sábado, 22 de março de 2008

Mais um fato pitoresco

Eis mais um fato pitoresco da vida de comerciante do Sr. Batista, narrado por João Batista Neto:

"Extremamente religioso, seu Batista foi sempre muito avesso a fetiches, bruxarias e que tais.
Manhã de sábado, bodega cheia. Balcão lotado de fregueses. Alguns iniciando a maratona de final de semana com um copo na mão.
- Seu Batista, meio quilo de açúcar.
- Seu Batista!
- Netinho, meu filho, me atenda. Deixei o café no fogo...
E por aí afora. Pequena multidão de fregueses (mais de três é multidão). Uns sossegados, outros apressados. Crianças, homens, mulheres. Entre elas, uma se destacava. Espremida no meio do povo, autêntico armarinho de tecidos multicores, rosto oval e branco, cabelos avermelhados, bijuterias, berloques, e um sorriso cheio de dentes dourados. Contorcia-se a cigana e se esmerava na faina de decifrar as tortas linhas das mãos da freguesia.
Após ganhar alguns trocados, a cigana dirigiu-se a seu Batista. Pediu-lhe a mão para ler. Deu-lhe este pouca atenção, ocupado que estava no atendimento à clientela. Mas, para não desagradá-la, estendeu-lhe uma das mãos; com a outra administrava o troco para um freguês.
- O senhor é homem forte. Tem filhos sadios e bonitos. Tem muitos filhos. E tem uma filha. Suas linhas me dizem que o senhor vai ficar rico. Esta curva mostra um grande desgosto por que o senhor passou na vida...
A cigana passou a desfiar uma ladainha rica de generalidades e alguns detalhes de fatos da vida de seu Batista.
Por alguns minutos só se ouviam as palavras da mulher. Todos ficaram atentos. Afinal, muita coisa que ela dizia fazia sentido. Idade dos filhos, sexo, doenças, casas, ruas, endereços, etc
Seu Batista, agora quieto, ouvia. Seu rosto enigmático não lhe revelava dúvida, deboche ou crença.
- O senhor vai ter vida longa. Um de seus filhos vai ser doutor e vai lhe dar muitos netos...
Terminado o discurso da mulher, voltou-se seu Batista naturalmente para o atendimento dos fregueses. A bodega mais vazia, alguns não haviam esperado. Um pouco aborrecido com a cigana, mas sem demonstrar, entregou-se às suas atividades. Esqueceu-a.
- Tá pensando que sou trouxa? Vai me deixar esperando aqui?
- ?
- Tá achando que sou burra ou quenga? Sou cigana e de família nobre. Meu pai...
E seu Batista resolvera não lhe dar mais atenção. Tinha o que fazer. As conversas reiniciaram-se. Estava mais quente. O sol se adiantara. O asfalto, amolecido pelo calor, ardia em brasa.
A cigana perdeu a paciência. Encheu o peito (os dois), avançou com seus penduricalhos sobre o balcão, e desafiou:
- O senhor não vai me pagar?
Silêncio.
- Pagar o quê? - retruca seu Batista, entre zombeteiro e curioso.
A mulher empertigou-se, torceu a boca e, rangendo os dentes irregulares e dourados, retrucou:
- E eu não li a sua mão? E eu não acertei tudo? E por acaso eu errei alguma coisa sobre o senhor? Pois fique sabendo que sempre acerto!
Conhecido por seu ceticismo no que toca a astros, espíritos, profetas, bruxos, seu Batista não perdeu a fleuma.
- Errou nada.
- E então?
- Então o passado eu já sabia. O presente não é segredo pra ninguém, pois minha vida é um livro aberto...
A cigana não se deu por vencida.
- E o futuro? Eu lhe dei toda a sua vida sem mistérios pela frente. Suas mãos me disseram o futuro, seu e de sua família.
- É. Mas no futuro eu não acredito. Portanto, nada lhe devo".

UM COMERCIANTE EM APUROS (XIII)



O homem da bengala
A constante de minhas histórias é o aparecimento de um desconhecido que cria problemas; aparece como que do nada, cria o problema, depois desaparece. E pra não fugir da regra... no momento em que estava no balcão, chegou um sujeito de mais ou menos um metro e oitenta, moreno, magro, portando uma bengala de metal e uma peixeira de nove polegadas embrulhada num jornal.
Pôs a faca no balcão e ficou escorado na bengala.
Disse: “Sou irmão do Inspetor Erondino, sou valente, oito soldados não me prendem, quero beber e não vou pagar!
Olhei pra ele e mostrei as prateleiras: “Meu amigo, esta bebida que o senhor está vendo foi comprada, e se o senhor não tiver dinheiro, mesmo que seja Lampião vai sair sem beber!
Ele bateu amigavelmente no meu ombro: “Você é meu amigo, dê-me um cigarro”.
Dei o cigarro... e fiquei pensando comigo mesmo: “Se ele fosse valente mesmo, como é que eu me arranjaria?”Mas graças a Deus mais uma vez me saí bem.

terça-feira, 18 de março de 2008

São José, testemunho silencioso da História



São José é Padroeiro do Ceará, cuja festa se celebra a 19 de março. Nosso pai, o Sr. Batista, tinha por Ele uma devoção especial, conforme nos falou algumas vezes. Um dos aspectos que mais chama a atenção da vida do Patriarca pai de Nosso Senhor Jesus é o silêncio. Mas, mesmo no silêncio, quanto realizou Ele!

Convido meus amigos e parentes a visitar o blog sobre filosofia e religião, clicando aqui http://quodlibeta.blogspot.com/ , onde poderá ler um artigo escrito sobre São José e indicação de alguns links sobre o mesmo assunto.

Juraci josino Cavalcante.

segunda-feira, 17 de março de 2008

UM COMERCIANTE EM APUROS (XII)

Um bêbado que faltou com respeito

Sexta-Feira da Paixão
Neste tempo eu inda bebia
Um dia ela me atacou
Com uma tão grande arrelia
Que eu consoei o jejum
Antes de dar meio-dia
[1]

Por esse tempo o Netinho havia deixado o Seminário[2], e estava trabalhando na Fábrica Santa Cecília. O Assis, meu segundo filho, na aviação. Os outros, muito pequenos, não davam muita ajuda. Mas, nas horas vagas, era o Netinho quem ajudava na mercearia.
E, justo numa hora dessas em que ele despachava, enquanto me encontrava recostado ao balcão pelo lado de fora, entrou um desconhecido, embriagado, que também recostou-se ao balcão. E como percebemos o seu estado, ninguém deu-lhe atenção, mas, para espanto de todos, a primeira palavra que pronunciou foi esta, depois de olhar para o Netinho: “Este cara aí é... veado!” Aproximei-me dele e repreendi-o: “Olha, rapaz, esse aí é meu filho, e exijo respeito”. Ele então repetiu a frase, mas, antes que fechasse a boca, peguei-o e joguei-o de porta a fora. O pobre, sem muito equilíbrio, depois de alguns cambaleios, caiu na calçada de paralelepípedos e ficou estatelado. Porém, fiquei com tanta pena do miserável, que levantei-o, com a ajuda do Netinho, e levei-o para o beco. Acomodei-o à sombra, sob uma mangueira de D. Dica. Lá ficou até melhorar, depois desapareceu.
Até hoje, passados tantos anos, desconheço quem era ele, ou de onde viera.
[1] - Estamos sempre colocando estas poesias de cordel, de autores desconhecidos.
[2] Netinho esteve interno num Seminário (da Ordem dos Salvatorianos) de Jundiaí, em São Paulo, por um período de 6 anos. Para lá foi em 1950, quando tinha apenas 13 anos de idade, e voltou em 1956, aos 19 anos. Foi levado por um padre que gostou muito dele, pois estudava num Seminário Menor que havia em Pacoti(CE), onde hvia sido internado em 1949.

terça-feira, 11 de março de 2008

Homenagem póstuma de um filho (I)

I – No fim da vida, tranqüilidade, alegria, vigor físico

Por: Jurandir Josino Cavalcante

Lendo um livro sobre a vida de São Pio X, no qual o autor descreve o seu carinho à memória do pai João Batista, fiquei tentado a imitá-lo, quando escreveu um oferecimento, singelo, ao seu falecido genitor, no primeiro livro de registro de missas, que assim dizia, em língua latina: “pro patre defuncto”, por meu falecido pai. Esta, pois, será também a minha epígrafe, que anteponho às missas que agora começo a mandar rezar, igualmente como um reconhecimento de um filho da grandeza do pai, cuja lacuna deixada só será preenchida no encontro que espera ter com ele no céu.
Como parecem longe os dias de convivência que privamos com ele, parece se perderem nas brumas de um passado longínquo, guardado em nossa alma, em todos os seus pormenores. Mas esse passado avançou com o próprio viver e atingiu o ponto de chegada. Mas que caminhada! Quanta coisa a lembrar, a encher a imaginação. Enfim, é o momento de parar para dar aquele grande suspiro, cheio de dor porque passou o tempo, mas cheio de alegria porque a obra obedeceu àquelas sábias palavras de São Paulo: “Combati o bom combate, acabei a minha carreira, guardei a fé” (II Tim. 4,7). Era o fim de sua vida e nem percebíamos; eram os seus derradeiros momentos, as suas últimas palavras, os seus últimos olhares. Nada nos fazia pensar, evidentemente apenas os seus acumulados anos, corrijo-me, pouca coisa nos fazia pensar nesse fim próximo. No fim daquele que tinha sido para nós o farol a nos indicar a boa rota a seguir, enfim, o pai, o amigo, o conselheiro... Era ele, apesar de sua fraqueza aparente, de seu pouco preparo intelectual, o nosso super-herói, que chegava na hora certa, que nos acudia no instante oportuno. Como podia ter fim um ser com tão grandes predicados? Porquanto é difícil, senão impossível, pensar que aquele que se ama vai morrer algum dia. Afinal, o amor tem essa virtude, prolonga a vida para além da morte. Pois nós o sentimos em cada momento de nossa vida, vivo, presente, com o seu ar alegre, jovial, a sua disposição para aceitar as dores com resignação e as tristezas com abundantes esperanças numa alegria próxima.
Era esse o nosso velho pai no ocaso de sua vida. Nele inexistia a pressa, a correria, o nervosismo, o levantar a voz. Era a paz de forma excelente, e era a excelência da boa amizade, do riso fácil, da pilhéria, da facécia e salamaleques nos encontros ocasionais com os amigos. Para uns, fazia que puxava uma arma, com outros tratava pelo nome de alguém de má fama, e com o meu sogro dizia: “Compadre, aonde é que dói?” A pergunta tinha uma explicação: “Velho não pergunta ‘como é que vai’, mas ‘onde é que dói’. Para sua esposa, a dona Raimunda, tudo isso ‘era caduquice’, pois não achava nada engraçadas as momices e pilhérias do marido. Apesar de muitas vezes ter sido surpreendida pelos filhos dissimulando o riso após ter tentado demonstrar um desagrado.
Magro, escaveirado, queixando-se apenas de uma dor na perna, gozava de muita saúde, com disposição de sobra para o trabalho. Circunscrevia-se o seu campo de ação ao exíguo quintal de sua modesta casa. Trabalhava com afinco no trato de suas árvores frutíferas. Amava-as, conversava com cada uma, chegava a manter com elas um relacionamento quase de amigos. Subia, colhia os seus frutos, descia. Podava-as, estrumava-as, aguava-as. Sentia-se realizado com fazer diversas qualidades de doces, em calda, em creme, em pedaços, para dá-los aos filhos quando das visitas que recebia deles nos domingos. Quando a semana “demorava a passar”, ia decretado levar o pequeno pote de goiabada para o filho, ocasião em que matava as saudades e atualizava os assuntos. Para cada um tinha um tratamento apropriado, uma palavra ou um dito engraçado no instante de entregar o produto de suas “expedições” naquele seu reino encantado, naquele seu mundo vegetal.

sexta-feira, 7 de março de 2008

UM COMERCIANTE EM APUROS (XI)



Briga do “Catita” com o açougueiro

Se é mulher fica sem jeito
Se é homem perde o caráter
Se é artista perde a arte
Se é rico perde o respeito
Tudo o que faz é mal feito
Segue logo na má regra
Da família furta e nega
Por faltar-lhe a cerimônia
Fica mesmo sem vergonha
O homem que se embebeda [1]


Em minha bodega, quase diariamente, reunia-se a turma da cachaça.[2] Essa turma era composta de pessoas vizinhas, gente amiga que, geralmente, não dava trabalho. E, se acaso aparecia algum elemento estranho criando problema, não precisava me preocupar, a turma se encarregava de enxotá-lo. Eram sempre os mesmos: Pereirinha, Catita, Jorge, Zé Estelo, Acrísio, Galalau, Zequinha e Vicente Pinto. Havia muitos outros, mas não tão assíduos quanto estes.
Um dia, em que estavam presentes apenas o Pereirinha e o Catita, apareceu um magarefe, de nome Eduardo, novo no bairro, procurando entrosamento com o pessoal. Ficaram bebendo, contando piadas, disputando a “rodada” no palitinho: quem perdia, pagava a despesa.
Às tantas o tal açougueiro, já alto na bebida, não sei por qual motivo, iniciou uma discussão com o Catita. Aliás, era este um moço pacato, não gostava de encrenca com ninguém, nem mesmo quando embriagado. Mas o açougueiro, que era sujeito esquentado e que se prevalecia da peixeira à cintura, não conversou muito, puxou da lâmina, que não era pequena, e investiu contra o Catita. Por seu turno, não sendo de briga, como dissemos, o Catita começou a pular para se defender de seu furioso adversário. De repente, o Pereirinha, caindo em si do perigo que estava correndo seu amigo, lançou-se contra o agressor, com a rapidez de um felino, desarmando-o e jogando a arma em cima do balcão.
Atento a todos os lances, peguei a faca e guardei-a. Porém, não conformado com a derrota, o açougueiro brigão voltou-se contra o Pereirinha, numa luta desalmada e... desarmada. Este, apesar da pequena estatura – um metro e meio, para um adversário de um e setenta – não desanimou. Atracados, o mais fraco usou de uma tática, empurrou o outro contra o balcão ao mesmo tempo que olhava-me – suplicante – como a pedir ajuda. Não podendo ficar alheio, abarquei o valentão pela garganta, apertando-o sem muita força, pois logo veio a clemência. Aí falei: “Pode deixá-lo, agora ele vai ficar quieto”. O remédio sendo forte e eficiente terminou por amansá-lo, embora reclamasse de sentir dores na garganta. Mas disse-lhe, desculpando-me, que essas dores iam passar. Por fim, com o Catita se recuperando do susto, os brigões continuaram bebendo, sem qualquer problema, como se esta tivesse sido apenas a cerimônia de iniciação de mais um na turma.

[1] Extraído de poesias de cordel.

[2] Talvez por sua bondade meramente natural e humana, o senhor Batista não percebia o mal que fazia em vender aguardente. O que ele almejava era, antes de tudo, conseguir o sustento de sua família. Deixar de vender um produto que lhe rendesse algum lucro era um sacrifício que exigia a prática de uma bondade superior, que ele sequer imaginava. Apesar de vender o produto, no entanto nunca em nenhum momento ele tentou sequer prová-lo, nem a cachaça nem o cigarro eram vícios que lhe atraíssem.

quarta-feira, 5 de março de 2008

UM COMERCIANTE EM APUROS (X)

Continuamos a divulgar as memórias do Sr. Batista sobre sua vida de comerciante:

De uma discussão que tive com um camelô
Era uma segunda-feira de manhã, recebera, entre outras mercadorias, uma caixa de inseticida “shell-tox”, contendo 36 latas de um litro cada uma. Não tendo nenhum freguês, aproveitei o tempo vago para arrumar o produto na prateleira. Estava bem entretido arrumando a mercadoria, com as costas para o balcão, quando fui abordado por um camelô, perguntando-me se queria comprar manteiga. Olhei, era um rapaz até de boa aparência, estatura meã, cabelos pretos bem penteados, com ele um garoto conduzindo uma lata de manteiga.
A manteiga era vendida a granel, transportada nessa lata que comportava uns dez quilos. Vendia a quantidade que o freguês desejasse. Eu conhecia bem o produto, era adulterado. Compravam uma lata de dois quilos de manteiga de primeira e uma grande quantidade de sebo de gado, que era derretido numa vasilha à parte para ser depois misturado. E assim saíam vendendo esse borralho como boa manteiga.
Pois bem, o moço oferecia o produto dizendo que era de primeira, mas, já conhecedor do caso, não dei-lhe importância: olhei por cima do ombro e disse-lhe que não interessava. Ficou insistindo, com o argumento de que todos os comerciantes vizinhos tinham comprado. Ainda sem lhe dar muita atenção, respondi: “Vou ficar no meio dos outros sem comprar!”. No entanto, talvez porque não lhe dei atenção, ficou ofendido e parou com a insistência em vender o produto, começando por desfazer da mercadoria que eu arrumava na prateleira. Foi dizendo que aquele inseticida não valia nada, que não matava insetos. Apesar do tom desaforado, não estava levando a mal suas palavras, e procurei explicar-lhe que dependia da pessoa saber aplicar bem o inseticida, e que eu mesmo já tinha feito experiência no meu quarto com as portas fechadas e tinha dado bom resultado. Mas continuou desfazendo do produto. Nesse meio tempo, disse-lhe alguma coisa de que não gostou, e, por esta causa, começou por lançar uma saraivada de insultos contra mim. Não vira, até o momento, motivos para briga, mas pedi que se retirasse da minha porta. Aí, ensandecido, disse o malcriado: “Se quer saber quem eu sou venha para o lado de fora!”. Respondi-lhe que não, e não ia porque dali mesmo estava vendo com quem falava, sujeito muito besta e ignorante. Não fosse, não estaria na minha porta insultando-me para briga, ainda mais porque sem motivos. Mais uma vez pedi-lhe que se retirasse da minha porta. Ele, furioso, ia numa porta e noutra, os olhos faiscantes de raiva, depois, sem pronunciar mais palavras, saiu, deixando-me pensativo, livre de sua loucura, mas com uma ponta de preocupação. “Aquele sujeito, desconhecido, com aquela raiva toda de mim, não será que ia pegar-me à traição?” Inimigo, seja de qualquer espécie, nunca é bom.
Decorridos uns quinze dias, indo fazer compras na Rua Conde D’Eu, descia as escadas da Praça dos Leões, e, bem no meio, encontro o “borralheiro” que, ao emparelhar comigo, parou. Olhei-o duramente perguntei: “O que é que você quer?” Ele, com aqueles olhos faiscantes, nada respondeu. Então mandei-o prosseguir, e só lhe dei as costas quando se distanciou. Graças à Maria Santíssima, esta foi a última vez que nos cruzamos.

segunda-feira, 3 de março de 2008

UM COMERCIANTE EM APUROS (IX)

De como me livrei de ser preso por vender bebida alcoólica
"Ele chega no mercado
De manhã logo cedinho
Seu Cazuza, seu Chiquinho
Bote aí um quarteirão
Este aqui é meu quinhão
Logo aí passa da regra
Às vezes sua alma entrega
Por dois vinténs de cachaça
Fica no pau da desgraça
O homem que se embebeda"
[1]

Estava sendo transmitido pelo rádio um jogo de futebol internacional, e uns conhecidos, inclusive uns soldados da Base Aérea, enquanto assistiam, tomavam umas caninhas. E eu sempre vigilante para não ser flagrado pela ronda policial. O jogo começara mais ou menos às vinte e uma horas. Mas, já pelo final, quase vinte e três horas, com a turma ainda em forma, sem que houvesse sequer um embriagado, em animada discussão sobre o futebol, surgiu um carro da ronda policial. Chegavam da Serrinha onde aconteceram umas mortes. Ao todo contava-se cinco agentes-investigadores. Um deles, a bem não entrou, identificou-se como o chefe e foi dizendo: “O senhor, com o estabelecimento aberto a esta hora?”. Expliquei-lhe que o motivo da reunião era para assistirem ao jogo, que tratava-se de gente amiga, e que esperava o final para poder fechar. “Não justifica – contestou-me o policial – pois é proibido ficar com o estabelecimento aberto até a esta hora, e mais ainda onde se vende bebida. O senhor fecha tudo e vem à Delegacia”. Ainda tentei convencê-lo a deixar para o dia seguinte, ele marcasse a hora que eu me apresentava. Mas, decidido a levar-me, disse: “Não, tem que ir agora”.
Fiquei indeciso, não sabia o que fazer. Fui ao quarto falar com a Raimunda, dizer-lhe da intenção do policial de fazer-me acompanhá-lo à Delegacia. Ela ficou nervosa, mas tranqüilizei-a, dizendo-lhe que tudo ia dar certo. De volta, tomei uma resolução, decidi-me a não ir. Dentro de meu balcão, a fim de ganhar tempo, pus-me a arrumar uma coisa e outra. O policial, percebendo minha intenção, apressou-me dizendo que estava demorando muito. Aí disse-lhe: “Calma, rapaz, estou arrumando para poder sair”. Construíra, por estas alturas, o meu plano.
Conforme narrei em outra oportunidade, o meu comércio dispunha de três portas. Foi daí que pude concretizar meu audacioso plano. Pedi ao Santino, meu sobrinho, para fechar as portas. Fechou a primeira, a segunda, e, quando fechava a última, o policial berrou: “E por onde o senhor sai?” . Respondi-lhe: “Ah, eu saio pela porta da sala!”. Enquanto pedia a todos, inclusive aos policiais, para se retirarem, dirigi-me para a sala pela porta interna, abri uma meia-porta e pedi para falar com o chefe. Aí ele todo aborrecido perguntou: “O que é que o senhor ainda quer?” Expliquei-lhe que minha esposa estava muito nervosa, deixasse para o outro dia, quando iria me apresentar. Ao que o agente respondeu, com palavras duras: “Você tem que ir é logo!”. Então, decidido, respondi-lhe: “Mas hoje eu não vou!” E bati-lhe a porta na cara. Fora, ferido em seu orgulho, um deles ainda berrou: “Deixa que amanhã a gente vem buscá-lo para metê-lo no xadrez”. Devolvi-lhe a insolência: “É, depois a gente vê isto!” e caí na cama até de manhã. Preocupei-me ainda no outro dia, com receios de que voltassem, mas como o meu santo era forte, eles não voltaram.

[1] Versos de literatura de cordel.

sábado, 1 de março de 2008

A cultura através da literatura de cordel

Lendo livros de cordel, o Sr. Batista conseguiu intelectualizar-se da melhor forma possível e assim ampliar seus horizontes, saber de algo distante de onde morava, nomes das capitais, situações dos povos dos outros lugares, etc. E lia com tanto gosto aqueles livretos que, já velho, recordava para seus filhos, netos e bisnetos, aquelas poesias que lhe enchiam de satisfação em seus tempos de mocidade. Sua memória nunca lhe traía e conseguiu decorar grande parte das historietas e das poesias de seu tempo. Lembrava com saudades das histórias de um personagem chamado “Cancão de Fogo” , celebrizado pela literatura de cordel.
Um exemplo que bem mostra a riqueza intelectual dos fazedores de versos do sertão é uma poesia que o Sr. Batista sempre repetia quando maduro, de autor desconhecido, que aprendera em sua juventude:
Eu vi um sagüi de espora
Macaco de realejo
Guariba tocar solfejo
Eu vi nos braços da Aurora:
Eu vi uma caipora
Despenseira de um navio
Sapo cantar desafio
Morcego vender fazenda
Catita fazendo renda
O sol tremendo com frio!

O mote é: Eu vi nos braços da Aurora o sol tremendo com frio! Tudo faz crer que o autor da poesia se baseou em nada menos do que no famoso Bocage, que tem uma poesia com o mesmo mote e reza assim:

Se isto vai de foz em fora,
Também com luz diamantina
Vir raiando a matutina
Eu vi nos braços da Aurora:
Só me resta ver agora
O caranguejo de um rio,
Ver os efeitos do cio,
Cantar modas um macaco,
A lua tomar tabaco,
O sol tremendo com frio!