quinta-feira, 30 de outubro de 2008
Ditados nordestinos
- Paga o justo pelo pecador;
- Quem guarda tostão junta milhão;
- Quem é bom já nasce feito;
- Seguro morreu de velho;
- Quem tem fé não morre pagão;
- Sofrer como couro de pisar tabaco;
- Beleza não põe mesa;
- O galo canta onde aí janta;
- Quem olha a casa do vizinho se esquece da sua;
- Água mole em pedra dura tanto bate até que fura;
- Quem cochicha o rabo espicha;
- Costume de casa vai à praça;
- Quem faz o mal para si é;
- Quem trabalha Deus ajuda;
- Quem não tem bons dentes não quebra nozes;
- Melhor só do que mal acompanhado;
- Quem se vexa come cru;
- Depois da tempestade vem a bonança;
- Quem muito escolhe no pior se apega;
- Antes tarde do que nunca;
- Quem quebra galho é macaco gordo;
- Quem economiza tem;
- Quem tem rabo de palha não brinca com fogo;
- Dois bicudos não se beijam;
- Quem fala a verdade merece ser perdoado;
- Quem corre cansa, quem anda sempre alcança;
- Quem não tem padrinho morre pagão;
- Quem se faz de mel as abelhas vêm e comem;
- Quem dá o que tem a pedir vem;
- Gato escaldado tem medo de água fria;
- A Esperança é a última que morre (ou a única que não morre...);
- Quem novo não morre de velho não escapa;
- Quem não pode com o pote não pega na rodilha;
- Não pede esmola porque não tem um saco;
- Quem ama perdoa;
- Quem não arrisca nem perde nem ganha;
- Quem muito quer muito perde;
- O que ri por último, ri melhor;
- Quem planta ventos colhe tempestades;
- Desta mata não sai coelho;
- Guarda o que não precisa para ter o que carece;
- Cada um só dá o que possui;
- Esmola grande até cego desconfia;
- Cochilou o cachimbo cai;
- A galinha do meu vizinho é mais gorda do que a minha;
- Quem dá aos pobres empresta a Deus;
- Quem tem pena de angu não engorda cachorro;
- Quem não tem cão caça com gato*;
- Devagar se vai ao longe;
- Mais vale quem Deus ajuda do que quem cedo madruga;
- Melhor amigo na praça do que dinheiro no bolso;
- Faz o bem sem olhar a quem;
- Em terra de cegos quem tem um olho é rei**;
- Melhor fanhoso do que sem nariz;
- Macaco velho não mete a mão em cumbuca;
- Em terra de sapos, de cócoras com eles;
- Entre espinhos nasce flores;
- Quem tem boca vai a Roma;
Observações:
* - O certo seria "Quem não tem cão caça como o gato", isto é, agachado, silencioso, com cautela e espertamente a fim de não perder a presa; pois não há a mínima possibilidade de se caçar com o gato, mas sim como ele.
** - Esta expressão não é nordestina e teria sido cunhada por Erasmo de Roterdã criticando Camões, cuja fama poética ainda não havia corrido o mundo. Luís de Camões era cego de um olho, e com esta crítica o orgulhoso Erasmo menospreza toda a nação portuguesa, considerada por ele um reino só de cegos.
A Bondade sertaneja (VII)
A busca da perfeição está no interior de cada um
O abade Jean Baptiste Chautard em sua célebre obra “A Alma de Todo Apostolado” afirma dentre outras coisas: “quanto mais o coração estiver unido a Jesus Cristo, tanto mais se tornará participante da qualidade principal do coração divino e humano do Redentor, sua bondade, indulgência, benevolência, compaixão; tudo nele se multiplica e sua generosidade de dedicação há de atingir as raias da imolação alegre e magnânima.
Transfigurado pelo amor divino, o apóstolo atrairá sem esforços a simpatia das almas: “In bonitate et alacritate animae suae placuit”. As suas palavras e os seus atos serão repassados de bondade, dessa bondade desinteressada, que não se assemelha àquela que é inspirada pelo desejo de popularidade ou pelo egoísmo sutil...”
Tal é a bondade de quem se assemelha a Nosso Senhor que as pessoas vêem Deus e Sua bondade manifestada naqueles religiosos que a praticam: “Deus está ali, exclama o ímpio ou o pecador perante essas dedicações”. Mais adiante Dom Chautard define o que seja esta bondade: “Esses anjos terrestres realizam a seguinte definição do Pe. Faber: “a Bondade é a efusão de si nos outros. Ser bom é pôr os outros em lugar de si próprio”. A bondade tem convertido mais pecadores do que o zelo, a eloqüência ou a instrução, e estas três coisas jamais converteram pessoa alguma sem que a bondade nisso influísse de qualquer modo”. (op. cit. pág. 121).
O homem tem de buscar um equilíbrio entre extremos opostos na prática do Bem, de forma a não cair em exageros ou falta de cumprimento do dever. Como diz a sentença de ascética “In medio stat virtus” isto é, a virtude está no meio, está no equilíbrio. Assim, poderemos imaginar algumas situações em que o homem não pode ficar num extremo nem no outro:
- Amor e ódio - Nunca o amor deve ser lânguido, romântico e imbecil; nunca o ódio deve ser rancoroso, invejoso, vingativo e intempestivo;
- Paciência e irritação – Ser paciente sem indolência e sem preguiça, nunca a paciência deve ser fruto da acomodação, estagnação, ociosidade, como os estóicos. Nunca se irritar seria o ideal, mas se tal for necessário, fazê-lo com suma caridade, calma, embora com toda a veemência possível;
- Falar e ouvir – Ouvir sempre mais do que falar deve ser a regra geral, mas falar sempre quando necessário. Saber falar, modular o tom de voz de acordo com a situação e caso. Saber ouvir, ficar atento ao que se diz. Esmerar-se nisto como numa arte;
- Ser cortês e agressivo - A cortesia manda ser sempre cavalheiro e a necessidade da luta manda sempre ir ao ataque. Se for necessário atacar, procurar fazê-lo com cortesia e cavalheirismo, sem se esquecer de dar toda força de ímpeto ao ataque; quando for cortês nunca se esquecer da luta;
- Trabalho e repouso – Trabalhar como se nunca tivesse de repousar, e repousar pensando que o trabalho em breve o está chamando;
- Sofrer e gozar – Aceitar com calma, paciência e resignação todos os sofrimentos que ocorram naturalmente e permitidos por Deus, em especial aqueles decorrentes do cumprimento do dever e do amor a Deus; gozar dos benefícios, prazeres lícitos e riquezas com duplo sentido: glorificando e dando graças a Deus por tudo e intensamente desapegado aos gozos para não pecar por fruição;
- Espírito de vingança e do perdão – O espírito de vingança é fruto da inveja; em geral o possuem as pessoas que não suportam ter seu orgulho ferido – e aí são implacáveis para com os outros. Devemos combatê-lo com o espírito do perdão, fruto da humildade e do amor. Quem ama, perdoa. Mesmo que não se perdoe aquela pessoa, naquele momento, porque ela não pediu ou não aceita o perdão por orgulho – mas é bom ter no íntimo a vontade de perdoar se as condições mudarem;
- Justiça e benevolência – Ser justo é dar a cada um o que lhe é devido: a Deus o que é de Deus, a César o que é de César; mas também consiste em reparar ou restituir o que for tirado de seu legítimo dono: tanto os bens materiais quanto os espirituais ou imateriais, como fama, idoneidade, etc. Às vezes exageramos sendo benevolentes com quem não merece. Para combater tal tendência, ter presente que a benevolência deve ser exercida a quem reparou ou restituiu o mal que haja feito. Não se deve ter benevolência para quem não pretende reparar o mal que tenha praticado contra os outros;
- Corrigir castigando ou doutrinando – Neste sentido o método mais perfeito é o de São João Bosco. Doutrinar deve ser o cotidiano, para formar o caráter da pessoa; ao procurar o erro devemos sempre seguir esta regra: primeiro, ensinar; segundo, admoestar; terceiro, admoestar com rigor ameaçando o castigo; e, por fim, quarto, castigar branda ou rigorosamente conforme a gravidade do erro e as atenuantes de quem errou.
Seria falsa, pois, uma Bondade que visasse somente o amor, a paciência, ouvir sempre, cortesia, repouso, gozo, perdão, benevolência para com todos, brandura em tudo. É preciso ver o outro lado da vida.
quarta-feira, 29 de outubro de 2008
Recado de um bebê que está pra nascer
Para os que não sabem espanhol segue abaixo a tradução do vídeo acima:
Olá, me chamo Marta!
Levo 15 semanas na barriga de minha mãe.
Meu pai nos abandonou.
De maneiras que minha mãe está sem trabalho e sem mais família que eu.
Está muito triste... a ouço chorar muito...
As pessoas, os médicos, estão lhe dizendo o que tem que fazer...
...é abortar.
Podem me explicar o que é isso?
É que vão ajudar à minha mãe e a mim?
Obrigado!
Se o vídeo acima foi feito para combater o aborto, está mal feito; pois o bebê não manifesta nenhum instinto de defesa contra tal pensamento (que é manifestado apenas por estranhos e não pela mãe). No entanto, se o objetivo é propagar o aborto não está, propriamente, mal feito, mas pouco convincente. Colocamos ele aqui no blog porque mostra imagens de um ser humano vivo, como que falando, dando sinais aos que querem matá-lo que cometem um assassinato em todo o sentido da palavra se realizarem o aborto.
segunda-feira, 27 de outubro de 2008
A bondade sertaneja (VI)
Por: Juraci Josino Cavalcante
“Ao que tem fome dá teu pão, mas ao que sofre dá-lhe o coração” (provérbio chinês).
Seriam as boas obras o principal requisito de salvação? Parece que sim, pois Nosso Senhor no Juízo Final apenas indagará sobre elas: tive fome e me destes de comer, sede e me destes de beber, nu e vestiste-me, etc. Isto quereria dizer que as pessoas incapazes de praticar os mais elementares atos de bondade, como os acima citados, não se salvariam.
Na Igreja estas obras são denominadas “Obras corporais de misericórdia”: dar esmolas aos pobres, visitar os enfermos e encarcerados, dar pousada aos peregrinos, enterrar os mortos, dar de comer a quem tem fome, dar de beber a quem tem sede e remir os cativos. Quem passar toda a sua vida nesta terra e nada praticar disto poderá se perder, e quem o fizer se salvaria.
Outros entendem que ao afirmar “tive fome e me destes de comer; tive sede e me destes de beber”, etc, Nosso Senhor está se referindo também ao alimento espiritual e à sede da alma. Se ambas as assertivas são verdadeiras, a pessoa teria que praticar também as “Obras espirituais de misericórdia”: dar bons conselhos, ensinar os ignorantes, castigar os que erram, consolar os tristes, perdoar as injúrias, sofrer com paciência as fraquezas do próximo e rogar a Deus por vivos e defuntos. Então, quem pratica os mais elementares deveres para com o próximo deve crescer em perfeição e cuidar também de praticar as obras espirituais de misericórdia sob pena de estagnar na prática da bondade.
Os exemplos que Nosso Senhor conta em suas parábolas no Evangelho são, em geral, de atos de misericórdia corporais, como a do bom samaritano. Ele mostra, também, um exemplo vivo, o da viúva pobre, que excede os corporais. O gazofilácio era a sala onde se guardava o tesouro do templo, mantido por diversas taxas prescritas por Moisés e doações voluntárias. Nosso Senhor pôs-se a observar, sentado em frente ao gazofilácio, as pessoas colocarem o dinheiro lá dentro. Chamou-lhe a atenção uma viúva que lá depositou uma pequena moeda e disse: “Na verdade vos digo que esta pobre viúva deu mais que todos os outros que lançaram no gazofilácio, porque todos os outros deitaram do que lhe sobraram, ela porém deitou do seu necessário tudo o que tinha, todo o seu sustento” (Marcos 12, 42-44).
Quer dizer, a pobre viúva praticou um ato de bondade de natureza superior, espiritual e não corporal, pois fez um ato de renúncia de si mesma e de confiança na Providência divina ao depositar tudo o que tinha no gazofilácio. Maior ato foi praticado pelos Apóstolos e discípulos de Jesus que deixaram tudo para segui-Lo e cuja recompensa é grande: “Então disse Pedro: Eis que deixamos tudo e te seguimos. Ele disse-lhes: Em verdade vos digo que ninguém há que tenha abandonado a casa, a mulher, os irmãos, os pais ou os filhos por causa do reino de Deus, que não receba muito mais já neste mundo, e no século futuro a vida eterna” (Lc 18, 28-30)
quinta-feira, 23 de outubro de 2008
A verdadeira ecologia: a variedade na desigualdade da Natureza
domingo, 19 de outubro de 2008
A Bondade sertaneja (V)
“Omni custodia serva cor tuum, quia ex ipso vita procedit” - Cuidai com toda a vigilância do teu coração, pois dele vem a vida. (Prov 4, 23)
Que significa “coração” ? O sentido que na Igreja os místicos e teólogos dão para a palavra coração, evidentemente não é o que diz respeito ao órgão carnal. Para eles o coração é o centro das atenções de uma pessoa, é o foco de seus desejos, de sua vontade, de seu querer. Assim, quando nos referimos ao Sagrado Coração de Jesus, ou ao Imaculado Coração de Maria, queremos nos reportar ao centro das atenções e dos desejos de Nossa Senhor e de Nossa Senhora. Pois não há nenhum outro órgão humano que mais se aproxime dos desejos do que o coração Muito mais do que sensações ocorrem com uma pessoa humana. Por exemplo, o querer, o desejo não provém do cérebro, mas da alma e a fonte do desejo, no homem, está muito bem representado pelo coração, que no caso é como se fizesse representar a alma humana. Existem algumas expressões que definem muito bem o coração humano: de “coração partido”, quer dizer quando a pessoa sofre contrariedades, quando tem sua vontade contrariada, isto “parte” o seu coração, isto é, seus desejos; de “coração ardente”: trata-se de uma pessoa que ama apaixonadamente, ardorosamente; “de coração”, é quando alguém faz algo de inteira vontade e desejo: fulano fez tal coisa, ou ama a outra, “de coração”, quer dizer, com toda a sua vontade: “coração solitário” é quando alguém vive isolado sem ter com quem compartilhe suas aspirações, seus desejos, etc.
Este conceito de que o coração é o centro da vontade, do querer, é confirmado por Nosso Senhor no Evangelho, quando diz: “Porque o coração deste povo se tornou insensível, os seus ouvidos tornaram-se duros e fecharam os olhos, para não suceder que vejam com os olhos, ouçam com os ouvidos, entendam com o coração, se convertam e eu os sare” (Mt 13, 15), e “...as coisas que saem da boca, vêm do coração, e estas mancham o homem; porque do coração saem os maus pensamentos, os homicídios, os adultérios, as fornicações, os furtos, os falsos testemunhos, as palavras injuriosas. Estas são as palavras que mancham o homem”. (Mt 15, 18-20). Da mesma forma os bons pensamentos, contrários aos que acima foram expostos, provêm de um bom coração, e produzem por sua vez boas palavras e virtudes nos homens.
Medicina popular nordestina
AMEBA. Tomar, durante trinta dias, em jejum, um copo de água fria com três gotas de creolina.
ASMA. 1) Tomar chá feito com enxerto-de-passarinho. 2) fumar um cigarro feito com folhas secas de zabumba. 3) comer testículos de porco assados e sevidos sem sal. 4) Tomar fel de boi misturado com um pouco de cachaça. 5) Tomar chá feito com o chocalho da cobra cascavel. 6) Tomar chá de "olho" que tem na pena do pavão.
AZIA. Beber um copo d`água no qual foram colocados três pitadas de cinza fria.
BICHO-DE-PË. Depois de retirado o bicho-de-pé, com auxilio de um alfinete, encher a cavidade com sarro de cachimbo.
GALO. Quando o sapato é novo, o calo é uma certeza: 1) colocar sobre o calo cera-de-ouvido. 2) Pingar no calo cera de aveloz.
CATAPORA. Para a catapora acabar de sair ou sair ainda mais depressa, nada como tomar chá feito de cabelo-de-milho sem açucar.
CACHUMBA. Aplica-se, no local, um emplasto feito com lodo de carregar água da cacimba.
DEDO, PÉ ou BRAÇO DESMENTIDOS. Dar uma surra no lugar afetado com um saquinho de sal grosso.
DESMAIO. 1) Passar, dentro do começo do nariz da pessoa desmaiada, uma pena de galinha até a pessoa voltar a si. 2) Soprar nos ouvidos e bater na sola dos pés a pessoa tornar, volta a si.
DOENÇA-DOS-OLHOS. 1) Pingar, no olho doente, algumas gotas de leite materno. 2) Banhar os olhos com água onde se pôs uma rosa branca.
DOR-DE-BARRIGA. 1) Tomar chá feito com a moela de galinha, crua. 2) Comer uma banana prata verdosa. 3) Comer um pedaço de macaxeira branca, crua.
DOR-DE-CABEÇA. Colocar, sobre a testa, uma mistura feita com pó de café e manteiga.
DOR-DE-DENTE 1) Introduzir na cárie, se couber, uma cabeça de fósforo. 2) Encher a cárie com o pó feito de chocalho da cobra cascavel. 3) Encher a cárie com sarro de cachimbo.
DOR-DE-GARGANTA. Comer tanajura torrada, se for tempo de tanajura.
DOR-DE-OUVIDO. Botar, no ouvido que estiver doendo três gotas de leite materno.
ENJÔO-DE-GRAVIDEZ. Comer pombo bem assado, sem sal.
ENJÔO-DE-VIAGEM-DE-AUTOMÓVEL 1) Colocar uma castanha de caju no bolso, se for homem, ou na bolsa, se for mulher. 2) Mascar uma cabeça de fósforo.
ERISIPELA. Amarrar, no tornozelo, urna fita vermelha.
FURÚNCULO. Para o furúnculo estourar, por si só, nada com colocar no "olho" da cabeça-de-prego, um emplastro feito com o couro do bacalhau, cru.
GALO-NA-CABEÇA. Quando se leva uma pancada na cabeça e aparece um "galo" nada como fazer, sobre ele, forte pressão com a folha de uma faca fria.
HEMORRAGIA. Colocar, no local da hemorragia externa, para parar o sangue, um chumaço de algodão embebido em verniz de carpinteiro.
BEMORRAGIA-NASAL. Molhar a cabeça em água fria e ficar olhando para o céu durante cinco minutos.
HEMORROIDAS. 1) Sentar num pedaço de tronco de bananeira recém-cortado. 2) Colocar uma pela de fumo no local. 3) Colocar compressas de querosene.
HIDROCELE ou ÁGUA-NAS-PARTES. Ferver a água necessária para quase encher uma bacia de tamanho médio em que se tenha colocada uma caixa de charutos vazia, para que o doente se acocore e possa tomar banho do vapor.
IMPINGEM. 1) É bom cobrir a impingem com tinta de escrever. 2) Esfregar a impingem com pólvora de caçador.
INDIGESTÃO. Chá feito com a pele que envolve a moela de uma galinha, crua.
JÁ-COMEÇA ou COCEIRA. Tomar banho com o cozimento de maxixes, sem camê-los.
LOMBRIGA. Comer coco seco raspado, em jejum até aborrecer.
MAL-DOS-SETE-COUROS. Passar, no local, sebo de carne-do-ceará, bem quente.
MIJAR-NA-CAMA. Nada como dar umas capadas na criança com um muçu vivo.
MORDIDA-DE-COBRA. Tomar meia garrafa de querosene e comer um prato de farofa com bacalhau assado na brasa.
MULHER-MANINHA. Para que a mulher venha a ter filhos: 1) Tomar água antes de ter relações sexuais. 2) Dar ao marido, todo dia, no almoço, carne de carneiro preto, com um copo de vinho.
PANOS-BRANCOS. Lavar o rosto ou a parte afetada pelos panos brancos, com água da chuva caída na hora.
PRISÃO-DE-VENTRE. Tomar chá de cupim.
QUEDA-DE-CABELO. Pentear os cabelos com um pente feito de chumbo.
SOLUÇO. Pregar um susto à pessoa que estiver com soluço.
TERÇOL. 1) Engolir nove caroços de limão durante três dias seguidos. 2) Esfregar, no chão, a semente de olho-de-boi e depois colocá-la sobre o olho onde está localizado o terçol.
TRIPA-DE-FORA (Prolapso do reto). Sentar a pessoa acometida do mal em um pedaço de tronco de bananeira cortado na hora.
UMBIGO-CRESCIDO-DE-RECÉM-NASCIDO. Chá de cabelo-de-milho.
URINA-PRESA. Fazer um chá do talo do jerimum, seco e torrado. 2) Chá de alpiste.
É assim que o nordestino pobre procura, quando está doente, ficar bom para que possa cuidar do seu roçado, do seu trabalho. É assim que o imaginário popular sempre caminhou, de mãos dadas com o sonho da saúde e da cura.
quinta-feira, 16 de outubro de 2008
A Bondade sertaneja (IV)
“Eu dormia quando sonhava que a vida feliz consiste em gozar; acordei quando verifiquei que o gozo da verdadeira felicidade consiste em servir”. (anônimo).
Um dos princípios primordiais da perfeição cristã, que é a prática da Bondade, encontra-se nesta frase do Evangelho:
“Vós sabeis que os príncipes das nações as subjugam e que os grandes as governam com autoridade. Não será assim entre vós, mas todo o que quiser ser entre vós o maior, seja vosso servo; e o que quiser ser entre vós o primeiro, seja vosso escravo; assim como o Filho do homem não veio para ser servido, mas para servir e dar a sua vida para redenção de muitos” (Mt 20, 25-28).
Nisto consiste a felicidade aqui na terra: servir ao próximo. Servir, dedicar-se, imolar-se, e renunciar a tudo em benefício dos outros, eis a verdadeira felicidade. Muitos pensam que a felicidade consiste em ter tudo. Pelo contrário, ela consiste em que se dê tudo e por inteiro.
Vejamos um exemplo, também tirado do Evangelho. Um jovem rico, que praticava uma certa bondade, sentiu em seu coração desejos de atingir graus maiores de perfeição e foi ter com Nosso Senhor para que Ele lhe instruísse. Note-se que o jovem se dirige a Jesus Cristo O chamando de Mestre: “Eis que, aproximando-se dele um (jovem), disse-lhe: Mestre, que hei de eu fazer de bom para alcançar a vida eterna? Jesus respondeu-lhe: Por que me interrogas acerca do que é bom? Um só é o bom”. Sim, por que perguntar que se deve fazer de bom? Porque havia em seu coração desejos de bondade, postos pela graça de Deus.
Quer dizer, Bom só Deus, a Perfeição última da Bondade. Mas havia uma maneira humanamente possível de ser bom como Ele: a prática de seus Mandamentos: “Porém, se queres entrar na vida, guarda os mandamentos. Quais? perguntou ele. E Jesus disse: “Não matarás, não cometerás adultério, não roubarás, não dirás falso testemunho. Honra teu pai e tua mãe, e ama o teu próximo como a ti mesmo”. Este é o princípio elementar de qualquer bondade, o primeiro e básico, ou os dois primeiros graus referidos acima.
Mas isso aquele jovem já julgava que praticava a contento e por isto foi adiante, pois tinha desejos de maiores perfeições: “Disse-lhe o jovem: Tenho observado tudo isso desde a minha mocidade. Que me falta ainda?” Sim, o que é necessário para ser mais perfeito? O que resta para atingir um grau de bondade maior? Ao fazer a pergunta aquele jovem dá a entender que recebeu uma graça interior de desejar maior perfeição. “Jesus disse-lhe: Se queres ser perfeito, vai, vende o que tens, dá-o aos pobres e terás um tesouro no céu; e (depois) vem e segue-me. O jovem, porém, tendo ouvido esta palavra, retirou-se triste, porque tinha muitos bens.” (Mt 19, 16-22).
Por esta ele não esperava. Seus sonhos de perfeição esbarravam num enorme obstáculo, seus bens, e ele nunca imaginava que a renúncia deles era um passo maior para ser mais perfeito, atingir uma bondade mais alta. Vejam que no conselho de Nosso Senhor a bondade deverá ir sempre aumentando, a fim de atingir o último grau:
- Primeiro passo: vender tudo o que possui. Isto requer uma total renúncia aos bens terrenos, um total desapego ao gozo deles e uma grande confiança na Providência divina. Uma pergunta deve ter lhe assaltado: de que viverei eu, então? Nem se fala por enquanto na boa ação que ele faria aos pobres, isto vem depois. O primeiro passo dado é em benefício da própria alma ao praticar as virtudes heróicas acima: desapego aos bens, combate ao vício da avareza e confiança em Deus;
- Segundo passo: entregar aos pobres o produto da venda de seus bens. Pois só vender não seria suficiente para atingir um grau maior de bondade. Se ele vendesse e ficasse com os frutos da venda de nada adiantaria, pois com aquele dinheiro ele tornaria a adquirir tantos bens desejasse;
- Terceiro passo: vem (toma a tua cruz) e segue-me. Depois de vender tudo e dar o dinheiro (ou o fruto da venda) aos pobres, ainda assim não estaria completa a senda em busca da perfeição. Mais difícil do que isto seria ainda tomar a própria cruz, as incertezas do futuro, o sofrimento, o desamparo, a possível falta de socorro material. Mais difícil ainda seria seguir a Nosso Senhor, porque teria que enfrentar a opinião dos dominantes, teria que vencer o respeito humano, tornar-se amigo e seguidor daquele Homem tão odiado dos fariseus e quejandos para sofrer junto com Ele as perseguições que viessem. E estar preparado para morrer crucificado: aí estaria o máximo da perfeição, o último grau da bondade, que seria o martírio. O martírio como ponto alto de se ter doado e servido.
O jovem rico, ao ouvir tal conselho, saiu triste dali porque não era este o seu ideal de perfeição, não era assim que ele entendia a Bondade. Pensava talvez ele que havia um meio de acomodar sua vida apequenada e mesquinha com os mais altos desígnios de Deus e assim pudesse se salvar. E por causa disto, Nosso Senhor completou em seguida: “Em verdade vos digo que um rico dificilmente entrará no reino dos céus. Digo-vos mais: É mais fácil passar um camelo pelo orifício de uma agulha, que entrar um rico no reino dos céus” . Para não deixar os bons ricos desesperados, Nosso Senhor deu-lhes este consolo: “Aos homens isto é impossível, mas a Deus tudo é possível”.
terça-feira, 14 de outubro de 2008
A Bondade sertaneja (III)
Um homem de Deus
“Justi fulgebunt sicut sol in regno Patris eorum” – Os justos resplandecerão como o sol, lá no Reino de meu Pai. (Mt 13, 43).
Toda a vida do Sr. Batista resume-se numa filosofia: a prática da bondade. Embora ele não soubesse definir que filosofia fosse esta, que espírito era este que o animava, no entanto ao se analisar seu comportamento, sua maneira de viver, seus pensamentos, sua Fé, tudo se resume nisto: a prática do Bem. Segundo conta em suas reminiscências, ainda criança e sua mãe o ensinara a rezar, instilando em seu inocente coração a noção primeira de piedade. Perdendo sua mãe ainda muito jovem, pois tinha ele apenas 12 anos quando ela faleceu, recomenda-se a Nossa Senhora e passa a adotar a Virgem Santíssima como sua Mãe. E Ela o protegeu de forma extraordinária. Contava ele a um dos filhos que um dia, quando já era mais crescido mas ainda solteiro, foi levado por um parente a uma casa de perdição. Não sabia para onde o levava, mas quando descobriu que ambiente era aquele recusou lá entrar e, interiormente, pediu à Sua Mãe Santíssima que lhe protegesse e desse forças para resistir àquelas tentações. Foi atendido e conseguiu haurir forças para resistir aos assédios sensitivos da carne. Por isto foi abençoado pelo resto da vida, com um casamento santo e uma prole muito cheia de graças divinas. Por isto compôs aquela poesia com o mote “Nasci predestinado para ter uma família unida”. Nisto consistia a maior parte de sua bondade.
É preciso que esteja bem definido em que grau o Sr. Batista praticou esta bondade. Para isto vamos explicar um pouco, abaixo, no que consiste esta bela virtude ou modo de viver.
O que é a Bondade?
“A Bondade é a efusão de si nos outros. Ser bom é pôr os outros em lugar de si próprio”. (Pe. Faber, citado por Dom Chautard).
Segundo São Tomás de Aquino somente Deus tem a Bondade completa, perfeita. Mas o homem pode ser Bom na medida em que participa da Bondade divina, daí ser possível ao homem praticar certa Bondade, isto é, ser perfeito como Deus Pai que está nos céus. Isto está nos Evangelhos.
Neste sentido a Bondade significa perfeição. É a virtude que faz o homem cumprir o seu fim último: tornar-se perfeito e cumprir sua missão.
Mas há um outro sentido de bondade, é aquele que faz as pessoas pensarem que ser bom é não incomodar os outros, não fazer com que as pessoas sofram. No dizer do escritor francês Montesquieu, “talento e bondade significam suprimir de si tudo aquilo que poderia incomodar os outros”. Não estamos falando deste tipo de bondade, mas daquele primeiro.:
Sendo assim, existem vários tipos de bondade ou de homens bons. Os primeiros são os que não praticam o mal, mas que, todavia, com pouco cuidado se exercem em boas obras. Convivem pacifica e quietamente com seus semelhantes, não ofendem a ninguém e não provocam escândalo por más obras.
Se perguntarmos às pessoas se praticam tal bondade, a grande maioria dirá que sim. Costumamos qualificar de bons aqueles que são afáveis em seu modo de viver e sociais para com todos, embora, por outro lado, sejam assaz desidiosos quanto à prática das virtudes ou do cumprimento de seus deveres.
Em segundo lugar teremos aqueles que além de não praticarem más ações, se exercem freqüentemente em boas obras: na sobriedade, na castidade, na humildade, na caridade fraterna, na assiduidade de oração, no amparo aos necessitados, etc. Para este tipo de gente, basta-lhes exclusivamente velar, rezar, dar esmolas, jejuar, trabalhar por Deus e outras coisas semelhantes.
Há outros que superam os anteriores, são os que evitam o mal e praticam assiduamente o bem ao seu alcance, e, depois de haverem feito todo o possível, julgam ter feito pouco, em comparação com o que desejavam e anelam ansiosamente possuir as virtudes da alma e o sabor da devoção interior, o familiar conhecimento de Deus, a percepção do seu amor, julgando que não são nada e nada têm. Procuram atingir sempre uma perfeição maior, não se contentam apenas em evitar o mal e praticar o bem. Deste modo, a bondade humana tem hierarquia: ela vai daquela que consiste em simplesmente não fazer nada de mal até o grau de interessar-se pelos outros, exercendo um trabalho social de bondade coletiva.