quinta-feira, 3 de setembro de 2015
segunda-feira, 20 de outubro de 2014
O papel das "redes sociais" numa nova fase da Revolução
O papel das “redes sociais” numa nova fase da Revolução
(*)
O “modelo” da Revolução da Sorbonne (Paris, maio de 1968)
foi facilmente disseminado pelo mundo. Com base naquela matriz ideológica, diversos
grupos realizaram ações revolucionárias em várias partes do planeta.
No Brasil, como alhures, a técnica de conduzir a opinião
pública é sempre a mesma. O sucesso obtido na Sorbonne de 68 tem inspirado
muita gente a repetir a façanha.
Hoje, no entanto, tudo indica que as diversas revoluções
similares que explodem em várias partes do globo conduzem a uma tentativa de
universalizá-la mais ainda. Sendo universal, é necessário que haja unidade,
pelo menos entre os agentes revolucionários. Por enquanto, a universalidade
está nos meios e nos métodos de ação, mas tende a sê-lo também no campo
ideológico, dos propósitos. Somente a unidade fará com que se obtenha mais
êxito universal.
Quanto aos métodos, tivemos, por exemplo, as diversas
manifestações de descontentamentos eclodidas entre os árabes e na Europa,
depois transplantadas para os Estados Unidos da América e os países
sul-americanos. Para atrair a simpatia do público revestiram-nas com o título
de “indignados” e “primavera árabe”. Como o ato de indignar-se não identifica
em si disposição para a revolução e o caos, mas uma atitude de revolta contra
as injustiças, logo os revolucionários atraíram a simpatia de certo público e
conseguiram, inclusive, derrubar alguns governos ditatoriais. Com uso
das armas, inclusive. Na Europa, é claro, tinha que ser diferente. E nos
Estados Unidos mais ainda, com outra roupagem, outro nomes, mas com propósitos
meio indefinidos, próprios desse tipo de revolução. Dentro do grupo “Ocupem
Wall Street”, como não poderia deixar de ser, o tema principal é a guerra
contra os bancos e o capitalismo dito “selvagem”, uma velha e surrada tese
marxista de luta de classes.
E agora a coordenação desse movimento está muito mais ao
alcance de todos, pois, diferentemente de maio de 68, temos a internet com as
redes sociais que divulgam celeremente as ordens, os contatos, as decisões e os
programas predeterminados.
O "milagre" da
“Revolução Espontânea”
Um das
características que os faz atraentes para o público é o cunho da espontaneidade.
A espontaneidade está produzindo um dos maiores “milagres” da História. Em primeiro lugar, produziu o "milagre" da geração espontânea do Universo, hoje um dogma evolucionista sempre presente
não só entre pseudo-cientistas mas na cabeça de muitos leigos e da quase
unanimidade da mídia. Ora, se o universo surgiu por “geração espontânea”, por
que não também as revoluções?
E foi assim que o
Protestantismo, a Revolução Francesa e o Comunismo brotaram “espontaneamente”
do chão e produziram essa monstruosa Revolução que hoje campeia pelo mundo
moderno. Foi dessa forma também que brotou a revolução da Sorbonne de 1968, uma
das revoluções mais “espontâneas” de toda a História, aliás a que mais se
caracterizou pela espontaneidade. É uma qualidade que pretende dá crédito e
autenticidade ao movimento.
Veio agora a
revolução dos “indignados” (ou dos indignos), produzida e gerada “espontaneamente”
em vários países do mundo. “Esponaneamente” brotou ela em solo árabe (fruto das
“redes sociais” da internet, segundo dizem) e de lá foi transplantada sua
semente para a Europa, Estados Unidos e o resto do mundo. Entre os árabes produziu quedas de governos,
mas não tinha como objetivo visível colocar um sucessor à altura das aspirações
populares. A palavra mágica era “democracia” , coisa que aqueles povos só
poderão saber o que seja daqui a alguns séculos.
Uma das características dos povos muçulmanos é o grande
atraso em que teimam permanecer, recusando qualquer evolução social. Isso
ocorre por causa dos princípios religiosos, embora seja negado por alguns. Há
séculos que são dominados por clãs e por regimes tribais. A tônica do
noticiário é que as revoltas vão solucionar todos os problemas: basta que se
coloque outro grupo político no poder e se façam eleições. Fácil, né? Quem
garante que os políticos que vão suceder aos ditadores vão inaugurar um regime
realmente democrático? Quem garante que não vai ser mais uma sucessão de
ditaduras? Não se muda a cultura de um povo assim da noite para o dia.
A única novidade em toda essa onda é que a mídia está
trombeteando aos quatro ventos que tudo está sendo feito via internet. O que é
absurdo, pois muitas dessas revoltas estão sendo feitas por grupos armados,
como ocorreu na Líbia e está ocorrendo agora na Síria. Outra novidade é que o
movimento é apresentado ao Ocidente como exemplo de uma revolução toda virtual,
nascida espontaneamente dentro das chamadas “redes sociais”. Um mito, uma
mentira, como vimos acima ao comentar sobre a “espontaneidade” revolucionária.
No resto do mundo
é diferente. Sempre com o caráter de
“espontaneidade”, marcam uma data para se iniciar uma marcha de
protestos e, coincidentemente, a “espontaneidade” registra também hora, data,
local do encontro, e até mesmo algumas características que as manifestações
devem ter, como, por exemplo, ser composta de “jovens”, de estudantes, de
operários, etc., etc.
É tão bela e
admirativa essa “espontaneidade” que a revista “Veja” a elogia, numa de suas
últimas edições em que propaga a manifestação dos “indignados” brasileiros
contra a corrupção. A revista só não explica como é que, “espontaneamente”, a
manifestação teve forum de debates na internet, local, data e hora para ser
feita, além de se caracaterizar unicamente como um movimento apolítico (quer
dizer, sem partido) e dirigido contra os corruptos. E, depois, teve a mídia que
“espontaneamente” vai lhe colocando no foco dos acontecimentos. É muita
“espontaneidade” para um movimento tão bem organizado e de caráter universal...
Alguns dos
anarquistas, aqueles mesmos que vivem num mundo virtual a procura de algo para
sair de seu “autismo consentido” para o mundo real, o qual eles odeiam porque
não o suportam, se aproveitam para “espontaneamente” botar fogo em tudo,
queimar veículos, depredar lojas, jogar pedras na polícia, e aí ameaçam
estragar o movimento. Que deve ser espontâneo mas não deve assustar.
O processo se
assemelha em tudo ao da Revolução da Sorbonne de 1968, um espécie de ensaio
geral para essa revolução que agora pretende ser mais universal ainda. Lá também ninguém
visava a derrubada do poder, pois é o próprio poder que eles odeiam; tudo era
feito de forma a parecer que a revolução brotava espontaneamente dos estudantes
e operários, inclusive até mesmo as frases e manifestações escritas eram as
mais rústicas possíveis (apenas pixações e nada de manifestos escritos ou de
pasquins) para se dar a idéia de que aquilo não provinha de uma preparação
prévia feita por um grupo revolucionário.
Para quem analisa
as coisas friamente, não parece que essa revolução dos “indignados” se
assemelha em tudo à da Sorbonne, em Paris, de maio de 1968?
Os “excessos”,
dizem, não fazem parte dessa impressionante “espontaneidade”, pois em geral são
cometidos por grupos isolados e radicais. Mas o que vemos é que os excessos são
tão comuns, que parecem até ser espontâneos, agora de verdade. Vejam o que vem
ocorrendo nos Estados Unidos e na Europa, em particular na Itália. Lá também
houve excessos, como este publicado pelo jornal Corriere de la Sera, em que um
grupo de anarquistas quebra uma estádua da Madonna, Nossa Senhora de Lourdes. O
jornal fala da “guerrilha de 15 de outubro”, porque na verdade houve uma
espécie de guerrilha dos manifestantes contra a polícia. O responsável pela
blasfêmia foi um grupo anarquista denominado “black bloc”, em tudo semelhante
aos demais, até mesmo na “espontaneidade” com que se organizaram, saíram juntos
para a rua e fizeram sua parte. E como é que tais grupos se organizaram em
outros países, como o Brasil? Espontaneamente?
A imagem, de
gesso, era venerada no salão paroquial de São Marcelino e São Pedro, cujo
pároco, o padre Pino Ciucci, disse que a aquela ação foi pior do que a dos
fascistas. Para atuar, o grupo “black bloc”, com o rosto coberto com gorros de
lã preta, capacetes e paus negros, invadiu o salão paroquial em meio às
manifestações dos “indignados” que ocorriam nas imediações, deixando
“espontaneamente” o local para que se diga depois que o vandalismo também é uma
ação “indignada” do povo contra a Religião. No final, via-se a imagem de Nossa
Senhora de Lourdes totalmente despedaçada na calçada, objeto de fotógrafos,
curiosos e passantes... Um crucifixo também foi profanado...
O arcebispo de
Milão, Angelo Scola, logo se manifestou sobre o crime, considerando-o muito
grave. O prelado previu coisas mais graves perante o fanatismo das turbas que
se manifestam em Roma. Mal sabia aquele bispo que apenas se iniciava ali a
formação deste grupo de caráter internacional.
Uma frustrada
tentativa de repetição da Sorbonne-68
A “revolução dos
indignados” está ainda em curso, embora tenha recuado muito no decorrer deste
ano: tudo indica que essa Revolução não avança, mas murcha. Não queremos dizer
com isso que a ação desses grupos estancou, mas sim que não encontra eco no
restante da população. Trata-se, sempre, de uma minoria isolada, que não
encontra apoio popular em geral. Veremos por quê.
Em São Paulo,
tivemos um exemplo flagrante disso ocorrido no final de 2011. Dentro do Campus da USP houve um crime e a
droga corria solta. O reitor resolveu chamar a polícia, como é óbvio, para
policiar o recinto das faculdades. “Indignadas” com a ação da reitoria, várias
organizações estudantis resolveram protestar: a polícia teria que vigiar a
“cracolândia”, a USP não, segundo palavras excitadoras do movimento ditas pelo
ministro da Educação.
No entanto, feita
uma reunião, a maioria resolveu concordar com a ação da polícia. Primeira
derrota dos “indignados” revolucionários, os quais, insatisfeitos, resolveram
agir contra a maioria. Cerca de 100 alunos (uma minoria irrisória) invadem o
prédio da Faculdade de Filosofia. Esperavam que os outros estudantes o apoiassem,
mas em vão: a grande maioria, em reunião, decide a desocupação do prédio. Aí,
então, cerca de 70 remanescentes daqueles 100, ao sair da Faculdade de
Filosofia resolvem invadir o prédio da própria reitoria. Desta vez, porém, o
reitor resolve acionar a justiça, a qual dá um ultimato aos invasores para
desocupar o prédio. Como não o fizeram, foram expulsos pelos policiais. Esta
última ação ocorreu no dia 8 de novembro de 2011.
No dia seguinte,
os grupos revolucionários fazem nova tentativa de conquistar a adesão dos
estudantes e proclamam uma greve em protesto contra a ação policial no recinto
da USP. Nova derrota. Não há adesão ao movimento, o qual mingua por falta de
participantes. Será que esperavam ocorrer o mesmo que na Sorbonne de maio de
68, quando uma minoria invadiu uma faculdade, depois a própria universidade,
passando posteriormente para as ruas e as fábricas? Pode ser que não, pelo
menos entre os indivíduos de base, mas em todos os outros movimenos semelhates
havidos em outras partes do mundo, inicialmente há sempre uma causa pequena e
de pouca repercussão, para, depois se partir para uma questão nacional e até
internacional, que é o escopo dos líderes. Esta, da USP, foi um fiasco total.
Uma
particularidade, que a mídia chamou a atenção desde o início desse movimento:
os invasores da reitoria da USP são, na maioria, filhos de gente rica ou de
classe média. Alguns dos pais foram até à polícia para protestar dizendo que
estavam sendo vítimas de perseguição política. Eles pleiteavam o “direito” de
seus filhos fumarem maconha no recinto da USP e acusam a justiça de
“perseguição política”.
Um movimento de elite
O que reflete bem
o tipo de ação promovida nos bastidores por gente desse tipo é retratado pelo
jornal “Folha de São Paulo” ao relatar o seguinte episódio:
“Quinze socialites se reuniram anteontem à tarde,
nos Jardins (zona oeste), para debater o combate à corrupção e outros temas.
Antes mesmo de começar, a pauta já era outra.
“Ei, menino, sabe que fim deu a confusão da USP?”,
assuntou uma das integrantes do Grupo Ação em Cidanania à reportagem. PMs
haviam retirado, horas antes, os invasores da reitoria.
Iniciada a reunião pela psicalanista Maria Cecília
Parasmo – regada a refrigerante, bolacha e bolo -, o debate ficou em torno de
como “mobilizar o povo” e “para quê”.
Para Ana Paula Junqueira, pré-candidata do PMDB a
vereadora, o brasileiro deveria se inspirar na Primavera Árabe..
Quando o tópico voltou para os conflitos na USP,
os ânimos se exaltaram. A historiadora Maria Cecília Naclério sugeriu que o
grupo de invasores teria ligação com máfias (“tudo isso é orquestrado”).
Já a presidente da Associação de Mulheres de
Negócios, Márcia Kitz, questionou se a PM não deveria ter sido mais incisiva,
com uso de bombas de efeito moral e jatos d’água.
Após publicação de Vídeo pela TV Folha, ontem, o
termo “socialites” ficou entre os mais comentados no Twitter em SP”. (v. Folha de São Paulo, 10.11.2011, caderno
Cotidiano, C3).
A queda da
disponibilidade revolucionária
Estar disponível
é ter um espírito propenso e pronto para a ação. O chamado “mundo virtual” tira
um pouco esta disponibilidade, pois enclausura as pessoas numa espécie de
“autismo consentido” e numa acomodação egoística. No entanto, torna as pessoas
mais manipuláveis.
O que deve ser
manipulado pela Revolução? A mesma disponibilidade para a ação, a ação
coordenada e universal, assim como a unidade da ação. As pessoas manipuláveis
devem agir por impulso, sem raciocinar bem o que estão a fazer nem o seu
conteúdo ideológico. Em geral as pessoas são manipuláveis por questões
sentimentais, compulsivas, financeiras, etc.
Mesmo assim, tal
manipulação tem encontrado muitas dificuldades. Uma delas é que o “mundo
virtual” ainda é vivenciado por uma minoria da população, pelo menos em tempo
integral. E parace que saturou, não indicando que há para onde crescer mais do
que o que já crescreu. Assim, os próprios agentes da manipulação podem ser
atingidos pelo parasitismo virtual. As redes sociais funcionam mais como
necessidade que as pessoas têm hoje, num mundo tão isolacionista, de se
comunicarem, mas parece que não tem surtido muito efeito quando se pretende por
ele a ação das massas para promover uma revolução tendenciosa.
A Revolução e
a auto-regência dos seus lideres
Um líder
revolucionário, apesar de em geral ter que ser carismático, perde sua
auto-regência ao se entregar inteiremente às paixões revolucionárias. Estas
paixões, virulentas e irracionais, tendem a obscurecer o “lumen rationis”(a luz
da razão), transforando-os em meros autômatos. Também os líderes podem ser
influenciados pela tendência a agir por impulsos. É mais cômodo. Desta forma,
as lideranças revolucionárias hoje são raras, pois falta-lhes o que denominamos
acima de “disponibilidade revolucionária”, necessária para “tocar” a massa para
a ação. Um líder perde sua capacidade de liderança quando perde também sua
auto-regência, é sabendo governar-se que se governa os outros com eficiência.
Um dos recursos
que a Revolução pode usar, nesse caso, é da ação integrada, liderada não por um
individuo mas por um grupo, um “comitê”, um soviet. Recurso já usado na
Sorbonne para se dá a idéia de que as decisões não são individuais, mas
coletivas. Mas esse grupo precisa se utilizar de recursos com que possa mover a
“massa” na direção revolucionária. Nesse caso, a técnica mais apropriada (já
usada em várias ocasiões) é a “acupuntura social”, pela qual as massas vão agir
impulsionadas por fatos ocorridos e provocados de propósito que as levem em
direção diferente e até oposta daquilo que pensam e vivem. Um exemplo foi a
eleição ganha pelo partido socialista espanhol em 2004, fruto de um atentado
terrorista. O atentado foi feito pelos terroristas muçulmanos, mas levou a
opinião pública a desviar seus votos contrários ao governo conservador, então
no poder, dando vitória aos socialistas. Assim, sem um discurso, sem ação de
nenhum líder, mas de um grupo, o povo foi levado a agir de forma diferente e
até contrária ao que pensava.
Uma das características dos povos muçulmanos é o grande
atraso em que teimam permanecer, recusando qualquer evolução social. Isso
ocorre por causa dos princípios religiosos, embora seja negado por alguns. Há
séculos que são dominados por clãs e por regimes tribais. A tônica do
noticiário é que as revoltas vão solucionar todos os problemas: basta que se
coloque outro grupo político no poder e se façam eleições. Fácil, né? Quem
garante que os políticos que vão suceder aos ditadores vão inaugurar um regime
realmente democrático? Quem garante que não vai ser mais uma sucessão de
ditaduras? Não se muda a cultura de um povo assim da noite para o dia.
A única novidade em toda essa onda é que a mídia está
trombeteando aos quatro ventos que tudo está sendo feito via internet. O que é
absurdo, pois muitas dessas revoltas estão sendo feitas por grupos armados,
como ocorreu na Líbia e está ocorrendo agora na Síria. Outra novidade é que o
movimento é apresentado ao Ocidente como exemplo de uma revolução toda virtual,
nascida espontaneamente dentro das chamadas “redes sociais”. Um mito, uma
mentira, como vimos acima ao comentar sobre a “espontaneidade revolucionária”.
(*) A análise da Revolução, como feita acima, é baseada nas
teses da obra “Revolução e Contra-Revolução”, do Prof. Plínio Corrêa de
Oliveira, cujo texto pode ser obtido aqui:
http://www.pliniocorreadeoliveira.info/livros.asp
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quarta-feira, 15 de outubro de 2014
A QUESTÃO FEMININA NAS ELEIÇÕES BRASILEIRAS
A nossa
lei eleitoral prescreve que cada partido político é obrigado a inscrever, pelo
menos, 30% de mulheres como candidatas a cargos legislativos. Quer dizer, há
uma cota obrigatória para as mulheres nas candidaturas. E o partido que não
cumprir a lei pode ser punido, razão pela qual muitos deles inscrevem grande
quantidade de candidatas sem perspectiva nenhuma de serem eleitas.
Como é
moda estipular cotas para tudo o que diz respeito à ascensão social (nos cursos
universitários isso já está estabelecido a mais tempo com cotas para negros,
índios, pobres, etc.) não demora que a lei obrigue a população a eleger aquele
percentual de mulheres a fim de que as bancadas políticas sejam compostas com uma
quantidade pré-estabelecida delas. Assim como existe o “quociente eleitoral”
para garantir vagas proporcionais nos partidos, pleiteiam também um “quociente
feminino”. É claro que não ficarão por aí, virão outros “quocientes” ou “cotas”
de cargos políticos a serem pleiteados, como dos negros, dos índios, dos
pobres, etc. O jargão desta mentalidade chama-se “inserção social” ou “inclusão
social”.
Por
enquanto, não é o que ocorre. Qual a razão? Enquanto a lei continua a
prescrever um percentual de candidatas, a população continua indiferente ao
fato. E a grande maioria daquelas que os partidos colocaram como candidatas
estão ali apenas para preencher um requisito legal, mas realmente não têm
nenhuma chance de serem eleitas. Muitas nem sequer têm vocação política. Foi o
que ocorreu na última eleição (em 3.10.2014).
Segundo
o jornal “A Tarde”, de 13.10.2014, dos 1.042 candidatos eleitos para a próxima
legislatura, apenas 119 são mulheres, ou seja, 11,4% do total. O povo deixou de
eleger quase 200 mulheres, para desencanto dos feministas. Na Bahia, por
exemplo, o numero de mulheres eleitas foi reduzido de 10 para 7. No total do
país as legislaturas passam a ter 26 mulheres a menos, o que indica uma tendência
popular a não votar nelas. Em 17 casas legislativas foi menor o número de
candidatas eleitas, e apenas em cinco o número aumentou e em outras quatro
permaneceu como estava. Já em Mato Grosso e Amazonas foi eleita apenas uma
candidata em cada um destes estados..
A
explicação dada pelo fenômeno não é do desinteresse da população em eleger mulheres,
mas de outros motivos. A deputada Fabíola Mansur, por exemplo, dá as seguintes
razões: “O desinteresse das mulheres pela política é nítido na medida em que
elas têm um compromisso com a família, os filhos, a educação. Somado a isso, se
não há uma estrutura partidária que consiga colaborar com candidaturas
femininas e sem financiamento público de campanha, como é possível as mulheres
ficarem visíveis?” Uma outra deputada, Luíza Maia, aponta quase as mesmas
razões, e acrescenta: “...para as mulheres, é mais difícil conseguir apoios
financeiros” e diz que os partidos políticos são “machistas”. E a população que
não votou nelas, é machista também? A fim de conseguir seus objetivos, as
deputadas acima defendem que a lei deveria obrigar os partidos a apresentar
número igual de candidatos (homens e mulheres), como se isso fosse o suficiente
para fazê-las conseguir o voto popular.
É claro
que a idéia não daria certo, pois nem mesmo assim o povo daria o voto nas
mesmas proporções, mas de acordo com suas preferências pessoais. E o resultado
das eleições nunca seria conforme as elucubrações destas idéias malucas, mas
conforme o bom senso da população. O
maior erro destas idéias é imaginar que cargo político é ascensão social,
quando, na realidade, a disputa por cargos políticos é luta pelo poder feita
por uma parcela da sociedade que já desfruta do mesmo, de uma classe social que
já ascendeu e não precisa de nenhum apoio legal para crescer mais. Quanto à
representação popular, esta não precisa ser proporcional á população, pois o
interesse aí não é do pleiteante ao cargo mas do povo.
domingo, 1 de junho de 2014
sexta-feira, 24 de janeiro de 2014
CONVERSAÇÃO, UM PASSATEMPO DE OUTRAS ERAS
Seguem algumas frases ou expressões sobre a arte da conversa, coisa praticamente inexistente no mundo atual:
A CONVERSAÇÃO
• “Esto brevis et placebis” – Sê breve e agradarás. (aforismo latino). • Política é conversa. O resto é... conversa fiada. (Otávio Mangabeira).
• Conversar é, como as abelhas, fazer mel de qualquer coisa. (La Fontaine).
• Há palavras que sobem como a chama e outras que descem como a chuva. (Maria d’Agouit).
• Os homens com quem se fala não são os homens com os quais se conversa. (Rousseau).
• O melhor prazer da vida é a prosa. (Plínio Corrêa de Oliveira).
• A conversa é um intercâmbio de duas personalidades que falam sobre matéria atraente e que interessa a ambos. Será ainda mais autêntica, se o meu interlocutor puser certa nota pessoal em suas palavras, fazendo com que eu goste de ouvi-lo. Isso é um elemento fundamental da conversa. (Plínio Corrêa de Oliveira).
• Uma hora de conversa vale mais do que cinqüenta cartas. (Mme. de Sévigné).
• As palavras, como as abelhas, têm mel e ferrão (Ditado suíço).
• “La parole est d’argent, mais le silence est d’or” – A palavra é de prata, mas o silêncio é de ouro (Máxima traduzida do árabe por Duchemond, in Recueil d’adages, 1867, p. 121).
• “Quand une femme a le don de se taire, elle a des qualités au-dessus du vulgaire” – Quando uma mulher tem o dom de calar-se é porque tem qualidades acima do comum delas (Corneille, Le Menteur, Acte I, sc. 4).
• O homem de palavra é ordinariamente o que menos fala. (Marquês de Maricá).
• Use palavras leves e argumentos pesados (Adágio inglês).
• Quando falares, cuida para que tuas palavras sejam melhores que o silêncio (Provérbio indiano).
• Não deixe que sua língua o mantenha surdo (Adágio indígena americano).
• Quem muito fala, muito erra e muito enfada (Ditado popular).
• O que convence é o caráter de quem fala e não o argumento (Menandro).
• Temos dois ouvidos e apenas uma boca para ouvir mais e falar menos (Ditado popular).
• O ouvido não foi feito para fechar mas a boca foi (Ditado popular).
• “Non minus interdum oratorium esse tacere quam dicere” – Às vezes calar não é menos eloqüente do que falar (Plínio, o Jovem).
• “Taciturnitas stulto homini pro sapientia est” – O silêncio é a sabedoria do tolo (Publílio Siro).
• “Stultos quoque, si tacuerit, sapiens reputabitur et, si compresserit labia sua, intellegens” – Até o insensato passará por sábio, se estiver calado; e por inteligente, se cerrar os seus lábios”. (Provérbios, 17, 28).
• “Ex abundantia enim cordis os loquitur” – Da abundância do coração fala a boca (Mt 12, 34).
• A literatura em muitos dos seus ramos não passa de sombra da boa conversação (Robert Louis B. Stevenson - séc. XIX).
• As conversas familiares, os diálogos amigáveis são meios bastante eficazes. Oh! Quanto bem produzem! (Santo Antonio Maria Claret).
• A Revolução causou à sociedade uma perda imensa, talvez irreparável... ela matou a conversação (Conde Pierre Louis Roederer, Paris 1754/1835).
• A conversação era, nessa época, brilhante, o emprego do espírito, o sal mais fino do “savoir plaise”, do “savoir vivre”, do “sprit de Cour”. Era a recreação por excelência. Finesse, “grace, limpidité, rapidité”, arte de esconder o pensamento ou a malícia sob o véu transparente dos subentendidos, palavras que iam além do que elas exprimiam, “plaisantierie”, “repartie”... eis algumas das ritulantes preciosidades que faiscavam à luz das velas, antes de caírem magnificamente, principescamente, como fitas de seda, nos tapetes finos daqueles salões aristocráticos” (G. Lenotre – “Gens de la Vieille France”).
• Na verdade, se a boca fala da abundância do coração, é preciso igualmente que cale a língua quando há escassez de pensamentos. (São Bernardo)
• “Alienis quippe oculis, intra secretum mentis, quase post parietem corporis stamus; sed cum manifestare nosmetipsos cupimus, quase per linguae iahuam egredimur, ut quales sumus intrinsecus ostendamos” (SANCTI GREGORII MAGNI, Expositio in librum Job libri XXXV (Moralium), liber II, cap. VI, vers. 8; PL 75, p. 559 - Aos olhos dos demais, na parte secreta da mente, estamos como que por detrás da parede do nosso corpo; mas quando desejamos nos manifestar, saímos como que pela porta da língua para mostrar o que somos em nosso interior” .
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domingo, 13 de outubro de 2013
Aspecto varonil da feminilidade de Maria Quitéria
Maria Quitéria, heroína da guerra de nossa Independência na
Bahia, é apresentada por certa corrente feminista como detentora de
masculinidade, haja vista que se vestiu de homem para ingressar nas tropas que
lutavam no Recôncavo baiano contra os portugueses. Não é bem assim que a viu Maria Graham quando
esteve no Brasil e recebeu a visita da famosa baiana, no Rio de Janeiro. O fato
foi registrado pela inglesa em seu famoso diário e ocorreu no dia 29 de agosto
de 1823, poucos dias após o fim da guerra de independência na Bahia, ou “Guerra
do Recôncavo” como ficou conhecida na época:
Os portugueses, comandados pelo general
Madeira, resolveram não reconhecer a independência do Brasil: houve reação
local e logo travou-se uma guerra entre as forças portuguesas e os patriotas locais,
somente terminada no dia 02 de julho de 1823, quase um ano após o brado de
independência dado por Dom Pedro I. Por puro amor à Pátria, Maria Quitéria
resolveu ingressar nas nossas tropas fazendo-se passar por homem.
Segue abaixo o relato do encontro entre Maria
Quitéria e Maria Graham:
“Recebi
hoje a visita de D. Maria de Jesus, jovem que se distinguiu ultimamente na
guerra do Recôncavo[1].
Sua vestimenta é a de um soldado de um dos batalhões do Imperador, com a adição
de um saiote escocês, que ela me disse ter adotado da pintura de um escocês,
como um uniforme militar mais feminino. Que diriam a respeito os Gordons e os
Mac Donalds? O traje dos velhos celtas, considerado um atrativo feminino?! –
Seu pai é um português, chamado Gonçalves de Almeida[2],
e possui uma fazenda no rio do Pex [peixe], na paróquia de S. José, no Sertão,
cerca de 40 léguas para o interior de Cachoeira. Sua mãe era também portuguesa;
contudo, as feições da jovem, especialmente os olhos e a testa, apresentam os
mais acentuados traços dos índios. Seu pai tem outra filha da mesma mulher,
depois de cuja morte ele se casou de novo; a nova mulher e as crianças faziam
com que a casa não fosse muito confortável para D. Maria de Jesus. A fazenda do
Rio do Peixe é principalmente de criação, mas o proprietário raramente sabe ou
conta as suas cabeças. O Senhor Gonçalves, além do gado, planta algum algodão,
mas como no sertão passa às vezes um ano sem chover, a produção é incerta. Nos
anos de chuva ele pode vender quatrocentas arrobas, por 4 a 5 mil réis; nas
estações secas dificilmente pode colher acima de sessenta ou setenta arrobas,
que podem alcançar de seis a sete mil réis. Sua fazenda emprega vinte e seis
escravos.
As
mulheres do interior fiam e tecem para sua casa, como também bordam lindamente.
As moças aprendem o uso de armas de fogo, tal como seus irmãos, seja para caçar
seja para defenderem-se de índios brabos.
D.
Maria contou-me diversas particularidades relativas a suas próprias aventuras.
Parece que, logo no começo da guerra do Recôncavo, percorreram o país em todas
as direções emissários do governo para inscrever voluntários; que um desses
chegou um dia à casa de seu pai, na hora do jantar; que seu pai o havia
convidado a entrar e que depois da refeição ele começou a falar sobre o
objetivo de sua visita. Começou ele a descrever a grandeza e riqueza do Brasil
e a felicidade que poderia alcançar com a Independência. Atacou a longa e
opressiva tirania de Portugal e a humilhação em submeter-se a ser governado por
um país tão pobre e degradado. Ele falou longa e eloqüentemente dos serviços
que Dom Pedro prestara ao Brasil, de suas virtudes e nas da Imperatriz, de modo
que, afinal, disse a moça: “Senti o coração ardendo em meu peito”. Seu pai,
contudo, não partilhava em nada seu entusiasmo. Era velho, e disse que nem
poderia juntar-se ao exército, nem tinha um filho para ali enviar; e quanto a
dar um escravo para as tropas, que interesse tinha um escravo em bater-se pela
independência do Brasil? Ele esperaria com paciência o resultado da guerra e
seria um pacífico súdito do vencedor. Dona Maria escapuliu então de casa para a
casa de sua irmã, que era casada e morava a pequena distância. Recapitulou o
grosso do discurso do visitante e disse que desejaria ser homem para poder
juntar-se aos patriotas. “Pelo contrário”, disse a irmã, “se não tivesse marido
e filhos, por metade do que você diz, eu me juntaria às tropas do Imperador”. Isto
foi bastante. Maria obteve algumas roupas pertencentes ao marido da irmã, e
como seu pai estava para ir a Cachoeira a fim de negociar algum algodão,
resolveu aproveitar a ocasião e partir atrás dele, bastante perto para ter
proteção em caso de acidente na estrada, bastante longe para escapar de ser
presa. Afinal, à vista de Cachoeira, parou; e saindo da estrada, vestiu-se à
moda masculina e entrou na cidade. Isto foi sexta-feira. No domingo ela
arranjou as coisas tão bem que já havia entrado no Regimento de Artilharia e
montado guarda. Ela era muito fraca, porém, para esse serviço e transferiu-se
para a infantaria, onde está agora. Foi enviada para aqui, creio eu, com
despachos, e para ser apresentada ao Imperador que lhe deu o posto de alferes e
a ordem do Cruzeiro, cuja condecoração ele próprio impôs em sua túnica.
Ela é
iletrada, mas inteligente. Sua compreensão é rápida e sua percepção aguda. Penso
que, com educação, ela poderia ser uma pessoa notável. Penso que, com educação,
ela poderia ser uma pessoa notável. Não é particularmente masculina na
aparência; seus modos são delicados e alegres. Não contraiu nada de rude ou
vulgar na vida do campo e creio que nenhuma imputação se consubstanciou contra
sua modéstia. Uma coisa é certa: seu
sexo nunca foi sabido até que seu pai requereu a seu oficial comandante que a
procurasse.
Não há
nada de muito peculiar em suas maneiras á mesa, exceto que ela come farinha com
ovos ao almoço e peixe ao jantar, em vez de pão, e fuma charuto após cada
refeição, mas é muito sóbria”.
(“Diário
de Uma Viagem ao Brasil” – Maria Graham – Cia. Editora Nacional – SP – págs.
329/331)
Segue abaixo,
uma de suas biografias:
Maria Quitéria (1792-1853) foi militar brasileira.
Pioneira na luta de reconhecimento da independência. Baiana de nascimento e com
grande habilidade no uso da arma de fogo, inscreveu-se como voluntária para
lutar contra as províncias que não reconheciam D.Pedro como imperador. A Bahia
tinha grande contingente militar português e apresentou resistência às forças
do imperador. Para comandar as tropas brasileiras D.Pedro enviou à Bahia o
general Pierre Labatut, que organizou as tropas e que obtiveram as primeiras
vitórias contra os portugueses. Maria Quitéria teve atuação destacada em lutas
importantes. Foi condecorada com a Ordem Imperial do Cruzeiro do Sul.
Maria Quitéria de Jesus (1791-1853) nasceu no dia 27
de julho, no sítio do Licorizeiro, no arraial de São José de Itapororocas, hoje
Feira de Santana na Bahia. Filha do fazendeiro Gonçalo Alves de Almeida e
Quitéria Maria de Jesus, que morreu quando a filha tinha dez anos. Quitéria
assumiu a casa e cuidou dos dois irmãos. Seu pai casou pela segunda vez, mas
logo ficou viúvo. Casou novamente e teve mais três filhos. Sua nova esposa não
apoiava o comportamento independente de Maria Quitéria.
Maria Quitéria não frequentou a escola. Dominava a
montaria, caçava e manejava armas de fogo. Deflagradas as lutas de apoio à
independência em 1822, o Concelho Interino do Governo da Bahia, defendia o
movimento e procurava voluntários para suas tropas. Maria Quitéria, interessada
em se alistar, pediu permissão ao seu pai mas seu pedido foi negado. Com o
apoio de sua irmã Tereza Maria e seu cunhado José Cordeiro de Medeiros,
Quitéria cortou o cabelo, vestiu-se de homem e se alistou com o nome de
Medeiros, no Batalhão dos Voluntários do Príncipe, chamado de Batalhão dos
Periquitos, por causa dos punhos e da gola verde em seu uniforme.
Depois de duas semanas foi descoberta pelo pai, mas o
major José Antônio da Silva Castro não permitiu que ela fosse desligada, pois
era reconhecida pela disciplina militar e pela facilidade de manejar armas.
Maria Quitéria seguiu com o Batalhão para vários
combates. Participou da defesa da Ilha da Maré, da Pituba, da Barra do Paraguaçu
e Itapuã. No dia 2 de julho de 1823 quando o exército entrou na cidade de
Salvador, Quitéria foi saudada e homenageada pela população. Tornou-se exemplo
de bravura nos campos de batalha e foi promovida a cadete em 1823. Foi
condecorada no Rio de Janeiro com a Ordem Imperial do Cruzeiro do Sul, em uma
audiência especial onde recebeu a medalha das mãos do próprio imperador D.
Pedro I.
Reformada com o soldo de alferes, voltou para Bahia
com uma carta do Imperador dirigida a seu pai, pedindo que ela fosse perdoada
pela desobediência. Casou-se com um namorado antigo, o lavrador Gabriel Pereira
de Brito, com quem teve uma filha, Luisa Maria da Conceição. Viúva, mudou-se
para Feira de Santana, para tentar receber parte da herança do pai que havia
falecido em 1834. Desistindo do inventário mudou-se com a filha para Salvador,
onde morreu quase cega em total anonimato. Seus restos mortais estão sepultados
na Igreja Matriz do Santíssimo Sacramento no bairro de Nazaré em Salvador.[3]
[1]
Nota do tradutor:Maria Quitéria de Jesus. Trata-se do mais importante
depoimento pessoal acerca da famosa heroína baiana. Quase todos os estudos
sobre este vulto são “vasados sobre o escrito da ilustra inglesa” (Maria
Graham), diz o seu biógrafo. Cf. Fernando Alves, “Biografia de Maria Quitéria
de Jesus”, Salvador, 1952.
[2]
Nota do tradutor: Gonçalo Alves de Almeida. Era brasileiro, conforme declara em
seu testamento, e não português. Op. Cit. Pg. 66
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sábado, 5 de outubro de 2013
A MAIOR FAMÍLIA DO BRASIL
Com o título de "Cavalcanti: a saga da maior família do Brasil", o site "Guia do Estudante" publicou o texto que reproduzimos abaixo:
Como
o casamento entre um nobre florentino e uma mameluca pernambucana deu origem ao
poderoso clã dos Cavalcantis, a maior família do país
Rodrigo Cavalcante | 16/04/2012 16h50
Milhares de turistas brasileiros que
visitam Florença para conhecer sua famosa catedral ou admirar as obras da
Renascença na Galeria Uffizi não costumam prestar atenção na placa de rua da
Via Porta Rossa, uma pequena travessa da Via dei Calzaiuoli – essa, sim,
conhecida, por causa de suas lojas, como a mais animada da cidade. Logo abaixo
da placa de mármore da Via Porta Rossa, há outra menor, indicando que a rua já
foi chamada de Via Cavalcanti, nome de uma tradicional família florentina cujos
antepassados enriqueceram com o comércio e, entre os séculos 11 e 16, ocuparam
postos importantes na cidade. Dentre os Cavalcantis de Florença, o que ficou
mais conhecido foi o poeta Guido Cavalcanti, amigo de Dante Alighieri, que não
apenas lhe dedicou um soneto como também citou a família na Divina Comédia
(ainda que tenha colocado os Cavalcantis no inferno, assim como a maioria das
famílias ricas de Florença). Após o século 16, contudo, o sobrenome Cavalcanti
entrou em declínio na Europa e hoje é difícil encontrá-lo na cidade italiana.
Em compensação, quando o jovem florentino Filippo Cavalcanti decidiu atravessar
o Atlântico em algum momento da década de 1560 para operar engenhos de açúcar
em Pernambuco, ele fundou, sem saber, aquela que hoje é considerada a maior
família brasileira.
Maior
família brasileira? Mas esse posto não deveria pertencer aos brasileiríssimos
“Silva”? “Na verdade, o sobrenome Silva é mais numeroso, mas os Silvas são
oriundos de famílias diferentes, enquanto os Cavalcantis descendem todos do
mesmo ancestral”, afirma Carlos Barata, autor do Dicionário das Famílias
Brasileiras e presidente do Colégio Brasileiro de Genealogia.
Ele
concluiu que a família Cavalcanti (ou Cavalcante, a variante aportuguesada) é a
maior do país após pesquisar por mais de dez anos os descendentes das primeiras
famílias a chegar ao Brasil. “Tomei como ponto de partida as famílias
brasileiras no início da colonização e identifiquei o número de descendentes
por volta do século 17”, diz o genealogista. “Nesse período, os descendentes de
Filippo Cavalcanti já apareciam às centenas, numa expansão impressionante.”
Mas, afinal, qual a origem de Filippo Cavalcanti e o que o teria feito trocar
Florença, uma das cidades mais ricas do mundo, pela distante Pernambuco?
Se
hoje os consumidores aguardam com ansiedade por um novo lançamento da Apple, no
século 16 boa parte do mundo desejava os produtos importados por Florença.
Centro artístico e financeiro do planeta, as casas de comércio da cidade tinham
sucursais espalhadas pelas principais capitais europeias, de onde negociavam
artigos de luxo, como tecidos caros, obras de arte de grandes artistas da
Renascença.
E, especialmente, faziam empréstimos e outras transações financeiras que deram origem aos bancos modernos. Uma dessas casas florentinas que operam em Londres, a Bardi e Cavalcanti, era comandada pelo pai de Filippo, Giovanni Cavalcanti, e tinha como principal cliente o próprio rei da Inglaterra. Além de famoso pelos 6 casamentos, Henrique 8º era músico e poeta. Enfim, um monarca de gosto refinado e ávido por trazer à sua corte um pouco do esplendor artístico das cidades italianas. Para isso, contava com Giovanni, que mantinha correspondência com gente como Michelângelo e é citado pelo primeiro biógrafo dos artistas italianos, Giorgio Vasari, no livro As Vidas dos Artistas, pela encomenda de uma obra do pintor Rosso Fiorentino. Recentemente, o pesquisador Marcelo Bezerra Cavalcanti, coautor do livro Os Cavalcantis: na Itália, no Brasil, encontrou num arquivo de Florença uma carta de Henrique 8º endereçada a Giovanni em solidariedade a um confisco de bens de que sua casa comercial fora alvo em Florença.
E, especialmente, faziam empréstimos e outras transações financeiras que deram origem aos bancos modernos. Uma dessas casas florentinas que operam em Londres, a Bardi e Cavalcanti, era comandada pelo pai de Filippo, Giovanni Cavalcanti, e tinha como principal cliente o próprio rei da Inglaterra. Além de famoso pelos 6 casamentos, Henrique 8º era músico e poeta. Enfim, um monarca de gosto refinado e ávido por trazer à sua corte um pouco do esplendor artístico das cidades italianas. Para isso, contava com Giovanni, que mantinha correspondência com gente como Michelângelo e é citado pelo primeiro biógrafo dos artistas italianos, Giorgio Vasari, no livro As Vidas dos Artistas, pela encomenda de uma obra do pintor Rosso Fiorentino. Recentemente, o pesquisador Marcelo Bezerra Cavalcanti, coautor do livro Os Cavalcantis: na Itália, no Brasil, encontrou num arquivo de Florença uma carta de Henrique 8º endereçada a Giovanni em solidariedade a um confisco de bens de que sua casa comercial fora alvo em Florença.
Mas,
se a vida de Giovanni Cavalcanti é relativamente bem conhecida, as razões que
trouxeram seu filho Filippo ao Brasil permanecem vagas. Sabe-se que em 1558 ele
se encontrava em Lisboa quando pediu uma Certidão de Nobreza ao duque Cosimo de
Medici, que respondeu atestando que os Cavalcantis em Florença “resplandecem
com singular nobreza e luzimento”. Enfim, uma carta de recomendação importante
em um tempo em que a linhagem familiar valia bem mais para o mundo dos negócios
do que hoje vale um MBA de Harvard. Até agora, há duas hipóteses sobre a viagem
do jovem Filippo ao Brasil – e não necessariamente excludentes. A primeira,
clara, era o interesse no comércio de açúcar, que apesar da recente expansão de
produção ainda era considerado um artigo de luxo na Europa. O historiador
Sérgio Buarque de Holanda, após viver dois anos na Itália na década de 1950,
ensinando na Universidade de Roma, escreveu um artigo sobre os projetos de
colonização e comércio toscanos no Brasil durante o tempo do grão-duque
Fernando I (1587-1609), mostrando como a costa brasileira já estava na mira dos
italianos há tempos. Antes mesmo de o Nordeste se tornar uma potência mundial
na produção do açúcar, o interesse comercial dos italianos nas técnicas de
plantio, produção e refino fez com que muitos viajassem para as ilhas
portuguesas no Atlântico, que serviram de modelo para a futura colonização do
Nordeste. Assim como fariam mais tarde os holandeses, comerciantes de Gênova,
Florença e Veneza eram especialistas na importação desses artigos do Novo Mundo
para reexportá-los com boa margem de lucro para o resto da Europa.
Além
do interesse no açúcar, outro motivo que pode ter trazido Filippo ao Brasil foi
buscar refúgio das sanguinolentas disputas de poder em Florença, descritas pela
primeira vez com realismo anos antes por Nicolau Maquiavel. No lugar de um
poder central forte nas mãos de um monarca, a exemplo de outros nascentes
Estados europeus, como Portugal, França e Espanha, o poder na instável
República Florentina só era alcançado por meio de conchavos e arranjos
políticos bancados pelas famílias mais ricas da cidade. Em meio a esse sistema
de rodízio de mando, nem mesmo a toda-poderosa família Medici estava livre de
golpes, conspirações e tentativas de assassinato, que ocorriam em qualquer
lugar. Em 1478, por exemplo, o jovem Juliano de Medici foi assassinado em plena
catedral de Florença, alvo de um atentado planejado pela família Pazzi – que
também pretendia matar o irmão de Juliano, Lorenzo de Medici, que se salvou ao
conseguiu se esconder na sacristia. Em 1559, ano em que Filippo Cavalcanti já
estava em Lisboa, outra conspiração contra os Medicis, desta vez para
assassinar o grão-duque Cosimo 1º, foi descoberta a tempo.
Conhecida
como conspiração Pandolfo Pucci (pelo membro da família Pucci que tomou parte e
foi condenado à morte), o planejamento teria contado com participantes de
outras famílias, incluindo Bartolomeu Cavalcanti, parente de Filippo. “Ainda
que Filippo Cavalcanti não tenha tido nenhuma ligação com o atentado, era
prudente que permanecesse longe de Florença”, diz a historiadora Rosa Sampaio
Torres, que estuda as ligações dos clã com os movimentos políticos da época.
Segundo a historiadora, a trajetória republicana dos Cavalcantis em Florença
teria influenciado os movimentos de inconformismo político que marcariam
Pernambuco nos séculos seguintes, por exemplo.
Motivações
políticas à parte, o fato é que, no Brasil, Filippo Cavalcanti tratou logo de
arranjar uma noiva para se associar às famílias importantes da região. E a
jovem Catarina de Albuquerque preenchia tais requisitos. Filha do português
Jerônimo de Albuquerque (cunhado de Duarte Coelho, donatário de Pernambuco) com
a índia Tabira, Catarina era uma legítima mameluca brasileira. Conta a história
que sua mãe salvou Jerônimo de ser morto pelos tabajaras após o capitão
português ser atingido em um dos olhos por uma flecha. Ao casar com a índia,
Jerônimo selou a paz com os índios e batizou a esposa com o nome cristão de
Maria do Espírito Santo Arcoverde. Com seu casamento, Filippo Cavalcanti não
apenas ingressou na família dos donatários portugueses, como também definiu um
dos padrões genéticos das famílias brasileiras, segundo pesquisas da
Universidade Federal de Minas Gerais, pelas quais 90% dos brasileiros tinham
genes europeus do lado paterno e 60%, genes ameríndios ou africanos por parte
de mãe.
No
total, Catarina e Filippo tiveram 11 filhos (foram 12, mas o primogênito morreu
na infância). Um bom número de descendentes, mas não anormal para a época. O
sogro de Filippo, Jerônimo de Albuquerque, teve 24 filhos, o que lhe valeu o
apelido de Adão Pernambucano. Apesar de a prole de Jerônimo de Albuquerque ser
maior do que a do genro, por algum motivo o sobrenome Cavalcanti aparece em
maior quantidade nas gerações seguintes”, diz o genealogista Fábio Arruda de
Lima, há mais de dez anos dedicado a pesquisar a origem dos sobrenomes de
famílias nordestinas por meio dos engenhos da região.
Para o genealogista Lima, o sobrenome pode ter se espalhado graças a um reforço feminino. “Muitas mulheres preservaram o sobrenome associado ao do marido, formando relações entre os Cavalcantis e outras famílias importantes, com ramos como Holanda Cavalcanti, Albuquerque Cavalcanti e Acioli Cavalcanti, por exemplo.”
Para o genealogista Lima, o sobrenome pode ter se espalhado graças a um reforço feminino. “Muitas mulheres preservaram o sobrenome associado ao do marido, formando relações entre os Cavalcantis e outras famílias importantes, com ramos como Holanda Cavalcanti, Albuquerque Cavalcanti e Acioli Cavalcanti, por exemplo.”
Desde
que Fillipo recebeu a doação em 1572 de uma sesmaria para montar o primeiro dos
3 engenhos que viria a ter em Pernambuco, os Cavalcantis se expandiram ligados
à açucarocracia local, tendo seus engenhos mais tarde descritos nos relatórios
da Companhia das Índias Ocidentais, durante o período da invasão holandesa no
Nordeste (1630-1654). A tradição perdurou até o século 19, quando um dos ramos
da família em Pernambuco passou a ocupar cargos no Império.
É
o caso, por exemplo, dos Cavalcanti de Albuquerque, que por mais de uma vez
foram presidentes de Pernambuco (o equivalente ao atual cargo de governador),
ocuparam cadeiras na Câmara, no Senado e em ministérios importantes de dom
Pedro 2º, como o da fazenda e da guerra, e receberam do imperador o título de
visconde. De tanto poder, surgiu nesse período uma estrofe que circulava na
região: “Quem nasceu em Pernambuco, há de estar desenganado: ou se é um
Cavalcanti ou se é um cavalgado”. Quando, na virada do século 19 para o 20, as
plantações de café no Sudeste sobrepujaram as de açúcar no Nordeste, os
Cavalcantis já haviam se espalhado por todo o país. No momento em que a
presença italiana atingiu o apogeu por aqui, quase mais ninguém associava os Cavalcantis
ao florentino que, no século 16, saiu da Toscana para fundar engenhos em
Pernambuco. Diferentemente dos recém-imigrados da Itália, os Cavalcantis já
tinham mais de três séculos de presença no Brasil. Não é à toa que, mesmo quem
não tem o sobrenome Cavalcanti pode ser descendente de Filippo. Alguns
exemplos: o compositor Chico Buarque de Holanda (descendente dos Holanda
Cavalcanti), o escritor Ariano Suassuna (Suassuna foi o nome de um engenho dos
Cavalcantis) e o jurista Evandro Lins e Silva. Todos, por sua vez, são primos
distantes de PC (Cavalcanti) Farias, do comediante Tom Cavalcante e de outros
milhões que tornaram os Cavalcantis uma família brasileiríssima, com ou sem
Silva.
O BRASÃO
O brasão original, florentino, era prateado com cruzetas vermelhas. No Brasil, o escudo foi incrementado com outros padrões, como o leão rampante, duas flores-de-lis (um símbolo da origem nobre da família), um elmo de prata com um hipogrifo – criatura lendária com corpo de égua e cabeça de águia.
O POETA
Guido (1255-1300), o mais famoso Cavalcanti florentino, foi amigo de Dante Alighieri, poeta e político célebre.
Saiba Mais
O BRASÃO
O brasão original, florentino, era prateado com cruzetas vermelhas. No Brasil, o escudo foi incrementado com outros padrões, como o leão rampante, duas flores-de-lis (um símbolo da origem nobre da família), um elmo de prata com um hipogrifo – criatura lendária com corpo de égua e cabeça de águia.
O POETA
Guido (1255-1300), o mais famoso Cavalcanti florentino, foi amigo de Dante Alighieri, poeta e político célebre.
Saiba Mais
LIVRO
Os
Cavalcantis, Cássia Albuquerque, Fábio Arruda de Lima, Marcelo Bezerra
Cavalcanti e Francisco Antonio Doria, Edições do Jardim da Casa, 2011
sexta-feira, 27 de setembro de 2013
O DEFENSOR DO PRINCÍPIO DA MAIORIA TEM MEDO DESSA MESMA MAIORIA?
Um dos princípios essenciais que
regem as constituições modernas, inclusive a nossa, é o do sufrágio universal.
Baseia-se ele na tese de que a maioria deve prevalecer para se fazer com que o direito seja corretamente aplicado.
Não se cogita aqui se tal
princípio é ou não correto, mas que ele vigora, apesar de opiniões contrárias; no entanto, não foi com base nesse princípio
universal que o STF aprovou temas tão controversos, como:
a – aborto de anencéfalos, tema polêmico,
mas com imensa maioria contrária;
b – liberalização das passeatas em defesa
da maconha, não desejada pela imensa maioria de nosso povo;
c – casamento homossexual, tema também
muito controverso, mas desejado apenas por uma minoria irrisória;
d – aceitação dos embargos infringentes aos
acusados do mensalão, permitindo uma liberal e grande chance de defesa aos
criminosos, coisa incomum e não acessível a outros delitos analisados pela mesma corte.
Segundo o último ministro a votar, a suprema corte precisa
agir com liberdade, sem pressões de qualquer espécie, pois nisso reside o
respeito ao estado de direito. O Ministro foi porta-voz dos outros cinco, não
falou por si somente. Mas, usando de tal argumento, caiu numa contradição, pois
se a maioria merece ser ouvida não quer dizer que erra quem a segue como se
fosse coagido por ela, nem também que a mesma esteja sempre correta. Acatar ou não a maioria é, pois, indiferente
no que diz respeito à verdade. E o que
ficou patente para toda a população, para a maioria, portanto, é que ele e seus
cinco companheiros sacramentaram a impunidade. Mais uma vez. E que, certamente,
estão com a razão os cinco que votaram contra os embargos, e votaram não porque
sofreram pressões, mas porque tiveram liberdade para aplicar a lei aos
criminosos. Enfim, 5 tiverem liberdade
para acertar e seis para errar; estes
últimos erraram certamente por causa de suas afinidades comprovadas com os
culpados.
Mas, os ministros, ao votarem contra a maioria do povo, têm
medo dela? Como, se a enfrentaram e até foram contra ela? É contraditório, mas,
na realidade, o medo deles não é da maioria, mas de ficar mal perante o seu
grupo: o argumento da pressão popular, da maioria, pois, é apenas um
subterfúgio, um sofisma para justificar o voto impopular que beneficia o grupo
de amigos. A afirmação da necessidade do voto ser livre de pressões é mais uma
desculpa esfarrapada para justificar sua incômoda situação.
Se analisarmos bem, todos os votos que eles já emitiram nos
últimos dias, especialmente em temas polêmicos, o fizeram com solene desprezo
da maioria. A aprovação do aborto, da liberação da passeata da maconha, do
casamento homossexual, etc., etc. Desde o momento em que a moral se tornou um
elemento alheio à Justiça, esta começou a errar e a cometer injustiças. Homens
sem moral não conseguirão nunca fazer prevalecer a justiça. E eles não
respeitaram nem sequer a “moral” republicana, que manda respeitar o princípio
da maioria, do sufrágio universal que a Constituição erigiu como coluna mestra
do direito moderno. Certamente vão dizer que não caberia aqui tal princípio, só
utilizado no caso das eleições. Ora, se tal princípio existe como normal geral
da constituição, embora seja mais usado no caso de eleições, não quer dizer que
ele perca seu valor nos casos comuns de decisões importantes para a população. Sufrágio é o direito que o indivíduo tem de
exercer sua cidadania, é a essência do direito político. Nossa constituição diz que “a soberania
popular é exercida pelo sufrágio universal e pelo voto direto e secreto, etc.”: neste texto ambas as coisas são distintas – o
voto e o sufrágio universal. A população quando reclama perante o STF que
criminosos sejam punidos na forma da lei está, assim, cumprindo o princípio constitucional
do chamado sufrágio universal. Com a palavra os especialistas do direito...
terça-feira, 23 de julho de 2013
quinta-feira, 18 de julho de 2013
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