quarta-feira, 31 de agosto de 2016

SENSO DE DIREÇÃO OU DE ORIENTAÇÃO



Todo ser animal tem senso de direção inato. Trata-se do sentido que o faz saber para onde vai e o que buscar. Alguns têm o sentido de direção ou orientação mais aguçado do que outros, mas a maioria o possuem em grau apenas necessário para mover-se em pequenos espaços e poucos deslocamentos. Mas, outros não; possuem sentidos, como os olhos da águia ou o olfato do cão, para sentir e percorrer maiores distâncias sem perder-se. Por exemplo, os gnus viajam centenas de quilômetros na planície do Serengueti, na Africa, por matas, morros e rios, com o fim único de fugir da seca e procurar alimentos. Da mesma forma, há espécies de peixes que nadam centenas e até milhares de quilômetros pelas entranhas do oceano, em profundidades que não lhes permitem sequer alguma orientação com os astros, migrando para áreas longínquas, ou para desovar tranquilamente seus alevinos ou mesmo por causa do clima diferente. Há também aves que voam distâncias enormes em suas viagens migratórias, como, por exemplo, as chamadas “aves de arribação” que atravessam o Atlântico aos milhares, da África para o Nordeste brasileiro, simplesmente para pôr seus ovos e ter suas crias. Depois, fazem a viagem de volta, desta vez com a companhia dos filhotes.
Este senso de direção ou de orientação é essencial para que os animais desempenhem sua auto-regência, possam ter o domínio sobre si que Deus deixou para que cumpram bem seus dias de vida. Mas, apesar de alguns o possuírem de uma forma até sofisticada (como os morcegos, os quais, mesmo cegos, voam e não se chocam contra os obstáculos à sua frente), não há uma só espécie que consiga fazer com que tal senso cresça ou atinja outros graus: tudo o que fazem não são nada senão fruto de sua própria natureza. As pequenas abelhas e as formigas, em seu micro mundo, pode-se dizer que possuem tal senso em grau muito elevado, mas não conseguem ir além daquilo com que foram criadas.
Quanto ao ser humano, possui o senso de direção ou de orientação que se desenvolve de acordo com cada indivíduo em alto grau, podendo alguns chegar a maiores perfeições, outros ficarem estagnados e outros até mesmo retrocederem em seus atributos inatos. Nosso senso de orientação nos faz seguir para qualquer lugar do universo, seja nas entranhas da terra, no ar ou nas profundezas do oceano, sem que se perca, sem que não saiba para que destino seguir nem para onde voltar. Até mesmo no cosmo o senso de orientação do homem é perfeito, fazendo com que o mesmo possa viajar para qualquer astro (se isso for possível) sem que perca o caminho de volta. É claro que poderá haver situações em que determinado indivíduo, ou mesmo grupo, se perca momentaneamente e não ache seu senso de direção. Mas, isto são situações anormais que ocorrem esporadicamente por causa de fatores que perturbem os sentidos humanos em certo espaço de tempo.
Há pessoas que têm tal senso em alto grau, entrando e saindo em cidades grandes, cheias de ruas, de edifícios e complicados labirintos, guardando em sua memória todo o roteiro de ida e vinda dos lugares; o mesmo ocorre com outros que conseguem guiar-se de uma forma inerrante no meio da mata, ou até mesmo no meio do mar. Mas, há também pessoas que têm tal senso em grau diminuto e não conseguem memorizar com facilidade os lugares que vão, nem como conseguiriam voltar para o ponto de partida. Isso mostra como cada ser humano consegue aprimorar em si mesmo o sentido de auto-regência contido no senso de orientação. Alguns têm, até, certas deficiências naturais que os impedem de ser perfeitos nisso.
Mas, engana-se quem pensa que tal senso de orientação no homem só funciona para sua locomoção. Este senso é utilizado para muito além do simples deslocar-se de um lugar para outro. Por exemplo, o homem desenvolve tal senso quando pensa em seu futuro ou no de seus filhos, quando procura estudar para uma carreira promissora, quando procura juntar algumas economias para se prevenir para as incertezas do seu porvir, etc. Esta preocupação é uma fase mais avançada do senso de orientação, coisa que os animais irracionais não possuem. E o homem possui este senso nesta fase assim adiantada porque possui alma, porque tem o elemento espiritual que rege todo o seu ser. E é esse senso que o leva a conhecer em seu interior a necessidade de praticar a virtude da Esperança, pois tudo o que ele pensar em seu interior como preparação para o futuro, seguindo tudo pelo senso de orientação, termina por levá-lo a conceber a necessidade de “esperar” sempre que tudo corra bem: a Esperança torna-se, assim, a certeza do bom êxito naquilo que almeja para o porvir.
A neurofisiologia afirma que todas as funções cerebrais se realizam mediante Atos Reflexos. Inclu­sive as funções mais complexas que formam a base dos fenômenos psíquicos. São de dois tipos: os Atos Reflexos Incondicionados e os Atos Reflexos Condicionados. Os primeiros são aqueles inatos, já nos acompanham desde o nascimento. Em geral, assim como os animais irracionais, os atos reflexos incondicionados são aqueles que se destinam à nossa própria sobrevivência, o instinto de conservação. Há outros atos, porém, que vão além e se destinam, por exemplo, à nossa defesa, nos orientando para que nos afastemos de tudo o que seja risco para nós ou para aqueles que amamos. E, indo mais além, existem os “atos reflexos de orientação”, que guiam o homem para onde vai, para onde vem, o que vai fazer naquele dia, naquela semana ou mês, ou doravante em toda a sua vida, o que pretende ser no futuro, etc.,
Este “ato reflexo” ou senso de orientação desperta no homem dois outros sentidos externos: o assombro e a curiosidade. O assombro se refere ao maravilhamento pelo belo, o bom e o pulcro. A curiosidade pode levá-lo ao conhecimento, ao saber.  Tanto o assombro quanto à curiosidade, e suas conseqüências, como o maravilhamento e a procura do saber, levam o homem ao amor de Deus. No animai irracional, o máximo que tais reflexos de orientação podem causar externamente é a busca da segurança através do medo, um ato reflexo incondicionado de todo ser animal.
Tais atos reflexos ou senso de orientação se manifestam de acordo com as condições de vida e de educação do indivíduo. Ao selecionar estímulos capazes de produzir reflexos condicionados, o córtex cerebral estará realizando uma atividade de síntese e de análise, necessári­as para se alcançar a adaptação indispensável às condições de vida e de equilíbrio com o meio. Se­ria, portanto, uma atividade psicológica aliada aos estímulos nervosos. E por ser “síntese” e “análise” estão ligadas ao ato de julgar pertencente ao poder de regência. Aí entram em ação também a memória e a consciência.
As pessoas que possuem tal senso de orientação em grau maior do que os demais, usam-no para ser guias, orientadores das outras pessoas, assim como o fazem também os Santos Anjos.





sábado, 26 de março de 2016

REMINISCÊNCIAS DE DONA RAIMUNDA


Em visita à casa da mãe nas inúmeras viagens que fiz a Fortaleza, sentamo-nos, como era costume, na varanda de frente, quando ela então passou a narrar suas lembranças de outrora.

Dados da família:
- 1⁰ casamento da vovó Bárbara, cujo nome de solteira era Bárbara Josino da Costa (ou de Oliveira). Após o casamento com Maximino Alexandre Fernandes, mudou o nome para Bárbara Josino Fernandes.
Filhos de Bábara:
Francisco Josino Fernandes (conhecido como “Nenen”), nascido em 1906; Rita Fernandes da Costa (depois mudado para Holanda após o casamento), nascida em 1909; Luiz Fernandes da Costa, nascido em 1911; João Josino da Costa, nascido em 1915 e, Maria Fernandes da Costa (mudado para Lima após o casamento), nascida em 1913.
2⁰ casamento da vovó Bárbara: com Francisco Cavalcante de Paiva, mudando o nome para Bárbara Josino Cavalcante.
Filhos: Raimunda Josino Cavalcante, nascida em 30.6.1919; Alcebíades Josino de Paiva, nascido em 1920; Telina Josino Cavalcante (depois Amorim), nascida em 1922; Hilda Josino Cavalcante (depois Pereira), nascida em 1914 e Antonia Josino de Paiva (cujo sobrenome permaneceu no casamento, o mesmo do marido que era também Paiva), nascida em 1926.
Vovó Bárbara faleceu em abril de 1952, de ataque cardíaco. Vovô Francisco faleceu em junho de 1971, de câncer no pâncreas. Este casou-se uma segunda vez com dona Edwigens Feitosa (depos Paiva), tendo como filha única Maria José de Paiva Cavalcante (depois mudado para Feijó).

Os filhos de dona Raimunda

O primeiro, João Batista Neto, nascido a 8 de março de 1938; o segundo, Francisco Assis Cavalcante, nascido a 20 de julho de 1939; o terceiro com o nome de Jurandir, nascido talvez em 1941, faleceu de desidratação aos dois anos (enquanto ele morria o outro nascia); o quarto, Francisco Cavalcante Neto, nascido a 4 de agosto de 1943. Todos estes quatro primeiro filhos nasceram no Rio Grande do Norte, portanto, nas mãos de parteiras.
O quinto filho, Juraci Josino Cavalcante, nasceu a 8 de agosto de 1946, sendo o primeiro a nascer em Fortaleza, e numa maternidade (“Maternidade César Cals”); Quanto ao sexto, Jurandir Josino Cavalcante, que teve o mesmo nome do outro falecido, nasceu a 20 de agosto de 1948, mas não deu tempo de levá-lo à maternidade, nasceu em casa mesmo.
Maria das Graças Josino Cavalcante, sexto filho, e única mulher, nasceu a 6 de outubro de 1950, na casa de saúde São Raimundo.
Os dois últimos filhos foram Jair Josino Cavalcante, nascido a 11 de novembro de 1954, e Francisco Antonio Josino Cavalcante, a 8 de março de 1958, ambos na maternidade César Cals.
Desta forma, ela criou oito filhos, sendo sete homens e  uma mulher.


Exemplo de concórdia entre casais
Mamãe conta que, ao chegar a Fortaleza, dedicou-se à arte de corte e costura a fim de ajudar papai nas despesas da casa. Certo dia, uma freguesa lhe encomendou um vestido e pediu que usasse o tecido com as figuras nele desenhadas de cabeça para cima. Na hora de confeccionar a roupa, mamãe errou e colocou as figuras de cabeça para baixo. Constrangida, disse ao papai que tinha de comprar outro pano e fazer o vestido novamente da forma que a cliente havia pedido. Mas, ele lhe falou secamente que não fosse comprar outro pano. Ela nada respondeu, porém, caladinha, foi à rua (ao centro da cidade, onde se vendiam os tecidos) e comprou o pano. Chegando à casa  fez novamente o vestido, desta vez da forma como havia pedido a cliente.
Ao terminá-lo, porém, teve uma ingrata surpresa. Papai apareceu na frente dela, repentinamente, e com um fósforo aceso queimou o vestido.  Isto sem dizer uma palavra. Ela, também sem nada dizer, pôs-se a chorar, olhando com tristeza o fruto de seu trabalho ser consumido pelo fogo. Papai saiu dali sem dizer uma palavra. Depois de algum tempo, arrependido, chegava da rua com o tecido que ele agora tinha ido comprar. Entregou a ela para que fizesse novamente o vestido, e o assunto foi assim encerrado.

O ciúme das parentes
Os primeiros anos de casamento eles passaram no Rio Grande do Norte, no lugar Passagem Limpa e Portalegre. Antes, e algum tempo após o casamento, mamãe se dedicava a fazer rendas (de bilros), bordados e redes (que a mãe dela, a vovó Bárbara, fazia no tear, e ela a ajudava).
Mamãe sempre demonstrou ter muito ciúme de suas cunhadas, as irmãs do papai: Anália, Antonia, Salomé e Rita. O pior caso ocorreu com Anália, a mais nova de todas. Quando papai e mamãe se casaram foram morar na casa dele, onde também residia todos seus irmãos, as citadas irmãs mais o de menor idade, Hermes. Seus pais haviam falecido quando papai ainda era bem jovem: perdeu a mãe com doze e o pai com dezesseis anos de idade. Os irmãos mais velhos (Pedro e Doca) haviam se casado e deixado papai como arrimo das mulheres e do mais novo. Não havendo com quem deixar os cuidados das irmãs e do irmão, o jeito foi trazer a esposa para dentro de casa.
O primeiro desentendimento da mamãe com as cunhadas foi quando ela foi atacada por uma vaca (tendo  escapado da mesma subindo numa pedra), enquanto suas cunhadas riam dela. Chegando à casa foi queixar-se com o papai, mas este ralhou com ela por haver tido mede da rês. Estava em início de gravidez e  poucos dias depois abortou seu primeiro filho, o que fez papai ficar muito arrependido de ter brigado com mamãe, supondo ele que, provavelmente por causa disso, ela perdeu o filho.
No entanto, passados alguns dias a coisa foi ficando cada vez mais tensa, especialmente com a cunhada Anália, a mais birrenta. Segundo a mamãe, as irmãs do papai nada faziam para ajudar nas despesas e limpeza da casa, só a mamãe é que trabalhava e tentava ganhar algum dinheiro. Um dia, ela discutiu com a Anália e ameaçou-a botar para fora de casa. E esta última a desafiou, dizendo que estava na casa do irmão dela, que era quem mandava ali. Mamãe não agüentou e exigiu que ela saísse.
Quando papai chega do trabalho, Anália correu logo a lhe fazer queixas e disse que daquela casa não saía, pois era a sua casa. Papai, calado como sempre, nada respondeu;  mas, passados alguns instantes, chamou a mamãe para ajudá-lo em alguma coisa fora da casa e assim falar a sós com ela. Chegando lá ele disse à mamãe que ela tinha de tolerar a irmã dele morando com ela sem brigas, e deu seus argumentos. Mamãe ficou irredutível e disse que exigia que ela  saísse de casa. Papai então foi duro com ela e disse que se não quisesse morar com a irmã dele, e cunhada dela, ele a largaria, o casamento estava acabado.
Aquela exigência e aquelas palavras foram muito duras para ela, que o amava muito e não desejava nunca que houvesse uma separação. Ficou pensativa e acedeu: resolveu concordar em que a Anália ficasse morando na casa com eles.
Mas, os desentendimentos eram constantes, sempre voltavam, e o convívio se tornava insuportável.  Papai resolveu, então, sair para outra casa e deixar seus irmãos morando em casa separados deles. Resolveu assim salvar diplomaticamente seu casamento, embora isso lhe custasse muito por causa do grande amor que nutria por seus irmãos.

Notícias sobre ancestrais mais remotos
Declarações da mamãe:
“Meu avô materno se chamava João Josino e era originário de Tibau, no Rio Grande do Norte. Dizia ele que sua família , a Josino, era descendente da Holanda. Certo dia, quando eu estava com três anos de idade, meu pai levou a  família para morar em Areia Branca, próximo  de Tibau. Minhas irmãs mais velhas (do primeiro casamento da mamãe) saíram para a praia e me deixaram em casa com a mamãe. Então eu chorei tanto para ir também com elas para a  praia que adormeci (consolada pela mamãe) e quando acordei estava toda dormente de tanta raiva. Demoramos pouco tempo em Areia Branca, logo voltamos para nossa casa em Portalegre. Mas lá em Portalegre a família terminou por se separar. Um dia, meu pai bateu em Maria, que era muito geniosa, e causou revolta nos outros filhos, principalmente nas minhas irmãs mais velhas, causando tremenda confusão que fez nos separar. Logo minhas irmãs foram morar  separadas, pois não aceitavam o rigor com que papai as tratava”.

O gavião
Quando ainda estavam recém casados, mas sem filhos ainda, certo dia veio um gavião e desceu sobre os pintos para pegar um deles, mas no momento exato errou o bote, bateu-se em alguma coisa e ficou ferido no chão. Papai foi tentar enxotar a ave, mas ela brigou com ele, com pena do animal, dizendo que o soltasse e deixasse voar e ir embora. Porém, repentinamente, o gavião atacou papai e o feriu no rosto.  Vendo-o com o rosto sangrando, mamãe não contou conversa: pegou um pau e partiu pra cima do bicho com raiva. Nesse momento, ela lembra que papai lhe disse: “Eis uma prova de que  você  realmente gosta de mim”.

O ganha-pão
Antes de se casar, mamãe conta que fazia renda de bilro, costurava, bordava e fazia redes para ajudar nas despesas de casa. Quanto ao  papai, este já havia se acostumado desde muito jovem aos trabalhos da lavoura, e com isso sustentava a si e a seus irmãos. Havia ficado órfão de mãe aos 12,  e de pai aos 16 anos de idade. Trabalhava na roça plantando milho, feijão e mandioca. Mas também criava caprinos e porcos para engorda e venda nas feiras livres. Muitas vezes ele mesmo matava uma criação e um porco, indo em seguida vender a carne para com isso ter o sustento da família.
Personalidades dos cunhados e cunhadas, segundo a mamãe:
- Anália: preguiçosa e arrogante, queria mandar em tudo e vivia pirraçando a cunhada;
- Antonia: a mais  velha, tinha um pouco de tudo isso, mas em grau menor. Era mais compreensiva, mas também não trabalhava para ajudar o irmão;
- Salomé: já era casada e vivia com seu marido;
Rita: também preguiçosa, não ajudava o irmão em nada;
Hermes; desde cedo revelou-se irresponsável, jogador, e se aproveitava da bondade do irmão que o sustentava;
Pedro e Doca: eram já casados, viviam em suas casas com suas  esposas.

O regenerado
Mamãe conta que havia um casal, seu vizinho, que foi pra ela exemplo de concórdia e de fidelidade. No início do casamento o marido agia com muita brutalidade e grosseria com a esposa. Esta, porém, suportava tudo calada, sem nada reclamar. Os dias foram se passando e aquele homem sempre a tratar mal a sua  esposa sem que ela nada replicasse,  suportando tudo calada e com resignação cristã.
Certo dia, o homem tratou a esposa como era costume e, vendo-a  resignada sem nada replicar, parou, ficou olhando admirado e  pasmado para a esposa e disse:
- “Meu Deus, eu não mereço ter uma esposa tão boa. Sendo assim, a partir de hoje vou mudar de vida e vou lhe tratar com carinho e amor”.
Realmente, a partir daquele dia o marido mudou completamente e comportamento e, segundo a mamãe, viveram muitos anos juntos em santa harmonia.

Os filhos mais doentes
Mamãe diz que os filhos  que lhe deram mais trabalho com doenças foram os  primeiros a nascer em Fortaleza, o Juraci e o Jurandir. Apesar de ter sido sempre robusto, o Jurandir foi acometido pelo ataque repentino de uma estranha doença que lhe tapava a garganta, sufocando-o. Sua vida foi salva, segundo a mamãe, graças ao tio José, esposo de sua irmã Toinha. Estando ele de visita á nossa casa, ao ver a criança naquele estado disse ao papai que aquilo era crupe, e que o levasse com urgência ao médico, pois aquela doença mata em menos de 24 horas. Meu pai ficou agoniado, foi até um vizinho, pediu ajuda e o mesmo os levou em seu carro a procura de médico, embora fosse tarde da noite. Saiu em busca de um médico que já conhecia, tendo telefonado antes para saber se o atendia àquelas horas da noite. O médico foi muito gentil e disse que fosse até sua casa, deu o endereço e ficou aguardando. Era quase meia-noite quando chegaram à casa do referido médico. Quando a consulta terminou já era quase uma hora da madrugada. O problema maior é que papai não tinha dinheiro para comprar o remédio, tendo o médico lhe empresado a quantia necessária. No mesmo carro que os levou foram até uma farmácia de plantão, onde foi logo ministrada uma injeção na criança. Compraram também um remédio via oral a ser dado quando chegassem à casa.
Ao chegar foi que perceberam que a coisa era realmente muito grave. Antes da injeção produzir efeito a criança ficou sufocando, embora um pouco quieta. Alguns dias depois, porém, o menino (que tinha em torno de dois anos)  ficou estrebuchando, pulando e impaciente com os ataques da doença. A mamãe ficava com o menino nos braços, segurando para não ficar se batendo, mas logo cansava e o entregava ao papai, e assim os dois se revezavam a noite toda. De 3 em 3 horas eles davam o remédio via oral. Os acessos foram aos poucos diminuindo, até que ao amanhecer de certo dia a criança havia se acalmado.
O outro filho, o Juraci, de repente foi também acometido por uma estranha doença que o impedia de andar. Ela e o papai ficaram aflitos pois o menino já tinha 3 anos e, de repente, passou a andar rastejando pelo chão, não conseguia ficar em  pé. Até hoje ela não se lembra que doença era aquela, só sabe que foram ao médico, deram remédio e ficou curado.



A religiosidade da mamãe
Toda a sua religiosidade, assiduamente católica, foi herdade do pai dela, Francisco Cavalcante de Paiva. Conta ela que seu pai tinha bons livros religiosos, que os lia com freqüência. Quando moravam no  sertão levava os filhos, percorrendo longas distâncias à pé, a fim de assistir às missas dominicais. Certo dia apareceu por lá um santarrão, tido por santo por algumas pessoas. O pai dela foi lá conferir, dizendo, por inspiração do discernimento dos espíritos, que o sujeito não tinha nada de santo. Discutiu com o sujeito, o qual terminou rogando uma praga no vovô. Muito católico e confiante na proteção divina, o Sr. Francisco não teve nenhum medo da praga. Poucos dias depois o santarrão se mostrou quem era ao  bulir com uma jovem do lugar, tendo que fugir de lá às pressas.
O pai da mamãe também era um anticomunista convicto. Soube que a “coluna Prestes” andava pelo sertão e diziam que  passaria pelo lugar onde ele morava com a família. Ao tomar conhecimento dos boatos, mandou fazer uma faixa grande com os dizeres “Abaixo o bolchevismo!”, e colocou-a na entrada do lugarejo a fim de que ficasse demonstrado a  rejeição que tal regime tinha por aquele povo.
Mamãe conta que em Fortaleza  tinha que assistir às missas numa igreja que ficava longe de casa, ao lado do famoso asilo de doentes mentais, conhecido simplesmente como “Asilo”, ou “Asilo da Porciúncula”, nome da igrejinha que ficava ao lado do mesmo. Ela era tão preocupada em não perder o horário da missa que sempre chegava à igreja bem cedinho,  muito tempo antes da missa começar. Certo dia, chegou lá de madrugada, carregando os filhos, todos ainda crianças, mas a igreja estava fechada. Bateu na porta e atendeu um padre, dizendo que era de madrugada e faltava ainda muito tempo para a missa. Mesmo assim ela pediu para que ele deixasse ela entrar com as crianças. No entanto, ele disse que fosse  procurar as irmãs da Porciúncula, que ficava ao lado, onde teria a companhia das freiras. E assim ela fez, ficando aguardando até a hora da missa, isto é, até às 4 ou 5 da manhã como era costume naquele tempo.
Já o pai dela, nunca perdeu uma missa dominical. E até assistia outras missas que podia no meio da semana. Certa feita, quando já morava em Fortaleza e trabalhava como guarda noturno, saiu de seu  posto de trabalho para assistir a uma missa que estava sendo celebrada bem próximo. Não sendo encontrado no seu posto de trabalho, foi demitido do emprego. Apesar de tudo, contou a verdade ao patrão e disse que estava mesmo assistindo  à missa, pois pretendia também comungar.
Esta história tem outra versão da mamãe.  Quando ela tinha cerca de 13 anos, isto é, lá pelo ano de 1932, o pai dela veio com a família tentar a sorte em Fortaleza.  Conseguiu emprego de guarda de trânsito, deixando seu posto de trabalho para assistir a uma missa, no que foi sumariamente demitido porque seus superiores notaram sua falta.


Alguns fatos dramáticos
Dona Raimunda sempre manteve grande serenidade perante alguns fatos dramáticos ocorridos na sua família. Vamos lembrar aqui alguns deles.
Como eram pobres não possuíam mobília apropriada. Assim, como não podiam comprar camas para os filhos dormir, o jeito era dar uma rede pra cada um. E as redes eram guardadas, durante o dia, num enorme caixão de madeira. Certo dia, alguém esqueceu-se de uma lamparina acesa em cima do caixão, que pegou fogo em todas as redes que lá haviam. Foi uma grande correria para apagar o fogo e não deixar se propagar por toda a casa. Neste dia foi o jeito dormir pelo chão mesmo.
O Jurandir, quando criança, foi acometido certa vez de sonambulismo. Levantou-se dormindo, atravessou a rua (que a gente chamava de “Pista do Cocorote”, era a estrada que levava ao aeroporto militar-civil da cidade), entrou na mercearia que ficava do outro lado da rua (seu proprietário era chamado de “Zé da Onça”), e ficou parado em frente ao dono sem nada dizer. O homem perguntava o que ele desejava, mas o sonâmbulo nada respondia. Advertido pelos outros irmãos, papai foi correndo até a mercearia e lá encontrou o fujão ainda em pleno sono. Foi fácil acordá-lo e levá-lo pra casa.
Um dos filhos da mamãe, certo dia, foi encontrado brincando com uma cobra no quintal. Era venenosa, mas por milagre não picou a  criança. Ela pegou de pau e matou a serpente.
Nosso irmão Franciné caiu por duas vezes em cacimbas. Na primeira, foi socorrido por um tio, que pulou na cacimba e resgatou a criança. Na segunda vez, já era rapazinho, e estava ajudando a fazer uma escavação, para aumentar profundidade e dar mais água, quando quebrou-se a corda que o sustentava e caiu no fundo do poço. Foi grave a pancada que teve na cabeça, mas graças a Deus sem maiores conseqüências.
No entanto, os piores momentos, tanto ela quanto papai, foi ver a morte de parentes e amigos, além de assistir muitos doentes vindos do interior em busca de ajuda. Assistiram a morte do esposo da tia Antônia, irmã de meu pai. Algum tempo depois foi a morte dos filhos Jair e Maria das Graças. Muitos parentes doentes estiveram em nossa casa sob os cuidados deles.








quinta-feira, 3 de setembro de 2015

segunda-feira, 20 de outubro de 2014

O papel das "redes sociais" numa nova fase da Revolução


O papel das “redes sociais” numa nova fase da Revolução (*)

O “modelo” da Revolução da Sorbonne (Paris, maio de 1968) foi facilmente disseminado pelo mundo. Com base naquela matriz ideológica, diversos grupos realizaram ações revolucionárias em várias partes do planeta.
No Brasil, como alhures, a técnica de conduzir a opinião pública é sempre a mesma. O sucesso obtido na Sorbonne de 68 tem inspirado muita gente a repetir a façanha.
Hoje, no entanto, tudo indica que as diversas revoluções similares que explodem em várias partes do globo conduzem a uma tentativa de universalizá-la mais ainda. Sendo universal, é necessário que haja unidade, pelo menos entre os agentes revolucionários. Por enquanto, a universalidade está nos meios e nos métodos de ação, mas tende a sê-lo também no campo ideológico, dos propósitos. Somente a unidade fará com que se obtenha mais êxito universal.
Quanto aos métodos, tivemos, por exemplo, as diversas manifestações de descontentamentos eclodidas entre os árabes e na Europa, depois transplantadas para os Estados Unidos da América e os países sul-americanos. Para atrair a simpatia do público revestiram-nas com o título de “indignados” e “primavera árabe”. Como o ato de indignar-se não identifica em si disposição para a revolução e o caos, mas uma atitude de revolta contra as injustiças, logo os revolucionários atraíram a simpatia de certo público e conseguiram, inclusive, derrubar alguns governos ditatoriais. Com uso das armas, inclusive. Na Europa, é claro, tinha que ser diferente. E nos Estados Unidos mais ainda, com outra roupagem, outro nomes, mas com propósitos meio indefinidos, próprios desse tipo de revolução. Dentro do grupo “Ocupem Wall Street”, como não poderia deixar de ser, o tema principal é a guerra contra os bancos e o capitalismo dito “selvagem”, uma velha e surrada tese marxista de luta de classes.
E agora a coordenação desse movimento está muito mais ao alcance de todos, pois, diferentemente de maio de 68, temos a internet com as redes sociais que divulgam celeremente as ordens, os contatos, as decisões e os programas predeterminados.


O "milagre" da “Revolução Espontânea”

Um das características que os faz atraentes para o público é o cunho da espontaneidade. A espontaneidade está produzindo um dos maiores “milagres” da História.  Em primeiro lugar, produziu o "milagre" da geração espontânea do Universo, hoje um dogma evolucionista sempre presente não só entre pseudo-cientistas mas na cabeça de muitos leigos e da quase unanimidade da mídia. Ora, se o universo surgiu por “geração espontânea”, por que não também as revoluções?
E foi assim que o Protestantismo, a Revolução Francesa e o Comunismo brotaram “espontaneamente” do chão e produziram essa monstruosa Revolução que hoje campeia pelo mundo moderno. Foi dessa forma também que brotou a revolução da Sorbonne de 1968, uma das revoluções mais “espontâneas” de toda a História, aliás a que mais se caracterizou pela espontaneidade. É uma qualidade que pretende dá crédito e autenticidade ao movimento.
Veio agora a revolução dos “indignados” (ou dos indignos), produzida e gerada “espontaneamente” em vários países do mundo. “Esponaneamente” brotou ela em solo árabe (fruto das “redes sociais” da internet, segundo dizem) e de lá foi transplantada sua semente para a Europa, Estados Unidos e o resto do mundo.  Entre os árabes produziu quedas de governos, mas não tinha como objetivo visível colocar um sucessor à altura das aspirações populares. A palavra mágica era “democracia” , coisa que aqueles povos só poderão saber o que seja daqui a alguns séculos.
Uma das características dos povos muçulmanos é o grande atraso em que teimam permanecer, recusando qualquer evolução social. Isso ocorre por causa dos princípios religiosos, embora seja negado por alguns. Há séculos que são dominados por clãs e por regimes tribais. A tônica do noticiário é que as revoltas vão solucionar todos os problemas: basta que se coloque outro grupo político no poder e se façam eleições. Fácil, né? Quem garante que os políticos que vão suceder aos ditadores vão inaugurar um regime realmente democrático? Quem garante que não vai ser mais uma sucessão de ditaduras? Não se muda a cultura de um povo assim da noite para o dia.
A única novidade em toda essa onda é que a mídia está trombeteando aos quatro ventos que tudo está sendo feito via internet. O que é absurdo, pois muitas dessas revoltas estão sendo feitas por grupos armados, como ocorreu na Líbia e está ocorrendo agora na Síria. Outra novidade é que o movimento é apresentado ao Ocidente como exemplo de uma revolução toda virtual, nascida espontaneamente dentro das chamadas “redes sociais”. Um mito, uma mentira, como vimos acima ao comentar sobre a “espontaneidade” revolucionária.
No resto do mundo é diferente. Sempre com o caráter de  “espontaneidade”, marcam uma data para se iniciar uma marcha de protestos e, coincidentemente, a “espontaneidade” registra também hora, data, local do encontro, e até mesmo algumas características que as manifestações devem ter, como, por exemplo, ser composta de “jovens”, de estudantes, de operários, etc., etc.
É tão bela e admirativa essa “espontaneidade” que a revista “Veja” a elogia, numa de suas últimas edições em que propaga a manifestação dos “indignados” brasileiros contra a corrupção. A revista só não explica como é que, “espontaneamente”, a manifestação teve forum de debates na internet, local, data e hora para ser feita, além de se caracaterizar unicamente como um movimento apolítico (quer dizer, sem partido) e dirigido contra os corruptos. E, depois, teve a mídia que “espontaneamente” vai lhe colocando no foco dos acontecimentos. É muita “espontaneidade” para um movimento tão bem organizado e de caráter universal...
Alguns dos anarquistas, aqueles mesmos que vivem num mundo virtual a procura de algo para sair de seu “autismo consentido” para o mundo real, o qual eles odeiam porque não o suportam, se aproveitam para “espontaneamente” botar fogo em tudo, queimar veículos, depredar lojas, jogar pedras na polícia, e aí ameaçam estragar o movimento. Que deve ser espontâneo mas não deve assustar.
O processo se assemelha em tudo ao da Revolução da Sorbonne de 1968, um espécie de ensaio geral para essa revolução que agora pretende ser mais universal ainda. Lá também ninguém visava a derrubada do poder, pois é o próprio poder que eles odeiam; tudo era feito de forma a parecer que a revolução brotava espontaneamente dos estudantes e operários, inclusive até mesmo as frases e manifestações escritas eram as mais rústicas possíveis (apenas pixações e nada de manifestos escritos ou de pasquins) para se dar a idéia de que aquilo não provinha de uma preparação prévia feita por um grupo revolucionário.
Para quem analisa as coisas friamente, não parece que essa revolução dos “indignados” se assemelha em tudo à da Sorbonne, em Paris, de maio de 1968?
Os “excessos”, dizem, não fazem parte dessa impressionante “espontaneidade”, pois em geral são cometidos por grupos isolados e radicais. Mas o que vemos é que os excessos são tão comuns, que parecem até ser espontâneos, agora de verdade. Vejam o que vem ocorrendo nos Estados Unidos e na Europa, em particular na Itália. Lá também houve excessos, como este publicado pelo jornal Corriere de la Sera, em que um grupo de anarquistas quebra uma estádua da Madonna, Nossa Senhora de Lourdes. O jornal fala da “guerrilha de 15 de outubro”, porque na verdade houve uma espécie de guerrilha dos manifestantes contra a polícia. O responsável pela blasfêmia foi um grupo anarquista denominado “black bloc”, em tudo semelhante aos demais, até mesmo na “espontaneidade” com que se organizaram, saíram juntos para a rua e fizeram sua parte. E como é que tais grupos se organizaram em outros países, como o Brasil? Espontaneamente?
A imagem, de gesso, era venerada no salão paroquial de São Marcelino e São Pedro, cujo pároco, o padre Pino Ciucci, disse que a aquela ação foi pior do que a dos fascistas. Para atuar, o grupo “black bloc”, com o rosto coberto com gorros de lã preta, capacetes e paus negros, invadiu o salão paroquial em meio às manifestações dos “indignados” que ocorriam nas imediações, deixando “espontaneamente” o local para que se diga depois que o vandalismo também é uma ação “indignada” do povo contra a Religião. No final, via-se a imagem de Nossa Senhora de Lourdes totalmente despedaçada na calçada, objeto de fotógrafos, curiosos e passantes... Um crucifixo também foi profanado...
O arcebispo de Milão, Angelo Scola, logo se manifestou sobre o crime, considerando-o muito grave. O prelado previu coisas mais graves perante o fanatismo das turbas que se manifestam em Roma. Mal sabia aquele bispo que apenas se iniciava ali a formação deste grupo de caráter internacional.


Uma frustrada tentativa de repetição da Sorbonne-68

A “revolução dos indignados” está ainda em curso, embora tenha recuado muito no decorrer deste ano: tudo indica que essa Revolução não avança, mas murcha. Não queremos dizer com isso que a ação desses grupos estancou, mas sim que não encontra eco no restante da população. Trata-se, sempre, de uma minoria isolada, que não encontra apoio popular em geral. Veremos por quê.
Em São Paulo, tivemos um exemplo flagrante disso ocorrido no final de 2011. Dentro do Campus da USP houve um crime e a droga corria solta. O reitor resolveu chamar a polícia, como é óbvio, para policiar o recinto das faculdades. “Indignadas” com a ação da reitoria, várias organizações estudantis resolveram protestar: a polícia teria que vigiar a “cracolândia”, a USP não, segundo palavras excitadoras do movimento ditas pelo ministro da Educação.
No entanto, feita uma reunião, a maioria resolveu concordar com a ação da polícia. Primeira derrota dos “indignados” revolucionários, os quais, insatisfeitos, resolveram agir contra a maioria. Cerca de 100 alunos (uma minoria irrisória) invadem o prédio da Faculdade de Filosofia. Esperavam que os outros estudantes o apoiassem, mas em vão: a grande maioria, em reunião, decide a desocupação do prédio. Aí, então, cerca de 70 remanescentes daqueles 100, ao sair da Faculdade de Filosofia resolvem invadir o prédio da própria reitoria. Desta vez, porém, o reitor resolve acionar a justiça, a qual dá um ultimato aos invasores para desocupar o prédio. Como não o fizeram, foram expulsos pelos policiais. Esta última ação ocorreu no dia 8 de novembro de 2011.
No dia seguinte, os grupos revolucionários fazem nova tentativa de conquistar a adesão dos estudantes e proclamam uma greve em protesto contra a ação policial no recinto da USP. Nova derrota. Não há adesão ao movimento, o qual mingua por falta de participantes. Será que esperavam ocorrer o mesmo que na Sorbonne de maio de 68, quando uma minoria invadiu uma faculdade, depois a própria universidade, passando posteriormente para as ruas e as fábricas? Pode ser que não, pelo menos entre os indivíduos de base, mas em todos os outros movimenos semelhates havidos em outras partes do mundo, inicialmente há sempre uma causa pequena e de pouca repercussão, para, depois se partir para uma questão nacional e até internacional, que é o escopo dos líderes. Esta, da USP, foi um fiasco total.
Uma particularidade, que a mídia chamou a atenção desde o início desse movimento: os invasores da reitoria da USP são, na maioria, filhos de gente rica ou de classe média. Alguns dos pais foram até à polícia para protestar dizendo que estavam sendo vítimas de perseguição política. Eles pleiteavam o “direito” de seus filhos fumarem maconha no recinto da USP e acusam a justiça de “perseguição política”.

Um movimento de elite

O que reflete bem o tipo de ação promovida nos bastidores por gente desse tipo é retratado pelo jornal “Folha de São Paulo” ao relatar o seguinte episódio:   

“Quinze socialites se reuniram anteontem à tarde, nos Jardins (zona oeste), para debater o combate à corrupção e outros temas. Antes mesmo de começar, a pauta já era outra.
“Ei, menino, sabe que fim deu a confusão da USP?”, assuntou uma das integrantes do Grupo Ação em Cidanania à reportagem. PMs haviam retirado, horas antes, os invasores da reitoria.
Iniciada a reunião pela psicalanista Maria Cecília Parasmo – regada a refrigerante, bolacha e bolo -, o debate ficou em torno de como “mobilizar o povo” e “para quê”.
Para Ana Paula Junqueira, pré-candidata do PMDB a vereadora, o brasileiro deveria se inspirar na Primavera Árabe..
Quando o tópico voltou para os conflitos na USP, os ânimos se exaltaram. A historiadora Maria Cecília Naclério sugeriu que o grupo de invasores teria ligação com máfias (“tudo isso é orquestrado”).
Já a presidente da Associação de Mulheres de Negócios, Márcia Kitz, questionou se a PM não deveria ter sido mais incisiva, com uso de bombas de efeito moral e jatos d’água.
Após publicação de Vídeo pela TV Folha, ontem, o termo “socialites” ficou entre os mais comentados no Twitter em SP”.  (v. Folha de São Paulo, 10.11.2011, caderno Cotidiano, C3).

A queda da disponibilidade revolucionária

Estar disponível é ter um espírito propenso e pronto para a ação. O chamado “mundo virtual” tira um pouco esta disponibilidade, pois enclausura as pessoas numa espécie de “autismo consentido” e numa acomodação egoística. No entanto, torna as pessoas mais manipuláveis.
O que deve ser manipulado pela Revolução? A mesma disponibilidade para a ação, a ação coordenada e universal, assim como a unidade da ação. As pessoas manipuláveis devem agir por impulso, sem raciocinar bem o que estão a fazer nem o seu conteúdo ideológico. Em geral as pessoas são manipuláveis por questões sentimentais, compulsivas, financeiras, etc.
Mesmo assim, tal manipulação tem encontrado muitas dificuldades. Uma delas é que o “mundo virtual” ainda é vivenciado por uma minoria da população, pelo menos em tempo integral. E parace que saturou, não indicando que há para onde crescer mais do que o que já crescreu. Assim, os próprios agentes da manipulação podem ser atingidos pelo parasitismo virtual. As redes sociais funcionam mais como necessidade que as pessoas têm hoje, num mundo tão isolacionista, de se comunicarem, mas parece que não tem surtido muito efeito quando se pretende por ele a ação das massas para promover uma revolução tendenciosa.


A Revolução e a auto-regência dos seus lideres

Um líder revolucionário, apesar de em geral ter que ser carismático, perde sua auto-regência ao se entregar inteiremente às paixões revolucionárias. Estas paixões, virulentas e irracionais, tendem a obscurecer o “lumen rationis”(a luz da razão), transforando-os em meros autômatos. Também os líderes podem ser influenciados pela tendência a agir por impulsos. É mais cômodo. Desta forma, as lideranças revolucionárias hoje são raras, pois falta-lhes o que denominamos acima de “disponibilidade revolucionária”, necessária para “tocar” a massa para a ação. Um líder perde sua capacidade de liderança quando perde também sua auto-regência, é sabendo governar-se que se governa os outros com eficiência.
Um dos recursos que a Revolução pode usar, nesse caso, é da ação integrada, liderada não por um individuo mas por um grupo, um “comitê”, um soviet. Recurso já usado na Sorbonne para se dá a idéia de que as decisões não são individuais, mas coletivas. Mas esse grupo precisa se utilizar de recursos com que possa mover a “massa” na direção revolucionária. Nesse caso, a técnica mais apropriada (já usada em várias ocasiões) é a “acupuntura social”, pela qual as massas vão agir impulsionadas por fatos ocorridos e provocados de propósito que as levem em direção diferente e até oposta daquilo que pensam e vivem. Um exemplo foi a eleição ganha pelo partido socialista espanhol em 2004, fruto de um atentado terrorista. O atentado foi feito pelos terroristas muçulmanos, mas levou a opinião pública a desviar seus votos contrários ao governo conservador, então no poder, dando vitória aos socialistas. Assim, sem um discurso, sem ação de nenhum líder, mas de um grupo, o povo foi levado a agir de forma diferente e até contrária ao que pensava.
Uma das características dos povos muçulmanos é o grande atraso em que teimam permanecer, recusando qualquer evolução social. Isso ocorre por causa dos princípios religiosos, embora seja negado por alguns. Há séculos que são dominados por clãs e por regimes tribais. A tônica do noticiário é que as revoltas vão solucionar todos os problemas: basta que se coloque outro grupo político no poder e se façam eleições. Fácil, né? Quem garante que os políticos que vão suceder aos ditadores vão inaugurar um regime realmente democrático? Quem garante que não vai ser mais uma sucessão de ditaduras? Não se muda a cultura de um povo assim da noite para o dia.
A única novidade em toda essa onda é que a mídia está trombeteando aos quatro ventos que tudo está sendo feito via internet. O que é absurdo, pois muitas dessas revoltas estão sendo feitas por grupos armados, como ocorreu na Líbia e está ocorrendo agora na Síria. Outra novidade é que o movimento é apresentado ao Ocidente como exemplo de uma revolução toda virtual, nascida espontaneamente dentro das chamadas “redes sociais”. Um mito, uma mentira, como vimos acima ao comentar sobre a “espontaneidade revolucionária”.

(*) A análise da Revolução, como feita acima, é baseada nas teses da obra “Revolução e Contra-Revolução”, do Prof. Plínio Corrêa de Oliveira, cujo texto pode ser obtido aqui:  http://www.pliniocorreadeoliveira.info/livros.asp



quarta-feira, 15 de outubro de 2014

A QUESTÃO FEMININA NAS ELEIÇÕES BRASILEIRAS





A nossa lei eleitoral prescreve que cada partido político é obrigado a inscrever, pelo menos, 30% de mulheres como candidatas a cargos legislativos. Quer dizer, há uma cota obrigatória para as mulheres nas candidaturas. E o partido que não cumprir a lei pode ser punido, razão pela qual muitos deles inscrevem grande quantidade de candidatas sem perspectiva nenhuma de serem eleitas.
Como é moda estipular cotas para tudo o que diz respeito à ascensão social (nos cursos universitários isso já está estabelecido a mais tempo com cotas para negros, índios, pobres, etc.) não demora que a lei obrigue a população a eleger aquele percentual de mulheres a fim de que as bancadas políticas sejam compostas com uma quantidade pré-estabelecida delas. Assim como existe o “quociente eleitoral” para garantir vagas proporcionais nos partidos, pleiteiam também um “quociente feminino”. É claro que não ficarão por aí, virão outros “quocientes” ou “cotas” de cargos políticos a serem pleiteados, como dos negros, dos índios, dos pobres, etc. O jargão desta mentalidade chama-se “inserção social” ou “inclusão social”.
Por enquanto, não é o que ocorre. Qual a razão? Enquanto a lei continua a prescrever um percentual de candidatas, a população continua indiferente ao fato. E a grande maioria daquelas que os partidos colocaram como candidatas estão ali apenas para preencher um requisito legal, mas realmente não têm nenhuma chance de serem eleitas. Muitas nem sequer têm vocação política. Foi o que ocorreu na última eleição (em 3.10.2014).
Segundo o jornal “A Tarde”, de 13.10.2014, dos 1.042 candidatos eleitos para a próxima legislatura, apenas 119 são mulheres, ou seja, 11,4% do total. O povo deixou de eleger quase 200 mulheres, para desencanto dos feministas. Na Bahia, por exemplo, o numero de mulheres eleitas foi reduzido de 10 para 7. No total do país as legislaturas passam a ter 26 mulheres a menos, o que indica uma tendência popular a não votar nelas. Em 17 casas legislativas foi menor o número de candidatas eleitas, e apenas em cinco o número aumentou e em outras quatro permaneceu como estava. Já em Mato Grosso e Amazonas foi eleita apenas uma candidata em cada um destes estados..
A explicação dada pelo fenômeno não é do desinteresse da população em eleger mulheres, mas de outros motivos. A deputada Fabíola Mansur, por exemplo, dá as seguintes razões: “O desinteresse das mulheres pela política é nítido na medida em que elas têm um compromisso com a família, os filhos, a educação. Somado a isso, se não há uma estrutura partidária que consiga colaborar com candidaturas femininas e sem financiamento público de campanha, como é possível as mulheres ficarem visíveis?” Uma outra deputada, Luíza Maia, aponta quase as mesmas razões, e acrescenta: “...para as mulheres, é mais difícil conseguir apoios financeiros” e diz que os partidos políticos são “machistas”. E a população que não votou nelas, é machista também? A fim de conseguir seus objetivos, as deputadas acima defendem que a lei deveria obrigar os partidos a apresentar número igual de candidatos (homens e mulheres), como se isso fosse o suficiente para fazê-las conseguir o voto popular.
É claro que a idéia não daria certo, pois nem mesmo assim o povo daria o voto nas mesmas proporções, mas de acordo com suas preferências pessoais. E o resultado das eleições nunca seria conforme as elucubrações destas idéias malucas, mas conforme o bom senso da população.  O maior erro destas idéias é imaginar que cargo político é ascensão social, quando, na realidade, a disputa por cargos políticos é luta pelo poder feita por uma parcela da sociedade que já desfruta do mesmo, de uma classe social que já ascendeu e não precisa de nenhum apoio legal para crescer mais. Quanto à representação popular, esta não precisa ser proporcional á população, pois o interesse aí não é do pleiteante ao cargo mas do povo.


domingo, 1 de junho de 2014

sexta-feira, 24 de janeiro de 2014

CONVERSAÇÃO, UM PASSATEMPO DE OUTRAS ERAS



Seguem algumas frases ou expressões sobre a arte da conversa, coisa praticamente inexistente no mundo atual:
A CONVERSAÇÃO 
• “Esto brevis et placebis” – Sê breve e agradarás. (aforismo latino). • Política é conversa. O resto é... conversa fiada. (Otávio Mangabeira). 
• Conversar é, como as abelhas, fazer mel de qualquer coisa. (La Fontaine). 
• Há palavras que sobem como a chama e outras que descem como a chuva. (Maria d’Agouit). 
• Os homens com quem se fala não são os homens com os quais se conversa. (Rousseau). 
• O melhor prazer da vida é a prosa. (Plínio Corrêa de Oliveira). 
• A conversa é um intercâmbio de duas personalidades que falam sobre matéria atraente e que interessa a ambos. Será ainda mais autêntica, se o meu interlocutor puser certa nota pessoal em suas palavras, fazendo com que eu goste de ouvi-lo. Isso é um elemento fundamental da conversa. (Plínio Corrêa de Oliveira). 
• Uma hora de conversa vale mais do que cinqüenta cartas. (Mme. de Sévigné). 
• As palavras, como as abelhas, têm mel e ferrão (Ditado suíço). 
• “La parole est d’argent, mais le silence est d’or” – A palavra é de prata, mas o silêncio é de ouro (Máxima traduzida do árabe por Duchemond, in Recueil d’adages, 1867, p. 121). 
• “Quand une femme a le don de se taire, elle a des qualités au-dessus du vulgaire” – Quando uma mulher tem o dom de calar-se é porque tem qualidades acima do comum delas (Corneille, Le Menteur, Acte I, sc. 4). 
• O homem de palavra é ordinariamente o que menos fala. (Marquês de Maricá). 
• Use palavras leves e argumentos pesados (Adágio inglês). 
• Quando falares, cuida para que tuas palavras sejam melhores que o silêncio (Provérbio indiano). 
• Não deixe que sua língua o mantenha surdo (Adágio indígena americano). 
• Quem muito fala, muito erra e muito enfada (Ditado popular). 
• O que convence é o caráter de quem fala e não o argumento (Menandro). 
• Temos dois ouvidos e apenas uma boca para ouvir mais e falar menos (Ditado popular). 
• O ouvido não foi feito para fechar mas a boca foi (Ditado popular). 
• “Non minus interdum oratorium esse tacere quam dicere” – Às vezes calar não é menos eloqüente do que falar (Plínio, o Jovem). 
• “Taciturnitas stulto homini pro sapientia est” – O silêncio é a sabedoria do tolo (Publílio Siro). 
• “Stultos quoque, si tacuerit, sapiens reputabitur et, si compresserit labia sua, intellegens” – Até o insensato passará por sábio, se estiver calado; e por inteligente, se cerrar os seus lábios”. (Provérbios, 17, 28). 
• “Ex abundantia enim cordis os loquitur” – Da abundância do coração fala a boca (Mt 12, 34). 
• A literatura em muitos dos seus ramos não passa de sombra da boa conversação (Robert Louis B. Stevenson - séc. XIX). 
• As conversas familiares, os diálogos amigáveis são meios bastante eficazes. Oh! Quanto bem produzem! (Santo Antonio Maria Claret).
• A Revolução causou à sociedade uma perda imensa, talvez irreparável... ela matou a conversação (Conde Pierre Louis Roederer, Paris 1754/1835). 
• A conversação era, nessa época, brilhante, o emprego do espírito, o sal mais fino do “savoir plaise”, do “savoir vivre”, do “sprit de Cour”. Era a recreação por excelência. Finesse, “grace, limpidité, rapidité”, arte de esconder o pensamento ou a malícia sob o véu transparente dos subentendidos, palavras que iam além do que elas exprimiam, “plaisantierie”, “repartie”... eis algumas das ritulantes preciosidades que faiscavam à luz das velas, antes de caírem magnificamente, principescamente, como fitas de seda, nos tapetes finos daqueles salões aristocráticos” (G. Lenotre – “Gens de la Vieille France”). 
• Na verdade, se a boca fala da abundância do coração, é preciso igualmente que cale a língua quando há escassez de pensamentos. (São Bernardo) 
• “Alienis quippe oculis, intra secretum mentis, quase post parietem corporis stamus; sed cum manifestare nosmetipsos cupimus, quase per linguae iahuam egredimur, ut quales sumus intrinsecus ostendamos” (SANCTI GREGORII MAGNI, Expositio in librum Job libri XXXV (Moralium), liber II, cap. VI, vers. 8; PL 75, p. 559 - Aos olhos dos demais, na parte secreta da mente, estamos como que por detrás da parede do nosso corpo; mas quando desejamos nos manifestar, saímos como que pela porta da língua para mostrar o que somos em nosso interior”  .

domingo, 13 de outubro de 2013

Aspecto varonil da feminilidade de Maria Quitéria



Maria Quitéria, heroína da guerra de nossa Independência na Bahia, é apresentada por certa corrente feminista como detentora de masculinidade, haja vista que se vestiu de homem para ingressar nas tropas que lutavam no Recôncavo baiano contra os portugueses. Não é bem assim que a viu Maria Graham quando esteve no Brasil e recebeu a visita da famosa baiana, no Rio de Janeiro. O fato foi registrado pela inglesa em seu famoso diário e ocorreu no dia 29 de agosto de 1823, poucos dias após o fim da guerra de independência na Bahia, ou “Guerra do Recôncavo” como ficou conhecida na época:
Os portugueses, comandados pelo general Madeira, resolveram não reconhecer a independência do Brasil: houve reação local e logo travou-se uma guerra entre as forças portuguesas e os patriotas locais, somente terminada no dia 02 de julho de 1823, quase um ano após o brado de independência dado por Dom Pedro I. Por puro amor à Pátria, Maria Quitéria resolveu ingressar nas nossas tropas fazendo-se passar por homem.
Segue abaixo o relato do encontro entre Maria Quitéria e Maria Graham:

“Recebi hoje a visita de D. Maria de Jesus, jovem que se distinguiu ultimamente na guerra do Recôncavo[1]. Sua vestimenta é a de um soldado de um dos batalhões do Imperador, com a adição de um saiote escocês, que ela me disse ter adotado da pintura de um escocês, como um uniforme militar mais feminino. Que diriam a respeito os Gordons e os Mac Donalds? O traje dos velhos celtas, considerado um atrativo feminino?! – Seu pai é um português, chamado Gonçalves de Almeida[2], e possui uma fazenda no rio do Pex [peixe], na paróquia de S. José, no Sertão, cerca de 40 léguas para o interior de Cachoeira. Sua mãe era também portuguesa; contudo, as feições da jovem, especialmente os olhos e a testa, apresentam os mais acentuados traços dos índios. Seu pai tem outra filha da mesma mulher, depois de cuja morte ele se casou de novo; a nova mulher e as crianças faziam com que a casa não fosse muito confortável para D. Maria de Jesus. A fazenda do Rio do Peixe é principalmente de criação, mas o proprietário raramente sabe ou conta as suas cabeças. O Senhor Gonçalves, além do gado, planta algum algodão, mas como no sertão passa às vezes um ano sem chover, a produção é incerta. Nos anos de chuva ele pode vender quatrocentas arrobas, por 4 a 5 mil réis; nas estações secas dificilmente pode colher acima de sessenta ou setenta arrobas, que podem alcançar de seis a sete mil réis. Sua fazenda emprega vinte e seis escravos.
As mulheres do interior fiam e tecem para sua casa, como também bordam lindamente. As moças aprendem o uso de armas de fogo, tal como seus irmãos, seja para caçar seja para defenderem-se de índios brabos.
D. Maria contou-me diversas particularidades relativas a suas próprias aventuras. Parece que, logo no começo da guerra do Recôncavo, percorreram o país em todas as direções emissários do governo para inscrever voluntários; que um desses chegou um dia à casa de seu pai, na hora do jantar; que seu pai o havia convidado a entrar e que depois da refeição ele começou a falar sobre o objetivo de sua visita. Começou ele a descrever a grandeza e riqueza do Brasil e a felicidade que poderia alcançar com a Independência. Atacou a longa e opressiva tirania de Portugal e a humilhação em submeter-se a ser governado por um país tão pobre e degradado. Ele falou longa e eloqüentemente dos serviços que Dom Pedro prestara ao Brasil, de suas virtudes e nas da Imperatriz, de modo que, afinal, disse a moça: “Senti o coração ardendo em meu peito”. Seu pai, contudo, não partilhava em nada seu entusiasmo. Era velho, e disse que nem poderia juntar-se ao exército, nem tinha um filho para ali enviar; e quanto a dar um escravo para as tropas, que interesse tinha um escravo em bater-se pela independência do Brasil? Ele esperaria com paciência o resultado da guerra e seria um pacífico súdito do vencedor. Dona Maria escapuliu então de casa para a casa de sua irmã, que era casada e morava a pequena distância. Recapitulou o grosso do discurso do visitante e disse que desejaria ser homem para poder juntar-se aos patriotas. “Pelo contrário”, disse a irmã, “se não tivesse marido e filhos, por metade do que você diz, eu me juntaria às tropas do Imperador”. Isto foi bastante. Maria obteve algumas roupas pertencentes ao marido da irmã, e como seu pai estava para ir a Cachoeira a fim de negociar algum algodão, resolveu aproveitar a ocasião e partir atrás dele, bastante perto para ter proteção em caso de acidente na estrada, bastante longe para escapar de ser presa. Afinal, à vista de Cachoeira, parou; e saindo da estrada, vestiu-se à moda masculina e entrou na cidade. Isto foi sexta-feira. No domingo ela arranjou as coisas tão bem que já havia entrado no Regimento de Artilharia e montado guarda. Ela era muito fraca, porém, para esse serviço e transferiu-se para a infantaria, onde está agora. Foi enviada para aqui, creio eu, com despachos, e para ser apresentada ao Imperador que lhe deu o posto de alferes e a ordem do Cruzeiro, cuja condecoração ele próprio impôs em sua túnica.
Ela é iletrada, mas inteligente. Sua compreensão é rápida e sua percepção aguda. Penso que, com educação, ela poderia ser uma pessoa notável. Penso que, com educação, ela poderia ser uma pessoa notável. Não é particularmente masculina na aparência; seus modos são delicados e alegres. Não contraiu nada de rude ou vulgar na vida do campo e creio que nenhuma imputação se consubstanciou contra sua modéstia.  Uma coisa é certa: seu sexo nunca foi sabido até que seu pai requereu a seu oficial comandante que a procurasse.
Não há nada de muito peculiar em suas maneiras á mesa, exceto que ela come farinha com ovos ao almoço e peixe ao jantar, em vez de pão, e fuma charuto após cada refeição, mas é muito sóbria”.

(“Diário de Uma Viagem ao Brasil” – Maria Graham – Cia. Editora Nacional – SP – págs. 329/331)

 Segue abaixo, uma de suas biografias:

Maria Quitéria (1792-1853) foi militar brasileira. Pioneira na luta de reconhecimento da independência. Baiana de nascimento e com grande habilidade no uso da arma de fogo, inscreveu-se como voluntária para lutar contra as províncias que não reconheciam D.Pedro como imperador. A Bahia tinha grande contingente militar português e apresentou resistência às forças do imperador. Para comandar as tropas brasileiras D.Pedro enviou à Bahia o general Pierre Labatut, que organizou as tropas e que obtiveram as primeiras vitórias contra os portugueses. Maria Quitéria teve atuação destacada em lutas importantes. Foi condecorada com a Ordem Imperial do Cruzeiro do Sul.
Maria Quitéria de Jesus (1791-1853) nasceu no dia 27 de julho, no sítio do Licorizeiro, no arraial de São José de Itapororocas, hoje Feira de Santana na Bahia. Filha do fazendeiro Gonçalo Alves de Almeida e Quitéria Maria de Jesus, que morreu quando a filha tinha dez anos. Quitéria assumiu a casa e cuidou dos dois irmãos. Seu pai casou pela segunda vez, mas logo ficou viúvo. Casou novamente e teve mais três filhos. Sua nova esposa não apoiava o comportamento independente de Maria Quitéria.
Maria Quitéria não frequentou a escola. Dominava a montaria, caçava e manejava armas de fogo. Deflagradas as lutas de apoio à independência em 1822, o Concelho Interino do Governo da Bahia, defendia o movimento e procurava voluntários para suas tropas. Maria Quitéria, interessada em se alistar, pediu permissão ao seu pai mas seu pedido foi negado. Com o apoio de sua irmã Tereza Maria e seu cunhado José Cordeiro de Medeiros, Quitéria cortou o cabelo, vestiu-se de homem e se alistou com o nome de Medeiros, no Batalhão dos Voluntários do Príncipe, chamado de Batalhão dos Periquitos, por causa dos punhos e da gola verde em seu uniforme.
Depois de duas semanas foi descoberta pelo pai, mas o major José Antônio da Silva Castro não permitiu que ela fosse desligada, pois era reconhecida pela disciplina militar e pela facilidade de manejar armas.
Maria Quitéria seguiu com o Batalhão para vários combates. Participou da defesa da Ilha da Maré, da Pituba, da Barra do Paraguaçu e Itapuã. No dia 2 de julho de 1823 quando o exército entrou na cidade de Salvador, Quitéria foi saudada e homenageada pela população. Tornou-se exemplo de bravura nos campos de batalha e foi promovida a cadete em 1823. Foi condecorada no Rio de Janeiro com a Ordem Imperial do Cruzeiro do Sul, em uma audiência especial onde recebeu a medalha das mãos do próprio imperador D. Pedro I.
Reformada com o soldo de alferes, voltou para Bahia com uma carta do Imperador dirigida a seu pai, pedindo que ela fosse perdoada pela desobediência. Casou-se com um namorado antigo, o lavrador Gabriel Pereira de Brito, com quem teve uma filha, Luisa Maria da Conceição. Viúva, mudou-se para Feira de Santana, para tentar receber parte da herança do pai que havia falecido em 1834. Desistindo do inventário mudou-se com a filha para Salvador, onde morreu quase cega em total anonimato. Seus restos mortais estão sepultados na Igreja Matriz do Santíssimo Sacramento no bairro de Nazaré em Salvador.[3]





[1] Nota do tradutor:Maria Quitéria de Jesus. Trata-se do mais importante depoimento pessoal acerca da famosa heroína baiana. Quase todos os estudos sobre este vulto são “vasados sobre o escrito da ilustra inglesa” (Maria Graham), diz o seu biógrafo. Cf. Fernando Alves, “Biografia de Maria Quitéria de Jesus”, Salvador, 1952.
[2] Nota do tradutor: Gonçalo Alves de Almeida. Era brasileiro, conforme declara em seu testamento, e não português. Op. Cit. Pg. 66

sábado, 5 de outubro de 2013

A MAIOR FAMÍLIA DO BRASIL




Com o título de "Cavalcanti: a saga da maior família do Brasil", o site "Guia do Estudante" publicou o texto que reproduzimos abaixo: 


Como o casamento entre um nobre florentino e uma mameluca pernambucana deu origem ao poderoso clã dos Cavalcantis, a maior família do país
Rodrigo Cavalcante | 16/04/2012 16h50
Milhares de turistas brasileiros que visitam Florença para conhecer sua famosa catedral ou admirar as obras da Renascença na Galeria Uffizi não costumam prestar atenção na placa de rua da Via Porta Rossa, uma pequena travessa da Via dei Calzaiuoli – essa, sim, conhecida, por causa de suas lojas, como a mais animada da cidade. Logo abaixo da placa de mármore da Via Porta Rossa, há outra menor, indicando que a rua já foi chamada de Via Cavalcanti, nome de uma tradicional família florentina cujos antepassados enriqueceram com o comércio e, entre os séculos 11 e 16, ocuparam postos importantes na cidade. Dentre os Cavalcantis de Florença, o que ficou mais conhecido foi o poeta Guido Cavalcanti, amigo de Dante Alighieri, que não apenas lhe dedicou um soneto como também citou a família na Divina Comédia (ainda que tenha colocado os Cavalcantis no inferno, assim como a maioria das famílias ricas de Florença). Após o século 16, contudo, o sobrenome Cavalcanti entrou em declínio na Europa e hoje é difícil encontrá-lo na cidade italiana. Em compensação, quando o jovem florentino Filippo Cavalcanti decidiu atravessar o Atlântico em algum momento da década de 1560 para operar engenhos de açúcar em Pernambuco, ele fundou, sem saber, aquela que hoje é considerada a maior família brasileira.


Maior família brasileira? Mas esse posto não deveria pertencer aos brasileiríssimos “Silva”? “Na verdade, o sobrenome Silva é mais numeroso, mas os Silvas são oriundos de famílias diferentes, enquanto os Cavalcantis descendem todos do mesmo ancestral”, afirma Carlos Barata, autor do Dicionário das Famílias Brasileiras e presidente do Colégio Brasileiro de Genealogia.
Ele concluiu que a família Cavalcanti (ou Cavalcante, a variante aportuguesada) é a maior do país após pesquisar por mais de dez anos os descendentes das primeiras famílias a chegar ao Brasil. “Tomei como ponto de partida as famílias brasileiras no início da colonização e identifiquei o número de descendentes por volta do século 17”, diz o genealogista. “Nesse período, os descendentes de Filippo Cavalcanti já apareciam às centenas, numa expansão impressionante.” Mas, afinal, qual a origem de Filippo Cavalcanti e o que o teria feito trocar Florença, uma das cidades mais ricas do mundo, pela distante Pernambuco?
Se hoje os consumidores aguardam com ansiedade por um novo lançamento da Apple, no século 16 boa parte do mundo desejava os produtos importados por Florença. Centro artístico e financeiro do planeta, as casas de comércio da cidade tinham sucursais espalhadas pelas principais capitais europeias, de onde negociavam artigos de luxo, como tecidos caros, obras de arte de grandes artistas da Renascença.
E, especialmente, faziam empréstimos e outras transações financeiras que deram origem aos bancos modernos. Uma dessas casas florentinas que operam em Londres, a Bardi e Cavalcanti, era comandada pelo pai de Filippo, Giovanni Cavalcanti, e tinha como principal cliente o próprio rei da Inglaterra. Além de famoso pelos 6 casamentos, Henrique 8º era músico e poeta. Enfim, um monarca de gosto refinado e ávido por trazer à sua corte um pouco do esplendor artístico das cidades italianas. Para isso, contava com Giovanni, que mantinha correspondência com gente como Michelângelo e é citado pelo primeiro biógrafo dos artistas italianos, Giorgio Vasari, no livro As Vidas dos Artistas, pela encomenda de uma obra do pintor Rosso Fiorentino. Recentemente, o pesquisador Marcelo Bezerra Cavalcanti, coautor do livro Os Cavalcantis: na Itália, no Brasil, encontrou num arquivo de Florença uma carta de Henrique 8º endereçada a Giovanni em solidariedade a um confisco de bens de que sua casa comercial fora alvo em Florença.
Mas, se a vida de Giovanni Cavalcanti é relativamente bem conhecida, as razões que trouxeram seu filho Filippo ao Brasil permanecem vagas. Sabe-se que em 1558 ele se encontrava em Lisboa quando pediu uma Certidão de Nobreza ao duque Cosimo de Medici, que respondeu atestando que os Cavalcantis em Florença “resplandecem com singular nobreza e luzimento”. Enfim, uma carta de recomendação importante em um tempo em que a linhagem familiar valia bem mais para o mundo dos negócios do que hoje vale um MBA de Harvard. Até agora, há duas hipóteses sobre a viagem do jovem Filippo ao Brasil – e não necessariamente excludentes. A primeira, clara, era o interesse no comércio de açúcar, que apesar da recente expansão de produção ainda era considerado um artigo de luxo na Europa. O historiador Sérgio Buarque de Holanda, após viver dois anos na Itália na década de 1950, ensinando na Universidade de Roma, escreveu um artigo sobre os projetos de colonização e comércio toscanos no Brasil durante o tempo do grão-duque Fernando I (1587-1609), mostrando como a costa brasileira já estava na mira dos italianos há tempos. Antes mesmo de o Nordeste se tornar uma potência mundial na produção do açúcar, o interesse comercial dos italianos nas técnicas de plantio, produção e refino fez com que muitos viajassem para as ilhas portuguesas no Atlântico, que serviram de modelo para a futura colonização do Nordeste. Assim como fariam mais tarde os holandeses, comerciantes de Gênova, Florença e Veneza eram especialistas na importação desses artigos do Novo Mundo para reexportá-los com boa margem de lucro para o resto da Europa.
Além do interesse no açúcar, outro motivo que pode ter trazido Filippo ao Brasil foi buscar refúgio das sanguinolentas disputas de poder em Florença, descritas pela primeira vez com realismo anos antes por Nicolau Maquiavel. No lugar de um poder central forte nas mãos de um monarca, a exemplo de outros nascentes Estados europeus, como Portugal, França e Espanha, o poder na instável República Florentina só era alcançado por meio de conchavos e arranjos políticos bancados pelas famílias mais ricas da cidade. Em meio a esse sistema de rodízio de mando, nem mesmo a toda-poderosa família Medici estava livre de golpes, conspirações e tentativas de assassinato, que ocorriam em qualquer lugar. Em 1478, por exemplo, o jovem Juliano de Medici foi assassinado em plena catedral de Florença, alvo de um atentado planejado pela família Pazzi – que também pretendia matar o irmão de Juliano, Lorenzo de Medici, que se salvou ao conseguiu se esconder na sacristia. Em 1559, ano em que Filippo Cavalcanti já estava em Lisboa, outra conspiração contra os Medicis, desta vez para assassinar o grão-duque Cosimo 1º, foi descoberta a tempo.
Conhecida como conspiração Pandolfo Pucci (pelo membro da família Pucci que tomou parte e foi condenado à morte), o planejamento teria contado com participantes de outras famílias, incluindo Bartolomeu Cavalcanti, parente de Filippo. “Ainda que Filippo Cavalcanti não tenha tido nenhuma ligação com o atentado, era prudente que permanecesse longe de Florença”, diz a historiadora Rosa Sampaio Torres, que estuda as ligações dos clã com os movimentos políticos da época. Segundo a historiadora, a trajetória republicana dos Cavalcantis em Florença teria influenciado os movimentos de inconformismo político que marcariam Pernambuco nos séculos seguintes, por exemplo.
Motivações políticas à parte, o fato é que, no Brasil, Filippo Cavalcanti tratou logo de arranjar uma noiva para se associar às famílias importantes da região. E a jovem Catarina de Albuquerque preenchia tais requisitos. Filha do português Jerônimo de Albuquerque (cunhado de Duarte Coelho, donatário de Pernambuco) com a índia Tabira, Catarina era uma legítima mameluca brasileira. Conta a história que sua mãe salvou Jerônimo de ser morto pelos tabajaras após o capitão português ser atingido em um dos olhos por uma flecha. Ao casar com a índia, Jerônimo selou a paz com os índios e batizou a esposa com o nome cristão de Maria do Espírito Santo Arcoverde. Com seu casamento, Filippo Cavalcanti não apenas ingressou na família dos donatários portugueses, como também definiu um dos padrões genéticos das famílias brasileiras, segundo pesquisas da Universidade Federal de Minas Gerais, pelas quais 90% dos brasileiros tinham genes europeus do lado paterno e 60%, genes ameríndios ou africanos por parte de mãe.
No total, Catarina e Filippo tiveram 11 filhos (foram 12, mas o primogênito morreu na infância). Um bom número de descendentes, mas não anormal para a época. O sogro de Filippo, Jerônimo de Albuquerque, teve 24 filhos, o que lhe valeu o apelido de Adão Pernambucano. Apesar de a prole de Jerônimo de Albuquerque ser maior do que a do genro, por algum motivo o sobrenome Cavalcanti aparece em maior quantidade nas gerações seguintes”, diz o genealogista Fábio Arruda de Lima, há mais de dez anos dedicado a pesquisar a origem dos sobrenomes de famílias nordestinas por meio dos engenhos da região. 
Para o genealogista Lima, o sobrenome pode ter se espalhado graças a um reforço feminino. “Muitas mulheres preservaram o sobrenome associado ao do marido, formando relações entre os Cavalcantis e outras famílias importantes, com ramos como Holanda Cavalcanti, Albuquerque Cavalcanti e Acioli Cavalcanti, por exemplo.”
Desde que Fillipo recebeu a doação em 1572 de uma sesmaria para montar o primeiro dos 3 engenhos que viria a ter em Pernambuco, os Cavalcantis se expandiram ligados à açucarocracia local, tendo seus engenhos mais tarde descritos nos relatórios da Companhia das Índias Ocidentais, durante o período da invasão holandesa no Nordeste (1630-1654). A tradição perdurou até o século 19, quando um dos ramos da família em Pernambuco passou a ocupar cargos no Império.
É o caso, por exemplo, dos Cavalcanti de Albuquerque, que por mais de uma vez foram presidentes de Pernambuco (o equivalente ao atual cargo de governador), ocuparam cadeiras na Câmara, no Senado e em ministérios importantes de dom Pedro 2º, como o da fazenda e da guerra, e receberam do imperador o título de visconde. De tanto poder, surgiu nesse período uma estrofe que circulava na região: “Quem nasceu em Pernambuco, há de estar desenganado: ou se é um Cavalcanti ou se é um cavalgado”. Quando, na virada do século 19 para o 20, as plantações de café no Sudeste sobrepujaram as de açúcar no Nordeste, os Cavalcantis já haviam se espalhado por todo o país. No momento em que a presença italiana atingiu o apogeu por aqui, quase mais ninguém associava os Cavalcantis ao florentino que, no século 16, saiu da Toscana para fundar engenhos em Pernambuco. Diferentemente dos recém-imigrados da Itália, os Cavalcantis já tinham mais de três séculos de presença no Brasil. Não é à toa que, mesmo quem não tem o sobrenome Cavalcanti pode ser descendente de Filippo. Alguns exemplos: o compositor Chico Buarque de Holanda (descendente dos Holanda Cavalcanti), o escritor Ariano Suassuna (Suassuna foi o nome de um engenho dos Cavalcantis) e o jurista Evandro Lins e Silva. Todos, por sua vez, são primos distantes de PC (Cavalcanti) Farias, do comediante Tom Cavalcante e de outros milhões que tornaram os Cavalcantis uma família brasileiríssima, com ou sem Silva.

O BRASÃO
O brasão original, florentino, era prateado com cruzetas vermelhas. No Brasil, o escudo foi incrementado com outros padrões, como o leão rampante, duas flores-de-lis (um símbolo da origem nobre da família), um elmo de prata com um hipogrifo – criatura lendária com corpo de égua e cabeça de águia.

O POETA
Guido (1255-1300), o mais famoso Cavalcanti florentino, foi amigo de Dante Alighieri, poeta e político célebre. 

Saiba Mais
LIVRO
Os Cavalcantis, Cássia Albuquerque, Fábio Arruda de Lima, Marcelo Bezerra Cavalcanti e Francisco Antonio Doria, Edições do Jardim da Casa, 2011