sexta-feira, 5 de outubro de 2018

MENSAGENS DE NOSSO SENHOR JESUS CRISTO À SANTA FAUSTINA KOWALSKA





No período que antecedeu à segunda grande guerra mundial, a freira polonesa Irmã Faustina Kowalska, teve várias revelações celestes, todas elas relatadas num diário. Nestas revelações, Nosso Senhor deixava patente que estava fazendo mais uma tentativa de salvar a humanidade, e o caminho era Sua infinita misericórdia. Tratava-se de uma mensagem do amor misericordioso de Deus. Tendo escrito um diário em que eram relatadas todas as aparições e mensagens, foi este proibido de divulgação no ano de 1959. No mesmo ano que João Paulo II ascendeu ao sólio pontifício, 1978, o referido diário teve autorização papal para ser divulgado por não se encontrar qualquer erro doutrinário nele.  Paralelamente, prosseguia o processo de beatificação da freira, que, finalmente, no ano 2000 foi canonizada por João Paulo II. No dia 18 de agosto de 2002, o Papa foi à Polônia para consagrar o Santuário da Divina Misericórdia, construído ao lado do convento onde viveu Santa Faustina. Estava oficialmente aprovado o texto da mensagem de Nosso Senhor transmitido àquela Santa.
Destacamos abaixo alguns textos extraídos do livro "Diário da Serva de Deus Ir. Faustina Kowalska, professa perpétua da Congregação de N. S. da Misericórdia" (publicado pela  Congregação dos Padres Marianos - Curitiba-PR)


A ira divina
"À noite, quando me encontrava na minha cela, vi o Anjo executor da ira Divina. Estava vestido de branco, com o rosto radiante, uma nuvem a seus pés, da nuvem saíam trovões e relâmpagos para as suas mãos, e delas só então atingiam a terra. Quando vi esse sinal da ira Divina, que deveria atingir a terra, e especialmente um determinado lugar que não posso mencionar por motivos justos, comecei a pedir ao Anjo que se detivesse por alguns momentos, que o mundo faria penitência. O meu pedido porém não  significava nada diante da ira Divina. Nesse momento vi a Santíssima Trindade. A grandeza de Sua Majestade traspassou-me profundamente e eu não ousava repetir minha súplica..." (pág.160)
"Essa oração é para aplacar a Minha ira: recitá-la-ás por nove dias por meio do terço do Rosário da seguinte maneira: primeiro rezarás um Pai Nosso e Ave Maria e o Credo, em seguida, nas contas de Pai Nosso, dirás as seguintes palavras:  Eterno Pai, eu Vos ofereço o Corpo e Sangue, Alma e Divindade de Vosso diletíssimo Filho, Nosso Senhor Jesus Cristo, em expiação dos nossos pecados e dos do mundo inteiro; nas contas das Ave Maria rezarás as seguintes palavras: pela Sua dolorosa Paixão, tende misericórdia de nós e do mundo inteiro. No fim rezarás três vezes estas palavras: Deus Santo, Deus Forte, Deus Imortal, tende piedade de nós e do mundo inteiro" (pág. 161)

Ninguém escapa ao Braço de Deus
"Escreve:  - Sou três vezes santo e abomino o menor pecado. Não posso amar uma alma manchada pelo pecado, mas quando se arrepende, não há limites para a generosidade que tenho para com ela. A minha misericórdia a envolve e justifica. Com a Minha misericórdia persigo os pecadores em todos os seus caminhos, e alegra-se o Meu Coração quando eles voltam a Mim. Esqueço as amarguras com que alimentaram o Meu Coração e alegro-Me com a sua volta. Dize aos pecadores que ninguém escapa ao Meu braço. Se fogem do Meu misericordioso Coração, cairão nas mãos da minha justiça. Dize aos pecadores que sempre espero por eles, presto atenção ao pulsar do seu coração, para ver quando bate por Mim. Escreve que falo a eles pelos remorsos de consciência, pelos malogros e sofrimentos, pelas tempestades e raios, falo pela voz da Igreja, e se invalidarem todas as minhas graças, começarei a Me zangar com eles, deixando-os a si mesmos, e dou-lhes o que desejam" . (pág. 486)

Os castigos são manifestações da misericórdia divina
"Hoje o Senhor me deu a conhecer a Sua indignação contra a humanidade, que merece pelos seus pecados a abreviação dos dias, mas conheci que a existência do mundo é sustentada pelas almas eleitas, isto é, as religiosas. Ai do mundo se faltarem ordens religiosas" (pág. 403)
"Vi a ira de Deus pendente sobre a Polônia. E agora vejo que, se Deus castigasse o nosso país com os maiores castigos, isso seria ainda Sua grande misericórdia, porque poderia castigar-nos com a condenação eterna por tão grandes delitos. Fiquei toda estupefata quando o Senhor me abriu o véu só um pouquinho. Agora vejo claramente que as almas eleitas sustentam a existência do mundo, para que se complete a medida". (pág. 433)

VISÃO PROFÉTICA DE SANTA FAUSTINA
"Escreve: antes de vir como Juiz imparcial, venho como Rei de misericórdia. Antes de vir o dia da justiça, será dado aos homens este sinal no céu.
"Apagar-se-á toda a luz no céu e haverá uma grande escuridão sobre a terra. Então aparecerá o sinal da Cruz no céu, e das aberturas onde foram pregadas as mãos e os pés do Salvador sairão grandes luzes, que por algum tempo iluminarão a terra. Isto acontecerá pouco antes do último dia". (pág. 34)
"...Então conheci que grande destruição devia realizar por essa tempestade... " (pág. 504)

Os castigos tardam a pedido de Nossa Senhora e por causa dos escolhidos
"Vi Nosso Senhor como um Rei (em) grande Majestade, que olhava para nossa terra com um olhar severo, mas a pedido de Sua Mãe prolongou o tempo da misericórdia" (pág. 360).
"...a Minha mão empunha de má vontade a espada da justiça; antes do dia da justiça estou enviando o dia da misericórdia..." (pág. 447)
"À noite vi Nossa Senhora, com o peito descoberto e a espada que a traspassava, derramando lágrimas amargas e defendendo-nos do terrível castigo de Deus. Deus quer nos aplicar um terrível castigo, mas não pode porque Nossa Senhora nos defende..."
"...Nestes dois dias de carnaval conheci um grande acúmulo de castigos e pecados. O Senhor deu-me a conhecer num instante os pecados do mundo inteiro cometidos neste dia. Desfaleci de terror e, apesar de conhecer toda a profundidade da misericórdia divina, admirei-me que Deus permita que a humanidade exista. E o Senhor deu-me a conhecer quem sustenta a existência dessa humanidade: são as almas escolhidas. Quando se completar o número dos escolhidos, o mundo não existirá mais..."  (págs. 222 e 282)

Deus teria destruído a Rússia
"Ofereci o dia de hoje pela Rússia; ofereci todos os meus sofrimentos e as minhas orações por esse pobre país. Depois da Comunhão, Jesus me disse: - Não posso suportar por mais tempo esse país; não Me tolha as mãos, Minha filha. Compreendi que, se não fossem as orações das almas agradáveis a Deus, já teria transformado em nada toda essa nação...". (pág. 253).

Serão destruídos conventos e igrejas por causa dos maus religiosos
"No final da via-sacra que eu estava rezando, Nosso Senhor começou a queixar-se das almas religiosas e sacerdotais, da falta de amor nas almas eleitas:
"- Permitirei que sejam destruídos conventos e igrejas".
"Respondi: Jesus, mas tantas almas Vos glorificam nos conventos.. Respondeu o Senhor:
"- Essa glória fere o Meu Coração, porque o amor foi expulso dos conventos. Almas sem amor e dedicação, almas cheias de egoísmo e amor-próprio, almas orgulhosas e presunçosas, almas cheias de perversidade e falsidade, almas tíbias, que têm calor apenas para elas mesmas se manterem vivas. Todas as graças que diariamente derramo sobre elas descem como por uma rocha. Não posso suportá-los, porque não são bons nem maus. Instituí os conventos para por eles santificar o mundo, e deles deve brotar uma forte chama de amor e sacrifício. E se não se converterem e não se inflamarem do amor primitivo, farei com que pereçam com o mundo...
"Como poderão sentar-se na prometida sé do julgamento do mundo, se as suas culpas são mais graves que as do mundo, se não há penitência e nem reparação?...  Ah, coração que Me recebeste de manhã, ao meio-dia respiras ódio contra Mim, sob as mais diversas formas. Ah, coração por Mim especialmente escolhido, será para Me fazer sofrer mais? - Os grandes pecados do mundo ferem o Meu Coração como que superficialmente, mas os pecados da alma eleita traspassam o Meu Coração..."  (pág 480).

A vocação da Polônia
"Muitas vezes rezo pela Polônia, mas vejo a grande indignação de Deus contra ela, por ser ingrata. Esforço-me com toda a alma para defendê-la. Incessantemente lembro a Deus Suas promessas de misericórdia. Quando vejo Sua indignação, jogo-me com confiança no abismo da misericórdia, nele mergulhando toda a Polônia e, então, Deus não pode fazer uso de Sua justiça... (pág. 339)
"...Uma Nossa Senhora assim eu ainda não tinha visto. Então olhou para mim bondosamente e disse: Sou Nossa Senhora dos Sacerdotes. Então colocou a Jesus no chão, ergueu a mão direita para o céu e disse: Deus, abençoai a Polônia, abençoai os sacerdotes. E novamente disse: Conta o que viste aos sacerdotes" (pág. 446)
"Quando estava rezando pela Polônia, ouvi estas palavras: - Amo a Polônia de maneira especial, e se for obediente à Minha vontade, Eu a elevarei em poder e santidade. Dela sairá a centelha que preparará o mundo para a Minha vinda derradeira".  (pág. 487)

SANTA FAUSTINA VIU Uma alma eleita, QUEM SERIA?
"Vejo com freqüência uma certa pessoa agradável a Deus. O Senhor tem uma grande predileção por ela, não apenas porque procura venerar a misericórdia Divina, mas pelo amor que tem para com Deus; embora essa alma nem sempre sinta esse amor em seu coração de maneira sensível, e permaneça quase sempre no Horto das Oliveiras. No entanto é sempre agradável a Deus, e sua grande paciência vencerá todas as dificuldades".  (págs. 292/293)
"Conheci que certa alma é muito agradável a Deus, apesar das diversas perseguições; Deus a está revestindo de uma dignidade superior, com o que alegrou-me muito o meu coração".  (pág. 505).

Convento de leigos?
"Hoje vi o convento dessa nova Congregação. Amplas e grandes instalações, eu visitava cada coisa sucessivamente, via que em toda a parte a Providência Divina havia fornecido o que era necessário. As pessoas que viviam nesse convento andavam por enquanto em vestes leigas, mas o espírito religioso reinava em toda a plenitude, e eu arrumava tudo como o Senhor desejava..." (pág. 334).  
Nota: Comenta-se no livro que esse seria o convento pertencente à Ordem que a vidente fundaria futuramente; mas tal não ocorreu, pois a Irmã Faustina não chegou a fundar a Ordem, nem tampouco ocorreu o fato com leigos levando vida conventual. Pode-se conjecturar que, na realidade, trata-se de um convento... de leigos, isto é, pessoas que não fizeram votos oficiais numa Ordem. Pode-se conjecturar que trata-se de uma nova modalidade de apostolado leigo, levando vida consagrada, como João Paulo II falou em 25 de março de 1996 após o Sínodo episcopal ocorrido naquela data.
Podemos muito bem identificar este "convento de leigos" como as casas de formação dos "Arautos do Evangelho", primeira Associação privada internacional de direito pontifício a ser reconhecida pela Santa Sé, fato que se deu solenemente no dia 22 de fevereiro de 2001. A ação apostólica dessa Associação atende os requisitos expostos por João Paulo II em sua "Exortação Apostólica Pós-Sinodal" de 25 de março de 1996, Sobre a Vida Consagrada e sua missão na Igreja e no mundo, com caráter eminentemente profético, quando assim se expressou: "Uma íntima força persuasiva da profecia vem-lhe da coerência entre o anúncio e a vida. As pessoas consagradas serão fiéis à sua missão na Igreja e no mundo, se forem capazes de se reverem continuamente a si próprias à luz da Palavra de Deus. Poderão assim enriquecer os outros fiéis com os dons carismáticos recebidos, deixando-se por sua vez interpelar pelas provocações proféticas vindas dos outros elementos eclesiais. Nesta permuta de dons, garantida por uma plena sintonia com o Magistério e a disciplina da Igreja, resplandecerá a Ação do Espírito, que  “conduz [a Igreja] à verdade total e unifica-a na comunhão e no ministério, enriquece-a e guia-a com diversos dons hierárquicos e carismáticos".



sexta-feira, 21 de setembro de 2018

CORRUPÇÃO DA SOCIEDADE ATUAL: HAVERÁ SOLUÇÃO?






  
PLÍNIO CORRÊA DE OLIVEIRA

Recentemente, na Itália, escândalos sem precedentes fizeram com que o Parlamento votasse uma lei que extingue as penas de prisão aplicadas a políticos, condenados por receber contribuições ilegais destinadas a campanhas eleitorais. Ela foi aprovada no Senado por 139 contra 19, depois de ter sido votada pela Câmara de Deputados em novembro último. Tal legislação estabelece que contribuições ilegais para campanhas políticas não constituem crime, tornando-se apenas "ofensa civil". Dessa forma, os condenados não serão mais presos, devendo tão-só pagar multas.
"A votação no Senado foi uma das poucas demonstrações de unidade da Câmara Alta do Parlamento da Itália" (cfr. "Folha de S. Paulo", 3-12-93). Comunistas e autonomistas da Liga do Norte juntaram-se aos integrantes dos partidos envolvidos nos escândalos de corrupção para a aprovação da lei. "Até hoje, políticos que recebessem contribuições ilegais para campanhas eleitorais poderiam ser condenados até a quatro anos de cadeia. A maioria dos políticos italianos acusados nos recentes escândalos de corrupção – entre eles cinco ex-primeiros-ministros – são suspeitos de terem recebido doações ilegais para suas campanhas eleitorais.
"Segundo o Comitê Judiciário do Senado, as contribuições políticas deixam de ser ilegais, desde que voltadas exclusivamente para o financiamento de campanhas eleitorais. A nova lei é retroativa se beneficiar os réus" (id. ib.).
É lícito financiar candidatos?
Em princípio, pode-se censurar um homem rico, um empresário, que pague uma soma importante para eleger determinado político, defensor de idéias semelhantes às suas?
Daria provas de ser muito sovina um homem que, podendo facilitar, mediante contribuições financeiras, o acesso a cargo público importante a um candidato que apresente um programa capaz de salvar o seu país, não o fizesse.
Em tese, o fato de uma pessoa rica fazer uma doação para a eleição de outra sem posses, não é, em si, ato desonesto. Pode até ser considerado um ato de virtude.
Acordo escuso
Ora, a situação muda de figura quando se observa não ser por afinidade ideológica que determinado empresário ou banqueiro apoia um candidato, por exemplo, à Presidência da República. Se ele financia tal político porque houve um acordo, no sentido de este lhe conceder vantagens na realização de seus negócios, recebendo em compensação pelo dinheiro doado, um contrato comercial vantajoso, a combinação torna-se espúria. E isso implica, muitas vezes, que será contratada para a realização de uma obra pública não a empresa mais eficiente, mas o empresário que facilitou o candidato a obter o cargo público. Um acordo desse tipo transforma um ato de idealismo em negociata, e começa assim a aparecer o lado escuso e espúrio da combinação.
Além disso, o empresário pode cobrar do Estado um preço muito maior do que cobraria outro concorrente que não auxiliou a eleição do candidato. Este ato assume, pois, caráter irrecusavelmente desonesto, porque o empresário cobraria um preço desproporcional pelo serviço prestado.
Corrupção e sistema de governo
Consideradas as coisas em tese, pode-se dizer que este gênero de falseamento da democracia é optativo. Isto é, se as pessoas que entram nesse jogo o quiserem, podem assumir a atitude descrita acima, prejudicando singularmente o Estado e os interesses públicos. Se não o quiserem, contudo, podem agir honestamente. Assim, não se infere daí um argumento contra a forma de governo, nem contra o sistema econômico capitalista. Dessa situação extrai-se apenas uma razão contra o falseamento da forma democrática de governo. Falseamento que pode ocorrer também em outros tipos de governo.
Do ut des; facio ut facias
As considerações precedentes são variações maiores ou menores de um mesmo pensamento central, que se poderia descrever em torno da máxima do Direito Romano: Do ut des; facio ut facias (dou para que tu me dês; faço para que me faças). É uma combinação, um arranjo que pode ser feito de modo desonesto ou honesto, conforme entendimento das partes engajadas no negócio.
O falseamento pode facilmente se dar em qualquer forma de governo vigente no momento, seja democracia, seja monarquia. E também ocorrer tanto no sistema econômico capitalista quanto no comunista. Lembremos que no comunismo os membros do partido – especialmente a cúpula, como a nomenklatura na ex-URSS – constituem uma casta, que obtém todas as vantagens. Isto que já era sabido, tornou-se patente após a queda do Muro de Berlim.
Grau de moralidade pública
O eixo da problemática não se encontra primordialmente, pois, na forma de governo nem no sistema econômico. Ele reside no grau de moralidade pública e, em particular, no comportamento dos homens públicos, numa ou noutra forma de governo, num ou noutro sistema econômico. Onde há pessoas que tomam a sério a existência de Deus, e cumprem, de fato, Sua Lei, tais coisas não acontecem.
Mas, em países onde a população crê na existência de Deus sem seriedade, ou cumpre a sua Lei também de modo não sério, certo número de pessoas pode roubar, beneficiando-se de bens que não são seus.
Não estamos, portanto, em presença de uma questão principalmente econômica, embora tenha algo de econômico; nem tampouco em face de uma questão principalmente política, se bem que tenha algo de político. Estamos diante de uma temática que, apesar de conter reflexos econômicos e políticos, é fundamentalmente religiosa e moral. Onde não há religião nem moral, onde há aniquilamento do valor religioso, da Fé, as coisas necessariamente caminham rumo ao esboroamento completo de toda a ordem econômica, política e social.
E a repressão ao roubo?
É claro que se deve reprimir de modo categórico toda espécie de ilegalidade e de imoralidade. Entretanto, simplesmente punindo os ladrões, nunca se chegará à eliminação do roubo. Porque o número de ladrões tende a crescer, a bem dizer indefinidamente, num país em que a maioria esmagadora da população não cumpre os Dez Mandamentos da Lei de Deus. Caso se prendam cinco ladrões, engana-se quem considerar que seu número diminuiu em cinco. Foram abertas, na verdade, cinco vagas, e para elas surgem cinqüenta candidatos, isto é, cinqüenta novos ladrões. E crescendo o número de ladrões, aumentam os roubos.
O problema é fundamentalmente moral e, a esse título, envolve também um problema religioso.
A ingerência do Estado
As crescentes restrições impostas à propriedade privada conduzem atualmente a uma situação em que, para seu exercício pleno, ela depende de autorização do Estado, segundo a legislação semi-comunista de tantas nações modernas ditas não-comunistas. Dessa forma, por exemplo, a exploração de alguns bens no subsolo – que legitimamente pertencem ao proprietário do solo – só pode se dar com permissão do Estado. Para obtê-la, uma pessoa honesta freqüentemente tem que oferecer um suborno ao funcionário encarregado da autorização, seja para consegui-la ou para que não demore indefinidamente. Quem assim procede, agiu erradamente?
Não. Ele deu dinheiro para obter um direito que legitimamente já era seu. Mais ainda, é o Estado que rouba, ao limitar assim o direito de propriedade injustamente. As irregularidades daí decorrentes criam na máquina política subornos de toda espécie.
Tal procedimento se espalha pela população inteira. Quem paga suborno é tido como pessoa esperta, e quem não o faz, passa por bobo. O esperto ganha dinheiro. O que não suborna fica com um bem que não lhe adianta de nada. Essa é a conseqüência forçosa da ingerência desmesurada do Estado na economia.
Oficialização do roubo
Se até os honestos são obrigados a subornar, que se dirá dos desonestos? O suborno se espalha como uma mancha de azeite sobre um tecido, penetrando em toda a sua contextura.
Em certo momento, quando o número de ladrões torna-se tão grande que é praticamente impossível reprimir o crime sem pôr a nação inteira no cárcere, adota-se a fórmula italiana: declara-se não ser crime o suborno, o qual passa a ser punido apenas mediante multa. Na verdade, duas multas. Uma para o funcionário, outra para o Estado. E a pessoa fica livre para fazer o que quiser. É a oficialização do roubo.
Assim sendo, um vulgar ladrão de galinhas pode ser punido com prisão. Um político, porém, que entra numa negociata eleitoral, não fica desmoralizado e não vai para a prisão. Deve apenas pagar uma multa. E como ele recebe também algum dinheiro, tudo se arranja. Todos ganham dinheiro, todos roubam e o roubo torna-se um costume oficial.
Fim da propriedade privada
Quando se oficializa dessa maneira o roubo, a propriedade privada acaba deixando de existir. Se o roubo se generaliza, multiplica-se não apenas a obtenção de vantagens em negócios públicos, mas todos os negócios tendem a se tornar velhacaria.
Em tal situação, o trabalho perde prestígio e influência, restando apenas como meio de ganhar dinheiro a prática desonesta. O roubo torna-se o rei da sociedade. E o sistema econômico, comunista ou capitalista, afunda na prática do suborno. O país torna-se uma "roubolândia", onde uma minoria de ladrões se locupleta no poder.
A meta é o caos
Esse desfazimento da sociedade conduz a uma adulteração da polêmica comunismo-anticomunismo. Isto é, os comunistas dizem que no regime capitalista o roubo se generaliza. Entretanto, a situação dos países do Leste europeu mostra que, no regime comunista, o roubo e o suborno, na realidade, se instalam de modo generalizado. E as acusações recíprocas de ladrões deixam de ter sentido. E o mundo mergulha na anarquia e no caos.
Caminha-se então para uma ordem de coisas em que a discussão capitalismo-comunismo perde sua razão de ser. Nada é mais nada! Comunismo equivale a capitalismo; capitalismo é comunismo. Todos tornaram-se ladrões e ninguém deixa de ser ladrão, exceto alguns poucos que ainda crêem em Deus.
Essa é a conseqüência da lei recentemente aprovada na Itália. É o primeiro passo para a generalização de um sistema legal mais ou menos parecido como o descrito acima e que atingirá, cedo ou tarde, todas as nações do mundo. Aliás, é o que já ocorreu na França, durante o governo socialista do presidente Mitterrand. Comprovou-se uma corrupção praticada pelo Partido Socialista, e como este possuía, na ocasião, maioria na Câmara de Deputados, votou-se uma lei de auto-anistia. O resultado: perda total da moralidade pública, da compostura política e caminho rumo ao caos.
Que remédio há para isto?
O que falta na sociedade atual são elites. Elites morais, antes de tudo. Mas elites, por excelência, de famílias, nas quais algo se conserva pela recordação de seus maiores, célebres por sua honestidade, e que servem de modelo.
Ora, a democracia, em concreto, arruinou o prestígio das verdadeiras elites. Se não se trabalhar para sua restauração, nada poderá ser feito.
Com o intuito de favorecer as classes mais modestas da sociedade contemporânea, foi sendo dada a esta uma estrutura gradualmente mais igualitária. Daí resultou o esmagamento progressivo das autênticas elites e o desaparecimento paulatino das estruturas e dos valores aos quais a sociedade devia até então a gênese de suas camadas mais cultas e capazes.
A isso se deve a desorientação e a tendência para o caos, cada vez mais acentuadas nos dias que correm.
A experiência brasileira mostra, por exemplo, toda a extensão do perigo e dos prejuízos a que o minguamento das elites pode conduzir uma nação.

A única solução de fundo
Poder-se-ia argumentar: muitos que vêem, a justo título, na falta de religião a raiz de todo o mal, começariam a praticá-la, o que iria eliminando a corrupção. Na verdade, porém, muitas pessoas que admitem estar a irreligiosidade na origem de todo mal, não desejam absolutamente propagar a religião, de maneira a criar um ambiente de austeridade, de severidade moral. Pois isso as obrigaria a mudar seu modo de viver.
A posição assumida por tais pessoas torna-se mais compreensível, se a compararmos com a atitude de certo tipo de jogadores: não se encontra um único adepto do jogo ilícito que sustente ser este honesto, bem como trazer ele vantagens para sua pátria. Assim, embora tal jogo não convenha ao país, convém a ele, enquanto jogador.
A graça divina
Para debelar tal situação é preciso exercer-se um apostolado de caráter essencialmente religioso, que atraia a graça divina. E, com o auxílio desta, um apostolado que toque as almas, as inteligências, as vontades realmente, de maneira a alcançar verdadeiras conversões. E a partir dessas, alguma coisa pode ser feito. Ora, tais conversões são evidentemente dificílimas de se obter em épocas de imoralidade generalizada, pois as pessoas estão muito afeiçoadas às vantagens que esta lhes traz. E, portanto, estarão pouco propensas a abandonar a má vida.
Apóstolos autênticos
Para se descer aos aspectos mais recônditos do problema com vistas à sua plena solução, é necessária a presença de apóstolos como aqueles recomendados por Dom Chautard em sua famosa obra "A alma de todo apostolado". Apóstolos dotados de vida interior verdadeira, desejosos do Reino de Deus antes de todas as coisas, e da realização da vontade e dos desígnios divinos, assim na Terra como no Céu. Apóstolos que arrastem pelo exemplo, e movam pela palavra a população, elaborando as leis do Estado conforme as de Deus. E, assim, consigam alterar o procedimento das pessoas. Em suma, surgindo autênticos apóstolos, poderão estes com sua atuação tocar verdadeiramente as almas, as quais, correspondendo à graça, converter-se-ão.
E para se converter, o homem contemporâneo deverá ser dócil à recomendação de Nossa Senhora de Fátima à humanidade, em 1917, a saber: penitência e oração.

(Transcrito de "Catolicismo" N° 518, Fevereiro de 1994)







domingo, 2 de setembro de 2018

CRÍTICA E CENSURA, JUÍZO NECESSÁRIO PARA A FORMAÇÃO DA OPINIÃO PESSOAL E PÚBLICA






Todo homem passa a vida fazendo juízos sobre a sociedade em que vive, isto é, pensando e tirando conclusões sobre as pessoas, os costumes, os pensamentos, etc. Estes juízos podem ser até coletivos, ocasião em que todos em conjunto criticam e censuram os que pensam diferentes. Este modo de proceder serve para formar e alicerçar a opinião pública. Para tanto, usa-se da crítica e da censura.
A Crítica;- Hoje vê-se a crítica como a simples recusa e condenação feita a algo do qual não se gosta. Criticar é mostrar os erros, é condenar. Mas, não foi bem essa a intenção dos filósofos quando idealizaram a necessidade da crítica. Quando um tema estava em discussão entre eles, havia necessidade de que alguém levantasse idéias opostas a fim de que a tese fosse confrontada e demonstrada sua exatidão. Isso era chamado de crítica, especialmente entre os escolásticos, onde as discussões filosóficas eram mais livres e discutidas abertamente. A condenação ou aprovação, o juízo final do tema não vem com a crítica, mas com a própria conclusão a que se deve chegar no estudo da questão. A crítica é apenas uma fase intermediária.
A Censura – De outro lado, a censura nem sempre provém da crítica. Ela vem muitas vezes da constatação imediata do que se supõe haver erro na idéia que se debate. E censurar não é somente condenar e apontar os supostos erros, mas impedir que os mesmos sejam divulgados. Ela pode ser exercida por cada pessoa individualmente, pelo grupo social a quem todos pertencem, por um país inteiro através de seus governantes, ou por qualquer autoridade que detenha poder para isso. E seu exercício pode ser feito através de meios suasórios simples ou até mesmo pelo emprego de violência. Um pai censura o filho por causa de seus erros e manda que o mesmo obedeça-o, dando razões para isso; mas se o mesmo teima na prática do erro o pai tem a obrigação de usar da força e obrigá-lo a desistir de praticar o mal, castigando-o se for necessário. O mesmo procedimento pode ser praticado pela autoridade de uma pequena comunidade contra os fautores do mal ou de uma autoridade maior de um país, seja contra um indivíduo ou contra grupos deles. A censura, neste caso, é apenas a aplicação da lei.
Conclusão: É com base na crítica e na censura que é construída a opinião pública. É formada esta por ideias e costumes, e quando estes surgem, logo de início as pessoas os confrontam com os opostos (usando assim de crítica) para aquilatar, avaliar, se estão conformes com os conceitos sociais aceitos por todos. Após a crítica, a censura. Quer dizer, as pessoas não somente apresentam as idéias opostas àquelas consideradas erradas, mas passam automaticamente a censurar aqueles que as defendem ou as propagam. Mas, pode também não haver censura, no caso em que o que se critica não merece reparo.

quarta-feira, 2 de novembro de 2016

QUODLIBETA: A BATALHA DE VALVERDE E A AÇÃO ANGÉLICA DIRIGINDO ...

QUODLIBETA: A BATALHA DE VALVERDE E A AÇÃO ANGÉLICA DIRIGINDO ...: A 06 de novembro comemora-se a festa do maior herói de Portugal, o famoso Condestável São Nuno de Santa Maria, ou simplesmente São Nu...

quarta-feira, 31 de agosto de 2016

SENSO DE DIREÇÃO OU DE ORIENTAÇÃO



Todo ser animal tem senso de direção inato. Trata-se do sentido que o faz saber para onde vai e o que buscar. Alguns têm o sentido de direção ou orientação mais aguçado do que outros, mas a maioria o possuem em grau apenas necessário para mover-se em pequenos espaços e poucos deslocamentos. Mas, outros não; possuem sentidos, como os olhos da águia ou o olfato do cão, para sentir e percorrer maiores distâncias sem perder-se. Por exemplo, os gnus viajam centenas de quilômetros na planície do Serengueti, na Africa, por matas, morros e rios, com o fim único de fugir da seca e procurar alimentos. Da mesma forma, há espécies de peixes que nadam centenas e até milhares de quilômetros pelas entranhas do oceano, em profundidades que não lhes permitem sequer alguma orientação com os astros, migrando para áreas longínquas, ou para desovar tranquilamente seus alevinos ou mesmo por causa do clima diferente. Há também aves que voam distâncias enormes em suas viagens migratórias, como, por exemplo, as chamadas “aves de arribação” que atravessam o Atlântico aos milhares, da África para o Nordeste brasileiro, simplesmente para pôr seus ovos e ter suas crias. Depois, fazem a viagem de volta, desta vez com a companhia dos filhotes.
Este senso de direção ou de orientação é essencial para que os animais desempenhem sua auto-regência, possam ter o domínio sobre si que Deus deixou para que cumpram bem seus dias de vida. Mas, apesar de alguns o possuírem de uma forma até sofisticada (como os morcegos, os quais, mesmo cegos, voam e não se chocam contra os obstáculos à sua frente), não há uma só espécie que consiga fazer com que tal senso cresça ou atinja outros graus: tudo o que fazem não são nada senão fruto de sua própria natureza. As pequenas abelhas e as formigas, em seu micro mundo, pode-se dizer que possuem tal senso em grau muito elevado, mas não conseguem ir além daquilo com que foram criadas.
Quanto ao ser humano, possui o senso de direção ou de orientação que se desenvolve de acordo com cada indivíduo em alto grau, podendo alguns chegar a maiores perfeições, outros ficarem estagnados e outros até mesmo retrocederem em seus atributos inatos. Nosso senso de orientação nos faz seguir para qualquer lugar do universo, seja nas entranhas da terra, no ar ou nas profundezas do oceano, sem que se perca, sem que não saiba para que destino seguir nem para onde voltar. Até mesmo no cosmo o senso de orientação do homem é perfeito, fazendo com que o mesmo possa viajar para qualquer astro (se isso for possível) sem que perca o caminho de volta. É claro que poderá haver situações em que determinado indivíduo, ou mesmo grupo, se perca momentaneamente e não ache seu senso de direção. Mas, isto são situações anormais que ocorrem esporadicamente por causa de fatores que perturbem os sentidos humanos em certo espaço de tempo.
Há pessoas que têm tal senso em alto grau, entrando e saindo em cidades grandes, cheias de ruas, de edifícios e complicados labirintos, guardando em sua memória todo o roteiro de ida e vinda dos lugares; o mesmo ocorre com outros que conseguem guiar-se de uma forma inerrante no meio da mata, ou até mesmo no meio do mar. Mas, há também pessoas que têm tal senso em grau diminuto e não conseguem memorizar com facilidade os lugares que vão, nem como conseguiriam voltar para o ponto de partida. Isso mostra como cada ser humano consegue aprimorar em si mesmo o sentido de auto-regência contido no senso de orientação. Alguns têm, até, certas deficiências naturais que os impedem de ser perfeitos nisso.
Mas, engana-se quem pensa que tal senso de orientação no homem só funciona para sua locomoção. Este senso é utilizado para muito além do simples deslocar-se de um lugar para outro. Por exemplo, o homem desenvolve tal senso quando pensa em seu futuro ou no de seus filhos, quando procura estudar para uma carreira promissora, quando procura juntar algumas economias para se prevenir para as incertezas do seu porvir, etc. Esta preocupação é uma fase mais avançada do senso de orientação, coisa que os animais irracionais não possuem. E o homem possui este senso nesta fase assim adiantada porque possui alma, porque tem o elemento espiritual que rege todo o seu ser. E é esse senso que o leva a conhecer em seu interior a necessidade de praticar a virtude da Esperança, pois tudo o que ele pensar em seu interior como preparação para o futuro, seguindo tudo pelo senso de orientação, termina por levá-lo a conceber a necessidade de “esperar” sempre que tudo corra bem: a Esperança torna-se, assim, a certeza do bom êxito naquilo que almeja para o porvir.
A neurofisiologia afirma que todas as funções cerebrais se realizam mediante Atos Reflexos. Inclu­sive as funções mais complexas que formam a base dos fenômenos psíquicos. São de dois tipos: os Atos Reflexos Incondicionados e os Atos Reflexos Condicionados. Os primeiros são aqueles inatos, já nos acompanham desde o nascimento. Em geral, assim como os animais irracionais, os atos reflexos incondicionados são aqueles que se destinam à nossa própria sobrevivência, o instinto de conservação. Há outros atos, porém, que vão além e se destinam, por exemplo, à nossa defesa, nos orientando para que nos afastemos de tudo o que seja risco para nós ou para aqueles que amamos. E, indo mais além, existem os “atos reflexos de orientação”, que guiam o homem para onde vai, para onde vem, o que vai fazer naquele dia, naquela semana ou mês, ou doravante em toda a sua vida, o que pretende ser no futuro, etc.,
Este “ato reflexo” ou senso de orientação desperta no homem dois outros sentidos externos: o assombro e a curiosidade. O assombro se refere ao maravilhamento pelo belo, o bom e o pulcro. A curiosidade pode levá-lo ao conhecimento, ao saber.  Tanto o assombro quanto à curiosidade, e suas conseqüências, como o maravilhamento e a procura do saber, levam o homem ao amor de Deus. No animai irracional, o máximo que tais reflexos de orientação podem causar externamente é a busca da segurança através do medo, um ato reflexo incondicionado de todo ser animal.
Tais atos reflexos ou senso de orientação se manifestam de acordo com as condições de vida e de educação do indivíduo. Ao selecionar estímulos capazes de produzir reflexos condicionados, o córtex cerebral estará realizando uma atividade de síntese e de análise, necessári­as para se alcançar a adaptação indispensável às condições de vida e de equilíbrio com o meio. Se­ria, portanto, uma atividade psicológica aliada aos estímulos nervosos. E por ser “síntese” e “análise” estão ligadas ao ato de julgar pertencente ao poder de regência. Aí entram em ação também a memória e a consciência.
As pessoas que possuem tal senso de orientação em grau maior do que os demais, usam-no para ser guias, orientadores das outras pessoas, assim como o fazem também os Santos Anjos.





sábado, 26 de março de 2016

REMINISCÊNCIAS DE DONA RAIMUNDA


Em visita à casa da mãe nas inúmeras viagens que fiz a Fortaleza, sentamo-nos, como era costume, na varanda de frente, quando ela então passou a narrar suas lembranças de outrora.

Dados da família:
- 1⁰ casamento da vovó Bárbara, cujo nome de solteira era Bárbara Josino da Costa (ou de Oliveira). Após o casamento com Maximino Alexandre Fernandes, mudou o nome para Bárbara Josino Fernandes.
Filhos de Bábara:
Francisco Josino Fernandes (conhecido como “Nenen”), nascido em 1906; Rita Fernandes da Costa (depois mudado para Holanda após o casamento), nascida em 1909; Luiz Fernandes da Costa, nascido em 1911; João Josino da Costa, nascido em 1915 e, Maria Fernandes da Costa (mudado para Lima após o casamento), nascida em 1913.
2⁰ casamento da vovó Bárbara: com Francisco Cavalcante de Paiva, mudando o nome para Bárbara Josino Cavalcante.
Filhos: Raimunda Josino Cavalcante, nascida em 30.6.1919; Alcebíades Josino de Paiva, nascido em 1920; Telina Josino Cavalcante (depois Amorim), nascida em 1922; Hilda Josino Cavalcante (depois Pereira), nascida em 1914 e Antonia Josino de Paiva (cujo sobrenome permaneceu no casamento, o mesmo do marido que era também Paiva), nascida em 1926.
Vovó Bárbara faleceu em abril de 1952, de ataque cardíaco. Vovô Francisco faleceu em junho de 1971, de câncer no pâncreas. Este casou-se uma segunda vez com dona Edwigens Feitosa (depos Paiva), tendo como filha única Maria José de Paiva Cavalcante (depois mudado para Feijó).

Os filhos de dona Raimunda

O primeiro, João Batista Neto, nascido a 8 de março de 1938; o segundo, Francisco Assis Cavalcante, nascido a 20 de julho de 1939; o terceiro com o nome de Jurandir, nascido talvez em 1941, faleceu de desidratação aos dois anos (enquanto ele morria o outro nascia); o quarto, Francisco Cavalcante Neto, nascido a 4 de agosto de 1943. Todos estes quatro primeiro filhos nasceram no Rio Grande do Norte, portanto, nas mãos de parteiras.
O quinto filho, Juraci Josino Cavalcante, nasceu a 8 de agosto de 1946, sendo o primeiro a nascer em Fortaleza, e numa maternidade (“Maternidade César Cals”); Quanto ao sexto, Jurandir Josino Cavalcante, que teve o mesmo nome do outro falecido, nasceu a 20 de agosto de 1948, mas não deu tempo de levá-lo à maternidade, nasceu em casa mesmo.
Maria das Graças Josino Cavalcante, sexto filho, e única mulher, nasceu a 6 de outubro de 1950, na casa de saúde São Raimundo.
Os dois últimos filhos foram Jair Josino Cavalcante, nascido a 11 de novembro de 1954, e Francisco Antonio Josino Cavalcante, a 8 de março de 1958, ambos na maternidade César Cals.
Desta forma, ela criou oito filhos, sendo sete homens e  uma mulher.


Exemplo de concórdia entre casais
Mamãe conta que, ao chegar a Fortaleza, dedicou-se à arte de corte e costura a fim de ajudar papai nas despesas da casa. Certo dia, uma freguesa lhe encomendou um vestido e pediu que usasse o tecido com as figuras nele desenhadas de cabeça para cima. Na hora de confeccionar a roupa, mamãe errou e colocou as figuras de cabeça para baixo. Constrangida, disse ao papai que tinha de comprar outro pano e fazer o vestido novamente da forma que a cliente havia pedido. Mas, ele lhe falou secamente que não fosse comprar outro pano. Ela nada respondeu, porém, caladinha, foi à rua (ao centro da cidade, onde se vendiam os tecidos) e comprou o pano. Chegando à casa  fez novamente o vestido, desta vez da forma como havia pedido a cliente.
Ao terminá-lo, porém, teve uma ingrata surpresa. Papai apareceu na frente dela, repentinamente, e com um fósforo aceso queimou o vestido.  Isto sem dizer uma palavra. Ela, também sem nada dizer, pôs-se a chorar, olhando com tristeza o fruto de seu trabalho ser consumido pelo fogo. Papai saiu dali sem dizer uma palavra. Depois de algum tempo, arrependido, chegava da rua com o tecido que ele agora tinha ido comprar. Entregou a ela para que fizesse novamente o vestido, e o assunto foi assim encerrado.

O ciúme das parentes
Os primeiros anos de casamento eles passaram no Rio Grande do Norte, no lugar Passagem Limpa e Portalegre. Antes, e algum tempo após o casamento, mamãe se dedicava a fazer rendas (de bilros), bordados e redes (que a mãe dela, a vovó Bárbara, fazia no tear, e ela a ajudava).
Mamãe sempre demonstrou ter muito ciúme de suas cunhadas, as irmãs do papai: Anália, Antonia, Salomé e Rita. O pior caso ocorreu com Anália, a mais nova de todas. Quando papai e mamãe se casaram foram morar na casa dele, onde também residia todos seus irmãos, as citadas irmãs mais o de menor idade, Hermes. Seus pais haviam falecido quando papai ainda era bem jovem: perdeu a mãe com doze e o pai com dezesseis anos de idade. Os irmãos mais velhos (Pedro e Doca) haviam se casado e deixado papai como arrimo das mulheres e do mais novo. Não havendo com quem deixar os cuidados das irmãs e do irmão, o jeito foi trazer a esposa para dentro de casa.
O primeiro desentendimento da mamãe com as cunhadas foi quando ela foi atacada por uma vaca (tendo  escapado da mesma subindo numa pedra), enquanto suas cunhadas riam dela. Chegando à casa foi queixar-se com o papai, mas este ralhou com ela por haver tido mede da rês. Estava em início de gravidez e  poucos dias depois abortou seu primeiro filho, o que fez papai ficar muito arrependido de ter brigado com mamãe, supondo ele que, provavelmente por causa disso, ela perdeu o filho.
No entanto, passados alguns dias a coisa foi ficando cada vez mais tensa, especialmente com a cunhada Anália, a mais birrenta. Segundo a mamãe, as irmãs do papai nada faziam para ajudar nas despesas e limpeza da casa, só a mamãe é que trabalhava e tentava ganhar algum dinheiro. Um dia, ela discutiu com a Anália e ameaçou-a botar para fora de casa. E esta última a desafiou, dizendo que estava na casa do irmão dela, que era quem mandava ali. Mamãe não agüentou e exigiu que ela saísse.
Quando papai chega do trabalho, Anália correu logo a lhe fazer queixas e disse que daquela casa não saía, pois era a sua casa. Papai, calado como sempre, nada respondeu;  mas, passados alguns instantes, chamou a mamãe para ajudá-lo em alguma coisa fora da casa e assim falar a sós com ela. Chegando lá ele disse à mamãe que ela tinha de tolerar a irmã dele morando com ela sem brigas, e deu seus argumentos. Mamãe ficou irredutível e disse que exigia que ela  saísse de casa. Papai então foi duro com ela e disse que se não quisesse morar com a irmã dele, e cunhada dela, ele a largaria, o casamento estava acabado.
Aquela exigência e aquelas palavras foram muito duras para ela, que o amava muito e não desejava nunca que houvesse uma separação. Ficou pensativa e acedeu: resolveu concordar em que a Anália ficasse morando na casa com eles.
Mas, os desentendimentos eram constantes, sempre voltavam, e o convívio se tornava insuportável.  Papai resolveu, então, sair para outra casa e deixar seus irmãos morando em casa separados deles. Resolveu assim salvar diplomaticamente seu casamento, embora isso lhe custasse muito por causa do grande amor que nutria por seus irmãos.

Notícias sobre ancestrais mais remotos
Declarações da mamãe:
“Meu avô materno se chamava João Josino e era originário de Tibau, no Rio Grande do Norte. Dizia ele que sua família , a Josino, era descendente da Holanda. Certo dia, quando eu estava com três anos de idade, meu pai levou a  família para morar em Areia Branca, próximo  de Tibau. Minhas irmãs mais velhas (do primeiro casamento da mamãe) saíram para a praia e me deixaram em casa com a mamãe. Então eu chorei tanto para ir também com elas para a  praia que adormeci (consolada pela mamãe) e quando acordei estava toda dormente de tanta raiva. Demoramos pouco tempo em Areia Branca, logo voltamos para nossa casa em Portalegre. Mas lá em Portalegre a família terminou por se separar. Um dia, meu pai bateu em Maria, que era muito geniosa, e causou revolta nos outros filhos, principalmente nas minhas irmãs mais velhas, causando tremenda confusão que fez nos separar. Logo minhas irmãs foram morar  separadas, pois não aceitavam o rigor com que papai as tratava”.

O gavião
Quando ainda estavam recém casados, mas sem filhos ainda, certo dia veio um gavião e desceu sobre os pintos para pegar um deles, mas no momento exato errou o bote, bateu-se em alguma coisa e ficou ferido no chão. Papai foi tentar enxotar a ave, mas ela brigou com ele, com pena do animal, dizendo que o soltasse e deixasse voar e ir embora. Porém, repentinamente, o gavião atacou papai e o feriu no rosto.  Vendo-o com o rosto sangrando, mamãe não contou conversa: pegou um pau e partiu pra cima do bicho com raiva. Nesse momento, ela lembra que papai lhe disse: “Eis uma prova de que  você  realmente gosta de mim”.

O ganha-pão
Antes de se casar, mamãe conta que fazia renda de bilro, costurava, bordava e fazia redes para ajudar nas despesas de casa. Quanto ao  papai, este já havia se acostumado desde muito jovem aos trabalhos da lavoura, e com isso sustentava a si e a seus irmãos. Havia ficado órfão de mãe aos 12,  e de pai aos 16 anos de idade. Trabalhava na roça plantando milho, feijão e mandioca. Mas também criava caprinos e porcos para engorda e venda nas feiras livres. Muitas vezes ele mesmo matava uma criação e um porco, indo em seguida vender a carne para com isso ter o sustento da família.
Personalidades dos cunhados e cunhadas, segundo a mamãe:
- Anália: preguiçosa e arrogante, queria mandar em tudo e vivia pirraçando a cunhada;
- Antonia: a mais  velha, tinha um pouco de tudo isso, mas em grau menor. Era mais compreensiva, mas também não trabalhava para ajudar o irmão;
- Salomé: já era casada e vivia com seu marido;
Rita: também preguiçosa, não ajudava o irmão em nada;
Hermes; desde cedo revelou-se irresponsável, jogador, e se aproveitava da bondade do irmão que o sustentava;
Pedro e Doca: eram já casados, viviam em suas casas com suas  esposas.

O regenerado
Mamãe conta que havia um casal, seu vizinho, que foi pra ela exemplo de concórdia e de fidelidade. No início do casamento o marido agia com muita brutalidade e grosseria com a esposa. Esta, porém, suportava tudo calada, sem nada reclamar. Os dias foram se passando e aquele homem sempre a tratar mal a sua  esposa sem que ela nada replicasse,  suportando tudo calada e com resignação cristã.
Certo dia, o homem tratou a esposa como era costume e, vendo-a  resignada sem nada replicar, parou, ficou olhando admirado e  pasmado para a esposa e disse:
- “Meu Deus, eu não mereço ter uma esposa tão boa. Sendo assim, a partir de hoje vou mudar de vida e vou lhe tratar com carinho e amor”.
Realmente, a partir daquele dia o marido mudou completamente e comportamento e, segundo a mamãe, viveram muitos anos juntos em santa harmonia.

Os filhos mais doentes
Mamãe diz que os filhos  que lhe deram mais trabalho com doenças foram os  primeiros a nascer em Fortaleza, o Juraci e o Jurandir. Apesar de ter sido sempre robusto, o Jurandir foi acometido pelo ataque repentino de uma estranha doença que lhe tapava a garganta, sufocando-o. Sua vida foi salva, segundo a mamãe, graças ao tio José, esposo de sua irmã Toinha. Estando ele de visita á nossa casa, ao ver a criança naquele estado disse ao papai que aquilo era crupe, e que o levasse com urgência ao médico, pois aquela doença mata em menos de 24 horas. Meu pai ficou agoniado, foi até um vizinho, pediu ajuda e o mesmo os levou em seu carro a procura de médico, embora fosse tarde da noite. Saiu em busca de um médico que já conhecia, tendo telefonado antes para saber se o atendia àquelas horas da noite. O médico foi muito gentil e disse que fosse até sua casa, deu o endereço e ficou aguardando. Era quase meia-noite quando chegaram à casa do referido médico. Quando a consulta terminou já era quase uma hora da madrugada. O problema maior é que papai não tinha dinheiro para comprar o remédio, tendo o médico lhe empresado a quantia necessária. No mesmo carro que os levou foram até uma farmácia de plantão, onde foi logo ministrada uma injeção na criança. Compraram também um remédio via oral a ser dado quando chegassem à casa.
Ao chegar foi que perceberam que a coisa era realmente muito grave. Antes da injeção produzir efeito a criança ficou sufocando, embora um pouco quieta. Alguns dias depois, porém, o menino (que tinha em torno de dois anos)  ficou estrebuchando, pulando e impaciente com os ataques da doença. A mamãe ficava com o menino nos braços, segurando para não ficar se batendo, mas logo cansava e o entregava ao papai, e assim os dois se revezavam a noite toda. De 3 em 3 horas eles davam o remédio via oral. Os acessos foram aos poucos diminuindo, até que ao amanhecer de certo dia a criança havia se acalmado.
O outro filho, o Juraci, de repente foi também acometido por uma estranha doença que o impedia de andar. Ela e o papai ficaram aflitos pois o menino já tinha 3 anos e, de repente, passou a andar rastejando pelo chão, não conseguia ficar em  pé. Até hoje ela não se lembra que doença era aquela, só sabe que foram ao médico, deram remédio e ficou curado.



A religiosidade da mamãe
Toda a sua religiosidade, assiduamente católica, foi herdade do pai dela, Francisco Cavalcante de Paiva. Conta ela que seu pai tinha bons livros religiosos, que os lia com freqüência. Quando moravam no  sertão levava os filhos, percorrendo longas distâncias à pé, a fim de assistir às missas dominicais. Certo dia apareceu por lá um santarrão, tido por santo por algumas pessoas. O pai dela foi lá conferir, dizendo, por inspiração do discernimento dos espíritos, que o sujeito não tinha nada de santo. Discutiu com o sujeito, o qual terminou rogando uma praga no vovô. Muito católico e confiante na proteção divina, o Sr. Francisco não teve nenhum medo da praga. Poucos dias depois o santarrão se mostrou quem era ao  bulir com uma jovem do lugar, tendo que fugir de lá às pressas.
O pai da mamãe também era um anticomunista convicto. Soube que a “coluna Prestes” andava pelo sertão e diziam que  passaria pelo lugar onde ele morava com a família. Ao tomar conhecimento dos boatos, mandou fazer uma faixa grande com os dizeres “Abaixo o bolchevismo!”, e colocou-a na entrada do lugarejo a fim de que ficasse demonstrado a  rejeição que tal regime tinha por aquele povo.
Mamãe conta que em Fortaleza  tinha que assistir às missas numa igreja que ficava longe de casa, ao lado do famoso asilo de doentes mentais, conhecido simplesmente como “Asilo”, ou “Asilo da Porciúncula”, nome da igrejinha que ficava ao lado do mesmo. Ela era tão preocupada em não perder o horário da missa que sempre chegava à igreja bem cedinho,  muito tempo antes da missa começar. Certo dia, chegou lá de madrugada, carregando os filhos, todos ainda crianças, mas a igreja estava fechada. Bateu na porta e atendeu um padre, dizendo que era de madrugada e faltava ainda muito tempo para a missa. Mesmo assim ela pediu para que ele deixasse ela entrar com as crianças. No entanto, ele disse que fosse  procurar as irmãs da Porciúncula, que ficava ao lado, onde teria a companhia das freiras. E assim ela fez, ficando aguardando até a hora da missa, isto é, até às 4 ou 5 da manhã como era costume naquele tempo.
Já o pai dela, nunca perdeu uma missa dominical. E até assistia outras missas que podia no meio da semana. Certa feita, quando já morava em Fortaleza e trabalhava como guarda noturno, saiu de seu  posto de trabalho para assistir a uma missa que estava sendo celebrada bem próximo. Não sendo encontrado no seu posto de trabalho, foi demitido do emprego. Apesar de tudo, contou a verdade ao patrão e disse que estava mesmo assistindo  à missa, pois pretendia também comungar.
Esta história tem outra versão da mamãe.  Quando ela tinha cerca de 13 anos, isto é, lá pelo ano de 1932, o pai dela veio com a família tentar a sorte em Fortaleza.  Conseguiu emprego de guarda de trânsito, deixando seu posto de trabalho para assistir a uma missa, no que foi sumariamente demitido porque seus superiores notaram sua falta.


Alguns fatos dramáticos
Dona Raimunda sempre manteve grande serenidade perante alguns fatos dramáticos ocorridos na sua família. Vamos lembrar aqui alguns deles.
Como eram pobres não possuíam mobília apropriada. Assim, como não podiam comprar camas para os filhos dormir, o jeito era dar uma rede pra cada um. E as redes eram guardadas, durante o dia, num enorme caixão de madeira. Certo dia, alguém esqueceu-se de uma lamparina acesa em cima do caixão, que pegou fogo em todas as redes que lá haviam. Foi uma grande correria para apagar o fogo e não deixar se propagar por toda a casa. Neste dia foi o jeito dormir pelo chão mesmo.
O Jurandir, quando criança, foi acometido certa vez de sonambulismo. Levantou-se dormindo, atravessou a rua (que a gente chamava de “Pista do Cocorote”, era a estrada que levava ao aeroporto militar-civil da cidade), entrou na mercearia que ficava do outro lado da rua (seu proprietário era chamado de “Zé da Onça”), e ficou parado em frente ao dono sem nada dizer. O homem perguntava o que ele desejava, mas o sonâmbulo nada respondia. Advertido pelos outros irmãos, papai foi correndo até a mercearia e lá encontrou o fujão ainda em pleno sono. Foi fácil acordá-lo e levá-lo pra casa.
Um dos filhos da mamãe, certo dia, foi encontrado brincando com uma cobra no quintal. Era venenosa, mas por milagre não picou a  criança. Ela pegou de pau e matou a serpente.
Nosso irmão Franciné caiu por duas vezes em cacimbas. Na primeira, foi socorrido por um tio, que pulou na cacimba e resgatou a criança. Na segunda vez, já era rapazinho, e estava ajudando a fazer uma escavação, para aumentar profundidade e dar mais água, quando quebrou-se a corda que o sustentava e caiu no fundo do poço. Foi grave a pancada que teve na cabeça, mas graças a Deus sem maiores conseqüências.
No entanto, os piores momentos, tanto ela quanto papai, foi ver a morte de parentes e amigos, além de assistir muitos doentes vindos do interior em busca de ajuda. Assistiram a morte do esposo da tia Antônia, irmã de meu pai. Algum tempo depois foi a morte dos filhos Jair e Maria das Graças. Muitos parentes doentes estiveram em nossa casa sob os cuidados deles.