, mesmo vago, de restauração do Império, lamentam tanto quanto o velho Félix Cavalcanti a substituição da Monarquia pela República em 1889. Donde se conclui que a Monarquia ou o Rei, ou melhor, o Imperador, melhor ainda, Dom Pedro II, tem sido e ainda é um defunto chorado no Brasil. Chorado por juízes, desembargadores, professores, homens do povo, advogados, padres, funcionários públicos, médicos, senhoras ilustres. Choradíssimo por Félix Cavalcanti de Albuquerque Melo, obscuro contemporâneo do monarca e que não tendo recebido de Sua Majestade nem sequer pretendido do seu augusto governo, nenhum favor especial, nem nenhum título ou crachá, nem nenhuma comenda, foi apenas um provinciano de tendências conservadoras e de feitio aristocrático que se identificou com a causa monárquica por gosto e por princípio” (pág. XLIV).
Gilberto Freire comenta em sua Introdução no referido livro que Félix Cavalcanti era um remanescente da aristocracia rural vindo para a cidade. Era um patriarca “com enorme família, escravos velhos, crias dentro de casa; com imensa mobília de jacarandá maciço, guarda-louça e aparadores de amarelo, camas de canduru, santuário, armário, baús, mesa de jantar para vinte pessoas, a coleção inteira dos romances de Alexandre Dumas, a História Universal de César Cantù, os romances de Eugênio Sue, o retrato do Visconde do Rio Branco” (op. cit. pág. XXVIII). Destaca ainda o fato do velho Félix haver se mudado constantemente de residência quando foi morar em Recife, trocando “de casa, de rua, de bairro e um pouco de cidade. De idéias, muito pouco. E muito pouco de hábitos, de sentimentos, de preconceitos. Em muita coisa conservou-se no Recife do século XIX o aristocrata do engenho do Sul de Pernambuco; o Cavalcanti de Albuquerque Melo de outros tempos; o matuto fidalgo desconfiado do Povo, da Cidade, da Democracia, da Abolição, da República”.
Apesar dos Cavalcanti desfrutarem de grande prestígio e poder em Recife, assenhorados dos mais importantes cargos políticos, administrativos e judiciários, Félix Cavalcanti mantinha-se completamente alheio a tudo e levando sua pacata vida sem lutar por honrarias e cargos. João Maurício Cavalcante da Rocha Wanderley era juiz de Limoeiro; Álvaro Barbalho Ucha Cavalcanti, de Rio Formoso; Manuel de Holanda Cavalcanti, de Pau d’Alho; Francisco Xavier Cavalcanti era chefe da Repartição do Selo, etc. De tal sorte que suscitaram várias violências contra a família, talvez por causa da inveja que causavam: “Daí as violências contra Cavalcantis e outros aristocratas de engenhos praticadas por Chichorro da Gama quando a Presidência da Província passou dos oligarcas para os liberais, seus adversários terríveis. “A influência da família Cavalcanti não era um fato de 1835, mas datava de tempos remotos; que essa influência não era obra do poder ou da revolução, mas procedia da “natureza das coisas”; que era influência que sempre teve uma família numerosa, antiga e rica e “cujos membros sempre figuraram nas posições sociais mais vantajosas; na primeira Legislatura de 1824, cinco membros desta família foram eleitos deputados; na segunda e terceira legislaturas seis Cavalcanti obtiveram essa honra popular; ...E ainda: “Esses Cavalcantis antes da nossa emancipação política já figuravam como capitães-mores, tenentes-coronéis e oficiais de ordenança e milícia e em todos os cargos da governança; os engenhos que a maior parte deles tem foram havidos por herança...” (op. cit.).
Félix Cavalcanti de Albuquerque descendia das mais velhas estirpes do Sul de Pernambuco, com parentesco nas diversas famílias importantes da região, os Melo, os Barros Wanderley, os Bezerra, etc. Destacou-se por ter sido um homem capaz, honrado, vivendo do trabalho honesto, sem nunca ter recorrido a favores políticos para si ou para os seus, nunca obteve um cargo público, simplesmente porque não queria, embora sua família estivesse em ruína financeira. Apesar de provir do meio rural era dotado de alguma instrução, diferentemente de seus parentes, os quais, segundo Gilberto Freire, eram o exemplo de família rica e pouco instruída. Era homem de “muita leitura”: havia lido grande número de livros, revistas, almanaques, até mesmo jornais em que chegou a colaborar. Dentre os livros que possuía se destaca uma obra de Cesare Cantu, católico liberal muito conhecido na Itália por haver publicado uma História Universal em 35 volumes. Era a época em que se discutiam muito sobre a Igreja, o poder civil dos papas, era a época de Pio IX e a luta pelos direitos da Igreja.
O relato das memórias desse Cavalcanti mostra um fato social hoje estudado por vários sociólogos: a crescente urbanização do Brasil e em conseqüência a "desruralização" da antiga aristocracia feudal ocorridos a partir de meados do século XIX. Félix Cavalcanti e seus irmãos perderam o engenho com a morte do pai e foram forçados a mudar-se para a cidade a procura de melhores recursos para suas famílias, aliás muito numerosas e de muitos filhos. Em Recife, consegue se manter com um modesto emprego na Santa Casa: “De Félix se pode dizer sem exagero que, dentro da sua modéstia de empregado da Santa Casa, conseguiu conservar, além da nobreza da família, a chamada nobreza moral tão dificilmente preservada em meios urbanos por indivíduos vindos de áreas rurais”.
Assim, Félix Cavalcanti é modelo de um grupo de pessoas que tiveram que abandonar a vida rural pela da cidade, gente que se havia enobrecido pela atividade campestre, com semelhança ao feudalismo europeu, mas que repentinamente se acharam empobrecidas e se viram forçadas a enfrentar a dura vida da cidade.

O velho Félix também possuía muita bondade
Em suas memórias Félix Cavalcanti conta como era sua vida particular e de família. Registrou que quando passava pelas ruas de Recife e ouvia gritos de escravos pedindo ajuda, às vezes maltratados por algum senhor desalmado, ele imediatamente interferia, pedia misericórdia para o pobre coitado. Era comum os senhores de escravos atenderem a tais pedidos feitos por “gente distinta”, como o era Félix Cavalcanti.
Em outra oportunidade, ficou bastante sensibilizado com o pedido de ajuda que alguém lhe fez, e o velho Félix viu-se na obrigação de fazer uma coisa de que não gostava, mas o fez para ajudar alguém: teve que pedir a um filho interferência para conseguir emprego para uma pessoa. O caso marcou tanto sua vida que ele dedica várias páginas de suas memórias o contando.
Um dos momentos em que ele foi mais chamado a praticar suas virtudes foi por ocasião da peste do “colera morbus”, que vitimou a cidade de Recife a partir de janeiro de 1854. Segundo Félix Cavalcanti, “A morte ameaçando a todos, os cadáveres ficavam insepultos, a cidade entregue à desolação”. E mais adiante: “Via-se com uma mistura de dor e de indiferença morrer o amigo, o pai, o filho e o esposo, e a sensibilidade já adormecida não manifestava o pesar intenso que a todos devia dilacerar”. Houve dia em que falecerem 120, mortandade espantosa numa cidade que contava na época com 6 mil habitantes.
E Félix Cavalcanti se redobrava em cuidados, pois trabalhava na Santa Casa onde os moribundos eram atendidos e faleciam. Certa feita deixaram com ele uma mulher dizendo que havia morrido e que providenciasse o enterro. Logo ele verificou que a mulher ainda vivia, conseguiu reanimá-la e, medicando-a, salvou-a.
Eis aí mais um exemplo de bondade que precisamos conhecer e praticar. O Sr. Batista não chegou a tanto, mas certamente se estivesse numa posição semelhante à do velho Félix teria feito o mesmo, pois esta bondade é própria do sentimento cristão que em nós nasce com o batismo e cresce com a prática dos chamados "conselhos evangélicos", deixados por Nosso Senhor Jesus Cristo para que todo cristão possa atingir a perfeição na prática do Bem.

Matheus, o último e mais recente dos bienetos


Matheus divertindo-se num dos lugares aprazíveis de sua família em Salvador

Matheus, o último e mais recente dos bienetos


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