quarta-feira, 13 de fevereiro de 2008

Um admirador da natureza enquanto Obra divina

Dentre os papéis deixados, encontramos o relato abaixo que o sr. Batista fez sobre a natureza:
“Desde que eu resolvi escrever a história da minha vida, acho que dá para entender bem o que sou e o que penso. Mas, hoje quando se aproxima o fim da minha caminhada eu queria falar de um sentimento que guardei até hoje no íntimo do meu ser.
Talvez hoje devido à minha idade avançada alguém considera este assunto como uma espécie de arteriosclerose, mas isto não importa para mim, o importante é escrever o que penso e o que sinto, é o seguinte:
Desde o começo da minha vida eu sempre tive muito apego às coisas da natureza. Mas hoje, com a experiência que tenho, cada dia que passa eu descubro que as obras da natureza são criadas por Deus, portanto são também nossas irmãs, e comigo ultimamente vem acontecendo o seguinte: no meu quintal, como vocês sabem, tem vários pés de árvores, como goiabeiras, cajueiros, abacateiros, sapotizeiros, coqueiros e ateiras, e para mim hoje estas fruteiras são consideradas como uma outra família que construí no decorrer da minha caminhada, hoje eu sinto por esta outra família um apego, um amor, um carinho que não sei explicar, mas quando me sinto triste, magoado, sem saber a quem recorrer é a estas criaturas que recorro, fico alguns minutos abraçado ao meu cajueiro, na goiabeira, logo me sinto feliz, aquele perfume das flores, menear das folhas, é como se elas tivessem me acariciando, me dando muita paz, e dali saio forte, aliviado e desperto a seguir a caminhada como se aquilo para mim fosse um alimento para o corpo, mas principalmente para a alma, pois as coisas da natureza são criaturas criadas por Deus e são puras e sem máculas. Não sei se estou certo, mas quero continuar assim até meus últimos dias, eu acho que tudo que Deus fez é bem feito e nós devemos respeitar toda criação, seja a natureza humana, animal ou vegetal, mesmo com as diferenças que há entre todas as criaturas, devemos aceitar e até amar, pois foi tudo criado por Deus, principalmente os seres humanos que Deus criou à sua imagem e semelhança, todos estes pensamentos fazem bem à alma e ao coração. Alguém luta pela igualdade, mas às vezes estes pensamentos estão errados e não agradam a Deus.
Um poeta já escrevia sobre a igualdade e dizia assim:
Para crer que existe Deus
Não precisamos de mais
Do que olhar a nós próprios
E para os irracionais:
Tantos viventes que existem
E todos são desiguais”.

Em um outro documento, o Sr. Batista relata uma espécie de êxtase que teve quando contemplou uma linda paisagem no sertão da Bahia. Estava ele visitando seus dois filhos que moravam em Jacobina, em 1987, quando se deu o que ele chamou de “êxtase”, maravilhamento, digamos nós, pela natureza que havia a seu redor:

“Jacobina, 24 de julho de 1987
Eu estava na casa do meu filho Francisco Antonio, em Jacobina, Bahia. Neste dia amanheci um pouco confuso, tomei o café da manhã mas fiquei inquieto, não sabia o que queria. Voltei para a cama, fazia frio. Em poucos minutos notei que não era aquilo que eu queria. Me levantei. Era mais ou menos 9 horas. Nestas horas eu gosto sempre de fazer uma leitura, mas desta vez não tinha vontade para nada, não queria ler nem ver televisão.
Daí resolvi fazer uma caminhada. Saí beirando um rio que corre entre duas serras
[1] , até uns 100 metros havia algumas casas, depois o caminho ficou deserto, não se via mais casas nem pessoas, nem animais, era só o contato com a natureza. O caminho onde eu passava ficava a uns 10 metros de altura para a correnteza do rio. Daí eu fiquei como se estivesse em êxtase. Para todo lado que eu olhava tudo era obra da natureza, as águas, as árvores, os rochedos, as flores, e eu continuei caminhando, observando tudo que havia naquele caminho deserto e sem fim. Tive então o desejo de descer até a beira do rio, banhar minhas mãos naquelas águas claras com cheiro de pureza.
Encontrei um lugar íngreme mas dava para descer. Antes de enfrentar aquele perigo comecei a pensar: será que vai acontecer alguma coisa comigo? Aí me lembrei da proteção divina e comecei a cantar “Segura na mão de Deus e vai”. E foi o que fiz, enfrentei aquela barreira, ora de cócoras, ora de quatro pés, mas consegui chegar no lugar desejado. Sentei-me na beira do rio, lavei as mãos naquelas águas descidas das serras com cheiro de ervas, de lodo, mas tudo era obra da natureza. Subi novamente a barreira e continuei caminhando. Logo em seguida avistei um homem que quebrava pedras. Depois ouvi um tiro: era alguém que caçava passarinhos.
Já no fim da caminhada avistei uma cascata que vinha do alto da serra, corria água a uns 100 metros de altura. Depois de observar tudo resolvi voltar, mas durante toda esta caminhada eu conversava comigo mesmo como se estivesse num Paraíso terrestre, todo aquele trajeto eu não pensei em nada nem em ninguém. Aí pensei: se a gente pudesse viver assim, longe de tudo e de todos, sem dizer nem ouvir conversas, só com pureza das árvores, das flores, das águas, das pedras”.

Aqui termina seu relato, talvez fruto de agradáveis recordações dos tempos em que ele morava no sertão do Rio Grande do Norte, e onde a natureza deve ser menos exuberante mas sempre contendo aquele aspecto bucólico que tanto bem faz à alma humana.




[1] Trata-se do "Rio do Ouro" que serpenteia entre as serras de Jacobina, na Bahia.

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